Edição 1965 . 19 de julho de 2006

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Música
Fraude em tom maior

Um escândalo abala o
concurso internacional de
piano promovido pela Osesp


Sérgio Martins


Fotos divulgação
Renato Chaui
ação
As pianistas Olga Kopylova (à esq.) e Simone Leitão e o maestro John Neschling: elas se classificaram para a final, apesar de terem seu desempenho contestado

Em outubro do ano passado, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) anunciou a criação do Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos. Com prêmios de até 30.000 dólares, o concurso atraiu a atenção de pianistas do mundo inteiro. Em meados de maio, os vinte finalistas foram anunciados. Mas agora, às vésperas das audições que vão determinar o ganhador, surgem indícios de que a seleção foi um processo fraudulento, em que o talento dos participantes ficou em segundo plano. Antigos amigos e colaboradores, o pianista israelense Ilan Rechtman, ex-diretor do festival, e o maestro brasileiro John Neschling, diretor artístico da Osesp, agora trocam acusações. A história que emerge desse tiroteio é feia: mostra que o sigilo das inscrições foi quebrado, que alguns músicos foram protegidos e que notas foram manipuladas para que se criasse um time de competidores que parecia "adequado" à organização do evento.

O processo de escolha dos finalistas teve início em abril. O musicólogo americano Jeffrey Moidel e o pianista brasileiro Gilberto Tinetti foram contratados para analisar cerca de 100 gravações. Eles concluíram essa avaliação por volta do dia 20 – e logo em seguida começou a confusão. A Osesp demitiu Ilan Rechtman de seu cargo no dia 23 e, numa nota oficial divulgada na quinta-feira passada, diz que Rechtman incorreu em graves irregularidades: mudou a ordem da classificação feita por Tinetti e ainda telefonou para os candidatos brasileiros Luiz Gustavo Carvalho, Sérgio Monteiro e Nivaldo Tavares dizendo a eles, antes do anúncio oficial, que estavam na finalíssima (o que no fim não aconteceu). Em entrevista a VEJA, Rechtman confirma que mexeu na lista de Tinetti. Mas acrescenta que fez isso porque o veterano pianista brasileiro confessou ter privilegiado amigos. Segundo Rechtman, Tinetti sabia de quem eram várias gravações que, em tese, deveriam ser identificadas apenas por um código. "Por outro lado, ele pôs em posição muito baixa pianistas que já ganharam algumas das maiores competições do mundo", diz Rechtman.

Outro conflito envolve o americano Jeffrey Moidel. Depois do anúncio oficial dos finalistas, ele comparou os nomes com suas anotações. "Percebi que meu trabalho não foi levado em conta. Pianistas a quem eu dei pontuação baixíssima estavam entre os finalistas", diz Moidel. Ele aponta um fato escandaloso: o CD da candidata russa Irina Chkourindina tinha indícios de que a gravação foi editada. Por causa disso, ela deveria ter sido eliminada – mas se classificou. Neschling diz que desconsiderou o trabalho de Moidel por dois motivos: ele se hospedou no apartamento de Ilan Rechtman em São Paulo, o que o poria em suspeita, e deixou de cumprir com todas as formalidades do processo de seleção.

Neschling nunca avisou Moidel de que suas notas foram descartadas. Na verdade, a Osesp insistiu para que o americano fizesse um ranking dos participantes muito depois de já ter convocado uma substituta para ele. Essa substituta é a executiva Rosana Martins, que, dias após ter completado o seu trabalho, se tornou administradora artística da Osesp. Uma fonte ligada à orquestra diz que a lista final do concurso foi elaborada por Neschling e Rosana numa reunião a portas fechadas. Tinetti não esteve nessa discussão. "Eu fui assinar uma ata de participação. Eles precisavam resolver assuntos da orquestra e eu fui passear e visitar amigos", diz o músico. É praxe que pessoas ligadas à instituição que promove um concurso sejam impedidas de tomar parte nele, para não causar embaraços. Na lista final do prêmio Villa-Lobos, contudo, está o nome da russa Olga Kopylova, pianista da Osesp desde 1999. Kopylova foi outra das candidatas trucidadas por Moidel em seu relatório – bem como a brasileira Simone Leitão, que também vai brigar pelo prêmio.

Desde a demissão de Ilan Rechtman, seis jurados escalados para a final cancelaram sua participação. Os motivos das desistências são diversos, mas o burburinho sobre a idoneidade do concurso certamente ajudou. Produtor da Deutsche Grammophon, o selo de música clássica mais importante do mundo, o alemão Christian Leins foi uma das baixas. "Tudo o que posso dizer é que estou escandalizado com o que está acontecendo", diz ele. Põe escândalo nisso.

 
 
 
 
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