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Música
Fraude em tom maior
Um escândalo abala o
concurso internacional de
piano promovido pela Osesp

Sérgio Martins
Fotos divulgação
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Renato Chaui
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ação
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| As pianistas Olga Kopylova
(à esq.) e Simone Leitão e o maestro John Neschling:
elas se classificaram para a final, apesar de terem seu desempenho
contestado |
Em outubro do ano passado, a Orquestra Sinfônica
do Estado de São Paulo (Osesp) anunciou a criação
do Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos. Com prêmios
de até 30.000 dólares, o concurso atraiu a atenção
de pianistas do mundo inteiro. Em meados de maio, os vinte finalistas
foram anunciados. Mas agora, às vésperas das audições
que vão determinar o ganhador, surgem indícios de
que a seleção foi um processo fraudulento, em que
o talento dos participantes ficou em segundo plano. Antigos amigos
e colaboradores, o pianista israelense Ilan Rechtman, ex-diretor
do festival, e o maestro brasileiro John Neschling, diretor artístico
da Osesp, agora trocam acusações. A história
que emerge desse tiroteio é feia: mostra que o sigilo das
inscrições foi quebrado, que alguns músicos
foram protegidos e que notas foram manipuladas para que se criasse
um time de competidores que parecia "adequado" à organização
do evento.
O processo de escolha dos finalistas teve
início em abril. O musicólogo americano Jeffrey Moidel
e o pianista brasileiro Gilberto Tinetti foram contratados para
analisar cerca de 100 gravações. Eles concluíram
essa avaliação por volta do dia 20 e logo em
seguida começou a confusão. A Osesp demitiu Ilan Rechtman
de seu cargo no dia 23 e, numa nota oficial divulgada na quinta-feira
passada, diz que Rechtman incorreu em graves irregularidades: mudou
a ordem da classificação feita por Tinetti e ainda
telefonou para os candidatos brasileiros Luiz Gustavo Carvalho,
Sérgio Monteiro e Nivaldo Tavares dizendo a eles, antes do
anúncio oficial, que estavam na finalíssima (o que
no fim não aconteceu). Em entrevista a VEJA, Rechtman confirma
que mexeu na lista de Tinetti. Mas acrescenta que fez isso porque
o veterano pianista brasileiro confessou ter privilegiado amigos.
Segundo Rechtman, Tinetti sabia de quem eram várias gravações
que, em tese, deveriam ser identificadas apenas por um código.
"Por outro lado, ele pôs em posição muito baixa
pianistas que já ganharam algumas das maiores competições
do mundo", diz Rechtman.
Outro conflito envolve o americano Jeffrey
Moidel. Depois do anúncio oficial dos finalistas, ele comparou
os nomes com suas anotações. "Percebi que meu trabalho
não foi levado em conta. Pianistas a quem eu dei pontuação
baixíssima estavam entre os finalistas", diz Moidel. Ele
aponta um fato escandaloso: o CD da candidata russa Irina Chkourindina
tinha indícios de que a gravação foi editada.
Por causa disso, ela deveria ter sido eliminada mas se classificou.
Neschling diz que desconsiderou o trabalho de Moidel por dois motivos:
ele se hospedou no apartamento de Ilan Rechtman em São Paulo,
o que o poria em suspeita, e deixou de cumprir com todas as formalidades
do processo de seleção.
Neschling nunca avisou Moidel de que suas
notas foram descartadas. Na verdade, a Osesp insistiu para que o
americano fizesse um ranking dos participantes muito depois de já
ter convocado uma substituta para ele. Essa substituta é
a executiva Rosana Martins, que, dias após ter completado
o seu trabalho, se tornou administradora artística da Osesp.
Uma fonte ligada à orquestra diz que a lista final do concurso
foi elaborada por Neschling e Rosana numa reunião a portas
fechadas. Tinetti não esteve nessa discussão. "Eu
fui assinar uma ata de participação. Eles precisavam
resolver assuntos da orquestra e eu fui passear e visitar amigos",
diz o músico. É praxe que pessoas ligadas à
instituição que promove um concurso sejam impedidas
de tomar parte nele, para não causar embaraços. Na
lista final do prêmio Villa-Lobos, contudo, está o
nome da russa Olga Kopylova, pianista da Osesp desde 1999. Kopylova
foi outra das candidatas trucidadas por Moidel em seu relatório
bem como a brasileira Simone Leitão, que também
vai brigar pelo prêmio.
Desde a demissão de Ilan Rechtman,
seis jurados escalados para a final cancelaram sua participação.
Os motivos das desistências são diversos, mas o burburinho
sobre a idoneidade do concurso certamente ajudou. Produtor da Deutsche
Grammophon, o selo de música clássica mais importante
do mundo, o alemão Christian Leins foi uma das baixas. "Tudo
o que posso dizer é que estou escandalizado com o que está
acontecendo", diz ele. Põe escândalo nisso.
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