Diogo Mainardi
O dízimo do tráfico
"Carlos Magno
de Miranda era um dos líderes da Igreja Universal. Ele relatou os detalhes
de sua ida a Medellín, para receber dinheiro dos narcotraficantes colombianos.
Um mensageiro entregou-lhes 450 000 dólares. As mulheres dos pastores esconderam
o dinheiro nas calcinhas"
O pastor Carlos Magno de Miranda, em 1991,
acusou a Igreja Universal de ter comprado a Rede Record com dinheiro de narcotraficantes
colombianos. Agora, com duas décadas de atraso, o episódio finalmente
poderá ser esclarecido. Os mesmos promotores que, na semana passada, denunciaram
criminalmente Edir Macedo e outros integrantes da Igreja Universal indagam também
a suspeita de que a segunda parcela da compra da Rede Record possa ter sido saldada
com recursos do Cartel de Cali. Carlos Magno de Miranda é uma das testemunhas
arroladas pelo Ministério Público, e os promotores cogitam pedir
a abertura de mais um processo contra os donos da Rede Record.
Carlos Magno
de Miranda era um dos líderes da Igreja Universal. Em 1990, ele se desentendeu
com Edir Macedo e passou a atacá-lo publicamente. Num dos documentos obtidos
pelo Ministério Público, ele relatou os detalhes de sua ida a Medellín,
para receber o dinheiro dos narcotraficantes colombianos. Ele teria viajado com
os pastores Honorilton Gonçalves e Ricardo Cis, todos acompanhados de suas
mulheres. Permaneceram dois dias na cidade. No primeiro dia, aguardaram no hotel.
No segundo dia, um mensageiro entregou-lhes uma pasta contendo 450 000 dólares.
As mulheres dos pastores esconderam o dinheiro nas calcinhas e, de madrugada,
retornaram ao Rio de Janeiro num jato fretado. Segundo Carlos Magno de Miranda,
os fatos teriam ocorrido entre 12 e 14 de dezembro de 1989. Os promotores do Grupo
de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco)
analisaram os registros aeroportuários da Polícia Federal e
epa! documentaram que, naqueles dias, os pastores da Igreja Universal realmente
foram a Medellín, com escala em Manaus.
O Ministério Público,
além disso, entrou em contato com autoridades americanas para poder interrogar
o narcotraficante colombiano Víctor Patiño, que foi preso em 2002
e extraditado para os Estados Unidos. Seu nome foi associado ao da Igreja Universal
em 2005, quando a polícia colombiana descobriu que uma de suas propriedades
em Bogotá uma cobertura de 600 metros quadrados era ocupada
por Maria Hernández Ospina, que alegou ser representante de Edir Macedo.
Uma das dificuldades dos promotores do Gaeco é que Edir Macedo tem cidadania
americana, dado confirmado oficialmente pelo consulado. O Ministério Público
já encaminhou todos os documentos do processo contra Edir Macedo aos Estados
Unidos, para que os americanos possam abrir um inquérito próprio.
A
Igreja Universal, nos últimos dias, atrelou sua imagem à de Lula.
É a mesma estratégia empregada por José Sarney. Um apoia
o outro. Um defende o outro. Edir Macedo está com Lula e com Dilma Rousseff.
Agora e em 2010. Se a Igreja Universal tem um Diploma do Dizimista, assinado pelo
senhor Jesus Cristo, Dilma Rousseff tem um Diploma de Mestrado da Unicamp, supostamente
assinado pelo senhor Espírito Santo. O senhor Edir Macedo e o senhor Lula
se entendem. Eles sabem capitalizar a fé.

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