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Ensaio: Roberto
Pompeu de Toledo
Dois clássicos
da dissimulação
O choque entre Zidane
e Materazzi lembra um
outro, que ocorre na política
deste país tropical
A cena que ficará da Copa
do Mundo da Alemanha não será um gol, nem uma artística
jogada de meio-de-campo, nem uma impossível defesa de goleiro.
Será o espetacular golpe que, com seu cocoruto raspado, brilhante
e duro como bala de canhão, o francês Zinedine Zidane
disparou no peito do zagueiro italiano Marco Materazzi. O golpe
em si já foi suficientemente comentado e mostrado na TV.
Faltou enfatizar a singularidade das cenas imediatamente anteriores
uma troca de olhares e palavras que em nada fazia prever
a explosão que se seguiu. Foi um momento supremo na arte
da dissimulação. Os dois vinham andando, de volta
ao campo francês de defesa, assim como quem passeia no bosque,
distraído, e troca eventuais palavras com o circunstante.
De repente, não mais que de repente...
Materazzi revelou-se um virtuose
na arte de xingar fingindo, para quem via de longe, que balbuciava
amenidades. Ele até olhava para os lados, às vezes
para cima, jamais olho no olho do outro, como se espera que ocorra
antes de uma agressão física. Pelo seu jeito vago,
até se diria que comentava o bom tempo que fazia, ou, mais
lírico, que recitasse um poema aos astros. No entanto, de
sua boca saíam palavrões que, amplificados pela sonoridade
da língua italiana, eram como dardos lançados contra
a susceptibilidade do francês. Segundo Zidane contaria depois,
Materazzi ofendeu sua mãe e sua irmã. Mas não
é que simplesmente tenha xingado a mãe e a irmã.
Ele xingou a mamma a mamma! e de quebra
a sorella. Para ouvidos treinados no italiano como os de
Zidane, isso é muito mais grave do que simplesmente xingar
a mãe ou a irmã. Para culminar, Materazzi as qualificava
com aquela palavra que quer dizer prostituta e que em italiano termina
em ...ana, muito mais sonora e ofensiva do que a mesma palavra
em outras línguas. La mamma e la sorella! Ambas
...ane! O francês sentiu como um terremoto a corroer-lhe
as entranhas, mas...
Mas, se o jogo era a dissimulação,
Zidane também foi perfeito. Primeiro, lado a lado com Materazzi,
enquanto o outro despejava suas imprecações, ele não
dizia nada. Parecia que não era com ele. Depois começa
uma corridinha e distancia-se do italiano. Se alguém desconfiasse
que ele acabara de ser alvo de uma provocação, concluiria
em seguida que, sabiamente, fingira que não ouvira e, friamente,
agora voltava ao seu campo para guardar posição. De
repente, não mais que de repente, ele estanca, dá
meia-volta e investe com fúria de touro picado contra o desafeto.
O entrevero entre Zidane e Materazzi lembra a comparação
pode parecer estranha, mas lembra, sim o comportamento dos
candidatos Lula e Alckmin, a propósito da crise de segurança
em São Paulo.
Se há algo que se exige
de um governador, e especialmente dos governadores de São
Paulo e do Rio de Janeiro, nos dias que correm, é uma política
de segurança pública com claro plano de vôo
e resoluta execução. O candidato Alckmin apregoa que,
como governador, saiu-se bem nesse item. Até que em seu mandato
houve conquistas, como a redução do número
de homicídios. Mas permaneceu em estado de cataclismo a situação
nos presídios, e os presídios sabe-se com clareza,
há algum tempo são o centro nervoso de onde
emana a ação do crime organizado. Os atentados de
maio, reeditados na semana passada, fizeram desmoronar o castelo
de areia que era a política de segurança de Alckmin.
No entanto, ele finge que não é com ele. "Crime é
uma questão de caráter nacional", dizia na semana
passada. E assobiava e olhava para o alto, num divórcio entre
as responsabilidades que lhe cabem e o ar que ostenta, digno de
um Materazzi, ao fingir dissertar sobre as estrelas enquanto vocifera
palavrões.
A tática de Lula consiste
em dizer que não tem nada com isso, mas que, bondoso que
é, está pronto a ajudar o estado, desde que solicitado.
Não tem nada com isso? Em boa hora, o coronel José
Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança
Pública (governo FHC), ressuscitou, num trabalho recente,
uma afirmação de 2003 do ministro Márcio Thomaz
Bastos. Dizia ele então que o governo tinha como o primeiro
de seus "princípios fundamentais" que "a responsabilidade
da segurança pública no Brasil cabe ao governo federal,
cabe a este governo federal". E prosseguia: "Não ao governo
federal anterior, não somente aos governos estaduais, mas
ao governo Lula, que não pode ser cúmplice pela pior
forma de cumplicidade, que é a omissão com o crime".
São palavras de uma boa vontade típica do período
em que o governo ainda está fresquinho.
Lula e o ministro Márcio
Thomaz Bastos hoje oferecem a São Paulo a ajuda de uma tal
Força Nacional que, se é que realmente existe (há
dúvidas) e pode ser mobilizada (há dúvidas),
caso venha a pousar na Avenida Paulista jamais saberá voltar
para casa (há certeza). As ofertas de ajuda têm a utilidade
de sugerir que o outro não é capaz de dar conta do
problema. São um primor de dissimulação. Lembram
Zidane, ao se fingir de desentendido enquanto prepara um torpedo
contra o peito do adversário.
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