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Entrevista: Henry
Petroski
O fracasso ensina
O especialista em design diz que os desastres
envolvendo obras ou máquinas se transformam
em combustível para o avanço da tecnologia

Rosana Zakabi
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Jernny Warburg/The New York Times

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"A invenção
é a mãe da necessidade. Ninguém precisava
do iPod ou do telefone celular antes que eles fossem inventados"
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O americano Henry Petroski, professor
de engenharia e história da Universidade Duke, é um
dos mais respeitados especialistas em design, a técnica de
criar produtos atraentes e funcionais. Nos últimos anos,
ele tem se dedicado a investigar um fenômeno: mesmo com a
tecnologia de que se dispõe hoje, por que continuam a ocorrer
falhas às vezes catastróficas em novos projetos de
engenharia? Como exemplo, ele cita a série de acidentes causada
recentemente nos Estados Unidos por um modelo de pneu defeituoso.
O trabalho resultou num livro recém-publicado, Success
through Failure The Paradox of Design (O Sucesso
através do Fracasso O Paradoxo do Design), ainda sem
previsão de lançamento no Brasil. Na obra, Petroski
chega a duas conclusões. Primeiro, enquanto existir progresso
tecnológico, erros e acidentes continuarão acontecendo.
Segundo, esses erros são valiosos para diminuir o risco de
novas falhas no futuro. "Se o Titanic não tivesse
afundado, não se descobririam as falhas de seu projeto",
ele exemplifica. Da Carolina do Norte, onde mora, Petroski falou
a VEJA.
Veja O que é
um bom projeto?
Petroski O bom design, aplicado tanto a um eletrodoméstico
como a um edifício ou uma ponte, incorpora o espírito
de aperfeiçoamento inerente ao ser humano, a vontade de tornar
o mundo mais prazeroso e divertido. Um design espetacular não
precisa ser uma obra de grandes proporções. Muitas
vezes, trata-se de um objeto simples e pequeno, como aquele dispositivo
de plástico que se espeta no meio da pizza para impedir que
ela grude na tampa da caixa durante o transporte. É um bom
design porque resolve um problema comum de maneira bastante econômica
e eficiente.
Veja O que é
mais importante: beleza ou funcionalidade?
Petroski No melhor design, funcionalidade e estética
são tratadas com igual importância. Uma não
deve sobressair à outra. Devem se complementar de forma harmoniosa.
Veja Que papel
desempenha a criatividade no mundo moderno?
Petroski Em tese, se nada mais fosse inventado, o
mundo poderia funcionar bem com os objetos e sistemas já
existentes. Entretanto, faz parte de nossa natureza querer melhorar
o que é ineficiente, deselegante e incompleto. A criação
de novidades torna-se imperiosa quando a qualidade de vida entra
em conflito com a percepção de que determinado objeto
ou construção utilizados atualmente são imperfeitos.
Mesmo que ninguém clame por uma ponte mais longa ou um avião
mais rápido, o desafio técnico de produzi-los impulsiona
sua criação e construção.
Veja Como pensam
os grandes inovadores tecnológicos?
Petroski Eles enxergam falhas onde a maioria das pessoas
vê apenas sucesso. Percebem no fracasso a oportunidade de
criar algo melhor do que o que já existe e também
de prevenir falhas no futuro.
Veja Isso significa
que o fracasso impulsiona os bons inventores?
Petroski Sem dúvida. Enquanto houver progresso
tecnológico, erros e acidentes continuarão acontecendo.
A falha servirá de lição, desafiará
os engenheiros a corrigi-la e, dessa forma, se transformará
em combustível para o avanço das tecnologias. Esse
é o paradoxo do design e das criações em geral.
Historicamente, aprendemos mais pelos fracassos do que pelos sucessos.
As mais importantes criações dos últimos tempos
foram aquelas que focaram nas limitações e nas falhas.
A Ponte de Quebec, hoje um dos símbolos do Canadá,
é um exemplo clássico disso. Ela foi projetada com
base num sucesso anterior, mas desabou duas vezes quando ainda estava
em construção. A obra só deu certo depois que
os engenheiros decidiram abandonar o projeto original e criar outro
modelo.
Veja A história
tem vários casos de pontes que não deram certo. Um
dos mais recentes ocorreu em 2000, em Londres, quando a Ponte do
Milênio, ao ser inaugurada, balançou tanto que teve
de ser interditada. Por que existem tantos fracassos envolvendo
pontes?
