Edição 1965 . 19 de julho de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Dois clássicos
da dissimulação

O choque entre Zidane e Materazzi lembra um
outro, que ocorre na política deste país tropical

A cena que ficará da Copa do Mundo da Alemanha não será um gol, nem uma artística jogada de meio-de-campo, nem uma impossível defesa de goleiro. Será o espetacular golpe que, com seu cocoruto raspado, brilhante e duro como bala de canhão, o francês Zinedine Zidane disparou no peito do zagueiro italiano Marco Materazzi. O golpe em si já foi suficientemente comentado e mostrado na TV. Faltou enfatizar a singularidade das cenas imediatamente anteriores – uma troca de olhares e palavras que em nada fazia prever a explosão que se seguiu. Foi um momento supremo na arte da dissimulação. Os dois vinham andando, de volta ao campo francês de defesa, assim como quem passeia no bosque, distraído, e troca eventuais palavras com o circunstante. De repente, não mais que de repente...

Materazzi revelou-se um virtuose na arte de xingar fingindo, para quem via de longe, que balbuciava amenidades. Ele até olhava para os lados, às vezes para cima, jamais olho no olho do outro, como se espera que ocorra antes de uma agressão física. Pelo seu jeito vago, até se diria que comentava o bom tempo que fazia, ou, mais lírico, que recitasse um poema aos astros. No entanto, de sua boca saíam palavrões que, amplificados pela sonoridade da língua italiana, eram como dardos lançados contra a susceptibilidade do francês. Segundo Zidane contaria depois, Materazzi ofendeu sua mãe e sua irmã. Mas não é que simplesmente tenha xingado a mãe e a irmã. Ele xingou a mamma – a mamma! – e de quebra a sorella. Para ouvidos treinados no italiano como os de Zidane, isso é muito mais grave do que simplesmente xingar a mãe ou a irmã. Para culminar, Materazzi as qualificava com aquela palavra que quer dizer prostituta e que em italiano termina em ...ana, muito mais sonora e ofensiva do que a mesma palavra em outras línguas. La mamma e la sorella! Ambas ...ane! O francês sentiu como um terremoto a corroer-lhe as entranhas, mas...

Mas, se o jogo era a dissimulação, Zidane também foi perfeito. Primeiro, lado a lado com Materazzi, enquanto o outro despejava suas imprecações, ele não dizia nada. Parecia que não era com ele. Depois começa uma corridinha e distancia-se do italiano. Se alguém desconfiasse que ele acabara de ser alvo de uma provocação, concluiria em seguida que, sabiamente, fingira que não ouvira e, friamente, agora voltava ao seu campo para guardar posição. De repente, não mais que de repente, ele estanca, dá meia-volta e investe com fúria de touro picado contra o desafeto. O entrevero entre Zidane e Materazzi lembra – a comparação pode parecer estranha, mas lembra, sim – o comportamento dos candidatos Lula e Alckmin, a propósito da crise de segurança em São Paulo.

Se há algo que se exige de um governador, e especialmente dos governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro, nos dias que correm, é uma política de segurança pública com claro plano de vôo e resoluta execução. O candidato Alckmin apregoa que, como governador, saiu-se bem nesse item. Até que em seu mandato houve conquistas, como a redução do número de homicídios. Mas permaneceu em estado de cataclismo a situação nos presídios, e os presídios – sabe-se com clareza, há algum tempo – são o centro nervoso de onde emana a ação do crime organizado. Os atentados de maio, reeditados na semana passada, fizeram desmoronar o castelo de areia que era a política de segurança de Alckmin. No entanto, ele finge que não é com ele. "Crime é uma questão de caráter nacional", dizia na semana passada. E assobiava e olhava para o alto, num divórcio entre as responsabilidades que lhe cabem e o ar que ostenta, digno de um Materazzi, ao fingir dissertar sobre as estrelas enquanto vocifera palavrões.

A tática de Lula consiste em dizer que não tem nada com isso, mas que, bondoso que é, está pronto a ajudar o estado, desde que solicitado. Não tem nada com isso? Em boa hora, o coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública (governo FHC), ressuscitou, num trabalho recente, uma afirmação de 2003 do ministro Márcio Thomaz Bastos. Dizia ele então que o governo tinha como o primeiro de seus "princípios fundamentais" que "a responsabilidade da segurança pública no Brasil cabe ao governo federal, cabe a este governo federal". E prosseguia: "Não ao governo federal anterior, não somente aos governos estaduais, mas ao governo Lula, que não pode ser cúmplice pela pior forma de cumplicidade, que é a omissão com o crime". São palavras de uma boa vontade típica do período em que o governo ainda está fresquinho.

Lula e o ministro Márcio Thomaz Bastos hoje oferecem a São Paulo a ajuda de uma tal Força Nacional que, se é que realmente existe (há dúvidas) e pode ser mobilizada (há dúvidas), caso venha a pousar na Avenida Paulista jamais saberá voltar para casa (há certeza). As ofertas de ajuda têm a utilidade de sugerir que o outro não é capaz de dar conta do problema. São um primor de dissimulação. Lembram Zidane, ao se fingir de desentendido enquanto prepara um torpedo contra o peito do adversário.

 
 
 
 
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