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Carta ao leitor
Nas mãos do presidente Beto
Barata/AE
 | | Lula:
ele barrou uma vez e deveria fazę-lo de novo |
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva faria um bem ao país e a
sua biografia se vetasse a segunda tentativa da Federação Nacional
dos Jornalistas (Fenaj) de instituir no Brasil mecanismos de coerção
e mediocrização da atividade jornalística. Com uma diretoria
formada basicamente por assessores de imprensa de empresas estatais que se fazem
passar por jornalistas, a Fenaj tinha tentado dois anos atrás criar um
Conselho Federal de Jornalismo (CFJ). A pretexto de "orientar, disciplinar e fiscalizar"
a atividade, a tal conselho seria dado o poder de multar, punir e até cassar
o registro profissional de jornalistas. Com sua natureza despótica desnudada
pela reação quase unânime dos próprios jornalistas,
o projeto foi, em boa hora, retirado do Congresso pelo presidente Lula.
A nova investida autoritária, de iniciativa do deputado Pastor Amarildo
(PSC-TO) por orientação da Fenaj, foi aprovada pelo Congresso sem
discussão adequada. Ela é ainda mais incivil do que teria sido a
criação do CFJ. A Lei Amarildo exige diploma de curso superior de
jornalismo a todos os que trabalham na imprensa escrita, nos telejornais e na
internet. Todos, sem exceção, sejam eles colunistas, comentaristas
de futebol, ilustradores e até chargistas. A nova disposição
legal igualmente exige diploma de todos os professores das escolas de jornalismo.
Tendo como base uma legislação dos tempos mais duros do regime militar,
a lei tem inspiração ainda mais arcaica. Ela recria no Brasil em
pleno século XXI as guildas medievais, corporações que decidiam
com mão-de-ferro quem podia ser ourives, pintor ou escultor. Tudo em nome
da reserva de mercado e do conforto dos medíocres, assustados com a concorrência
de gente mais preparada e talentosa. A Lei Amarildo
tem esse mesmo espírito corporativista. Ela vai na contramão de
um fenômeno mundial, em que os jornais, as revistas, os sites de internet
e as televisões buscam avidamente o concurso de cientistas, astronautas,
economistas, diplomatas, políticos, atletas profissionais enfim,
todo tipo de gente com conhecimento especializado e vivência dos temas em
pauta. Vale lembrar que os órgãos de informação agem
assim por pressão de seus leitores, ouvintes e telespectadores, cada vez
mais exigentes no que diz respeito à riqueza, primariedade e clareza das
informações especializadas. Nesse contexto, a exigência de
um diploma empobrece e nivela por baixo a atividade jornalística. Está
nas mãos de Lula, que não precisou de diploma para ser presidente
da República, o poder de vetar a lei. Esperamos que ele o use. |