Petroski Estatísticas mostram que, desde meados
do século XIX, a cada trinta anos ocorre um grave acidente
envolvendo uma ponte de grande porte. Esse é o tempo que
uma geração de engenheiros leva para suprir a geração
seguinte com a experiência de projetos bem-sucedidos. Ao criarem
uma nova ponte, os engenheiros precisam mapear as possíveis
falhas e desafiar a si próprios o tempo todo para que a obra
dê certo. A partir do momento em que o projeto é vitorioso,
a tecnologia utilizada acaba sendo vista como algo natural e passa
a ser reproduzida em novos projetos, sem que se tenha o cuidado
de avaliar se eles podem mascarar alguma falha. Foi o que aconteceu
com a Ponte do Milênio. O projeto da ponte era ousado e moderno,
mas o erro dos engenheiros foi não prever que uma multidão
caminhando em cima dela a faria trepidar, danificando sua estrutura.
Apenas nos primeiros anos deste novo século assistimos ao
desabamento do teto do novo terminal do Aeroporto Charles de Gaulle,
em Paris, à queda do supersônico Concorde e ao recall
de milhões de pneus Firestone, aos quais se atribuiu uma
série de acidentes fatais com automóveis Ford.
Veja Por
que falhas como essas continuam acontecendo mesmo com as tecnologias
hoje disponíveis?
Petroski Um dos maiores erros cometidos pelos engenheiros
é acreditar que dominam com perfeição uma determinada
técnica. O excesso de confiança faz com que eles se
concentrem demais nos aspectos inovadores de seus projetos e descuidem
dos detalhes básicos, que manterão a obra de pé.
Os engenheiros pensam que prédios e pontes de um ou dois
séculos atrás só caíam porque haviam
sido projetados sem os recursos tecnológicos existentes hoje.
Isso não é verdade. As estruturas obedecem às
mesmas leis da natureza, independentemente de quando foram criadas.
Ou seja, um projeto malfeito responderá da mesma maneira
que no passado.
Veja O conhecimento
acumulado em séculos de fracassos não é suficiente
para evitar que novos erros ocorram?
Petroski Acontece a todo ser humano descuidar do fácil
e do comum. Cortamos o dedo fatiando legumes e tropeçamos
ao subir escadas, embora saibamos perfeitamente como proceder em
cada uma dessas ações.
Veja É
preciso falhar primeiro para ter sucesso depois?
Petroski Não necessariamente. O que precisamos
é entender como um projeto pode falhar e incorporar características
que previnam diferentes tipos de falhas. Na maioria das vezes, entretanto,
o sucesso é fruto do aprendizado com fracassos anteriores.
Nas indústrias automobilística e aeronáutica,
cada novo produto passa por uma bateria de testes de qualidade que
pode durar anos. Possíveis falhas são eliminadas durante
esse processo antes de o produto ser lançado no mercado.
Mas esses testes só se tornaram prioridade nas indústrias
devido à quantidade de acidentes envolvendo automóveis
e aeronaves ao longo da história.
Veja O naufrágio
do transatlântico Titanic foi atribuído a uma
série de erros cometidos desde a fase do projeto. Como a
tragédia poderia ter sido evitada?
Petroski A função do designer é
antecipar como uma obra pode falhar. Ao construírem o Titanic,
os responsáveis pela obra deveriam ter previsto a possibilidade
de o navio colidir com um iceberg e calculado melhor a construção
do casco, o material utilizado e a quantidade de botes salva-vidas
disponíveis no navio. O problema é que as exigências
do luxo se sobrepuseram às da segurança. Ironicamente,
o fracasso do Titanic contribuiu muito mais para o desenvolvimento
de navios mais seguros do que se ele tivesse sido um sucesso. Se
o navio não houvesse colidido com o iceberg na viagem de
inauguração, a falsa idéia do navio perfeito,
impossível de afundar, teria incentivado a criação
de outras embarcações do mesmo tipo, com modelos cada
vez maiores e mais arriscados.
Veja Existe
o design perfeito?
Petroski Não acredito nisso. Tudo pode
ser aperfeiçoado. No século XIX, quando se inventou
a varinha de madeira utilizada pelos professores em sala de aula
para mostrar detalhes no quadro-negro, chegou-se a considerá-la
uma das grandes invenções da época. Logo se
percebeu que tinha muitas falhas. Era incômoda para carregar,
quebrava com facilidade e, em algumas escolas, passou a ser utilizada
para aplicar castigos nos alunos. Com o tempo, surgiram versões
aperfeiçoadas da varinha, como aquela feita de metal e retrátil
como uma antena de carro. Mais recentemente, para o mesmo fim, criou-se
o bastão a laser. O objeto sem dúvida se tornou melhor,
mas ainda está longe da perfeição.
