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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro O
brasileiro da Nokia "De quantos anos de escolaridade
precisará um funcionário da empresa finlandesa no Brasil para se
equiparar a um colega da matriz?" "Ecologia
é o estudo dos ecos." Essa resposta foi dada em um vestibular. O candidato
pode bem haver sido aprovado e estar hoje formado em direito, administração
ou o que seja. Muitos bradam indignados contra tal estado de coisas, denunciando
o absurdo de permitir que entre no ensino superior uma horda de quase analfabetos.
Mas vejamos o outro lado. A Nokia tem fábricas
na Finlândia e também no Brasil. Imaginemos o Alvar, um típico
funcionário da fábrica finlandesa, com um curso médio completo
(de doze anos). Imaginemos agora o Mané, funcionário da Nokia brasileira.
De quantos anos de escolaridade ele precisará para se equiparar ao Alvar
do ponto de vista da sua capacidade lingüística e matemática?
Por exemplo, para entender tão bem quanto o Alvar um relatório técnico.
Tomemos um graduado do nosso ensino médio
público (que dura onze anos). Suponhamos que se forme bacharel em direito.
Terá dezesseis anos de escolaridade.
Ilustração
Atomica Studio
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Mas
os dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa)
mostram que um brasileiro, em média, sabe o mesmo que um finlandês
com cinco anos e meio de escolaridade a menos. Tirando cinco e meio dos dezesseis
anos, terminamos com dez anos e meio. Em outras e cruéis palavras, se o
Mané for bacharel em direito, ainda assim não terá o nível
de compreensão de leitura do Alvar, com seu reles diploma de curso médio.
O grande afluxo de alunos aos vestibulares mostra
uma reação espontânea da sociedade diante de uma educação
pública de péssima qualidade. Os alunos e as empresas que os contratam
não têm força para mudar a educação pública.
Diante de sua impotência, fazem o que podem. Ou seja, para compensar a fragilidade
das escolas, passam mais anos de vida estudando.
Quatro milhões estão no nível superior, para estudar mais
quatro ou cinco anos. Pelo que nos dizem as pesquisas, aprendem muito nesses anos
adicionais. Seu esforço traz grandes ganhos, mesmo para os mais fracos.
Lucram os próprios alunos, as empresas e a sociedade. É infinitamente
melhor do que usar esse tempo para assistir a novelas ou tomar chope.
Isso é verdade, desde que paguem a conta de sua educação
(em vez de ser alunos de uma universidade pública, que é muito cara
para o que dela podem tirar alunos mal formados). Mas não é uma
boa opção de política pública, pois alongar a permanência
na escola é uma maneira pouco inteligente de substituir uma educação
fraca. Contudo, para os atores em jogo alunos e empresas é
a única opção que resta. Diante do fracasso da escola básica,
é o melhor que poderia acontecer. Ao contrário
do que se afirma, com total desconhecimento dos números, os alunos não
estão sendo iludidos por promessas vãs de cursos superiores (embora
haja públicos e privados de péssima qualidade). De fato, sua renda
média ao longo da vida profissional representa 2,7 vezes a de um graduado
do ensino médio. E sua probabilidade de ficar desempregado é entre
duas e três vezes menor. Trata-se de um grande negócio. Para as empresas
também é bom, pois muitos dos diplomados superiores passam a ter
a preparação que poderíamos esperar de um graduado do ensino
médio, em vez de permanecer semi-analfabetos.
Menos de 20% dos bacharéis em direito passam no exame da OAB. E daí?
Simplesmente não serão advogados. Mas, como em muitos outros países
incluindo a França , o curso de direito é uma excelente
formação geral. Ou seja, direito é um curso que também
forma advogados. Fazemos cursos de geometria e
história no ciclo básico. Nem por isso seremos geômetras ou
historiadores. Antes de tudo, a educação, de qualquer nível,
é um processo de desenvolvimento intelectual. Aprendemos a pensar, a ler,
a escrever, a usar números. Isso tanto pode ser o resultado de cursar disciplinas
como geometria ou história quanto de fazer curso superior de filosofia,
direito ou economia. Em sociedades modernas, a
proporção dos que trabalham na área que corresponde ao seu
diploma é cada vez menor. Isso já acontece no Brasil, onde bem menos
da metade dos graduados exerce a profissão que está descrita no
seu diploma (nas áreas sociais, a proporção cai para um quarto
dos graduados). Em suma, o curso superior é
uma solução, diríamos, um remendo. O problema está
nos níveis anteriores. Claudio
de Moura Castro é economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
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