Veja Como saber
qual o momento certo de redesenhar um objeto?
Petroski Um objeto precisa ser refeito quando
a intolerância com suas imperfeições supera
a apreciação de seus benefícios. Os telefones
celulares antigos eram grandes e pesados, incômodos de carregar.
Eles podem ter servido bem durante determinado período, mas
chegou um ponto em que sabíamos que era possível fabricar
celulares menores e, assim, mais desejáveis. A disponibilidade
de aparelhos mais compactos logo colocou os modelos antigos em desuso.
Veja Se o senhor
pudesse redesenhar algo, o que escolheria?
Petroski Eu redesenharia o supermercado, porque
acho desconfortável a disposição convencional
de longos corredores paralelos, principalmente quando o objetivo
é comprar apenas um ou dois produtos.
Veja Como seria
o supermercado ideal?
Petroski Eu e meu filho, que também é
engenheiro, desenhamos um supermercado cujos corredores saem de
uma área central, tornando mais fácil e rápida
a ida de um lado para outro. Nosso projeto também prevê
caixas registradoras instaladas em cada canto da loja. Assim, sempre
haveria um caixa perto de onde se terminasse de fazer as compras.
Veja Existem
criações eternas, que não ficam ultrapassadas
com o passar do tempo?
Petroski Existem vários objetos ou projetos
que continuam atuais independentemente de quando foram criados.
É o que chamamos de obras-primas, ou clássicos, e
os grandes museus, como o Louvre, estão cheios deles.
Veja Qual o
conceito de uma obra eterna?
Petroski Um conceito eterno é aquele que está
acima da moda e da novidade, algo que se ajusta perfeitamente a
qualquer época. Roupas clássicas, como tailleurs,
alguns tipos de cadeira, taças de vinho e copos de martíni
se enquadram nessa categoria. Os designers vez por outra tentam
modificá-los, mas sem sucesso.
Veja Um grande
designer precisa, necessariamente, ser um grande inovador?
Petroski Sim, inovação e projeto são
aspectos intimamente ligados. O grande designer é aquele
que produz algo nitidamente melhor do que tudo o que já havia
sido criado anteriormente naquela área. Ou então cria
um objeto novo que imediatamente cai no gosto popular. Invertendo
o célebre ditado, às vezes a invenção
é a mãe da necessidade. Ninguém precisava do
iPod ou do telefone celular antes que eles fossem inventados e introduzidos
no mercado. Uma vez que foram criados, no entanto, tornaram-se objetos
de desejo.
Veja A concepção
de objetos e prédios torna-se cada vez mais arrojada. A sociedade
atual é a mais criativa da história?
Petroski Não. Sempre medimos a criatividade
e a inovação pelo que conhecemos e pela época
em que vivemos. É difícil para alguém que vive
no início do século XXI apreciar todas as implicações
do que era criativo e inovador no início do século
anterior. Para uma pessoa que não conheceu a TV quando criança,
assistir à primeira televisão em preto-e-branco, na
década de 50, era uma experiência mágica. Isso
parece banal para quem cresceu no fim do século XX assistindo
a programas na tela plana, gigante e colorida.
Veja Qual a
diferença entre criar pequenos objetos e grandes obras?
Petroski O criador de pequenos objetos participa de
todos os processos de criação, execução
e finalização. Isso fez com que muitos objetos fossem
redesenhados ao longo da história e tenham chegado perto
da perfeição. É o caso do clipe de papel, por
exemplo. Já as grandes obras demandam equipes, o que acarreta
limitações. O arquiteto Frank Gehry leva os créditos
pelas ousadas obras que cria, mas, para cada prédio erguido,
ele depende de uma equipe de engenheiros e arquitetos. Se a equipe
não conseguir fazer um bom trabalho, pode arruinar todo o
processo de design.
Veja É
verdade que a cadeira é o objeto mais redesenhado de todos
os tempos?
Petroski Certamente, criar cadeiras é um desafio
clássico. Há um bom motivo para isso: nenhuma cadeira
é confortável quando utilizada por longo período
de tempo.
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