Edição 1 658 - 19/7/2000

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TELEVISÃO

Warner
Nó na Garganta: perturbador


Nó na Garganta
(The Butcher Boy, Irlanda/Estados Unidos, 1997. Estréia na HBO domingo, às 20h30) – A família do garoto Francie não é lá muito saudável, o que justifica em parte sua inclinação para a violência. Quando sua mãe se mata, porém, ele enlouquece de vez – e o título original, "o garoto açougueiro", é uma boa amostra do que está por vir. O diretor Neil Jordan, de Entrevista com o Vampiro, escolheu esta história para fazer uma alegoria perturbadora (e magnífica) sobre a sua Irlanda natal.

 

LIVROS

Vou Embora, de Jean Echenoz (tradução de Myriam Campello; Objetiva; 184 páginas; 17,90 reais) – Cansado da rotina, um galerista francês resolve transformar-se em caçador de tesouros e parte para aventuras em lugares como o Pólo Norte. Com base nesse mote inusitado, Jean Echenoz compôs um livro hilariante, movimentado e muitíssimo bem escrito. Em outras palavras, uma raridade na ficção francesa contemporânea que vale a pena conferir.

O Peso da Água, de Anita Shreve (tradução de Fausto Wolff; Bertrand Brasil; 272 páginas; 33 reais) – Em 1873, duas mulheres são mortas numa desolada cidadezinha costeira. Cem anos depois, uma repórter viaja ao local dos crimes para fotografá-lo, seguida pelo marido, que está envolvido com outra mulher. Entretecendo os dois enredos – o primeiro real, o segundo inventado –, a americana Anita Shreve compõe uma história poderosa e cheia de tensão, que mantém o leitor grudado no livro até a última página.

 

FILME


Divulgação
Zona de Conflito: drama familiar


Zona de Conflito
(The War Zone, Inglaterra, 1999. Estréia nesta sexta-feira no Rio de Janeiro) – O inglês Tim Roth é um ator excepcional e agora se mostra também um diretor seguro. Seu filme de estréia trata de uma família aparentemente normal e afetuosa. Pouco a pouco, contudo, Roth mostra as rachaduras nessa fachada de felicidade. A frieza com que o faz torna as revelações ainda mais chocantes.

 

DISCOS

Shoki, Shoki, Femi Kuti (Universal) – O nigeriano Fela Kuti era um ótimo músico e um maluco de pedra. Chegou a transformar sua mansão em Lagos, onde morava com 27 esposas, numa espécie de "república", com direito a leis e exército próprios. Seu filho, Femi, é bem mais pacato. Em matéria de talento musical, no entanto, não fica a dever em nada ao pai. Em Shoki, Shoki, o saxofonista refina a mistura de funk americano e ritmos africanos que se tornou a marca registrada de Fela Kuti. Além disso, mostra suingue e virtuosismo no instrumento que consagrou Charlie Parker. Shoki Shoki, como costuma ocorrer com a melhor juju music (nome pelo qual ficou conhecido o pop nigeriano), é um convite irresistível para chacoalhar o esqueleto.

Trilha de Magnólia, Aimee Mann e outros (WEA) – Este é um caso raro de trilha sonora de filme calcada praticamente em um único artista – a cantora americana Aimee Mann, ex-vocalista do grupo Til Tuesday. Em sua carreira-solo, que já dura dez anos, ela se acostumou a ser um sucesso de crítica e um fracasso de público. Graças a um de seus fãs, o cineasta Paul Thomas Anderson, o diretor de Magnólia, ela é agora um nome badalado. Anderson escreveu o roteiro do filme a partir das canções da moça. Que são ótimas. Ela é craque em baladas roqueiras, que entoa com uma charmosíssima voz sussurrada. Apenas duas músicas na trilha não são interpretadas por ela: um par de sucessos empoeirados do dinossáurico Supertramp. Esqueça-os e se concentre no talento da loirinha.

 

Literatura brasileira

Carlos Graieb


Dois Irmãos
Milton Hatoum
Companhia das Letras; 268 páginas; 24 reais

Dois Irmãos, segundo romance do escritor amazonense Milton Hatoum, é uma obra de qualidades raras. Alguns desejarão lê-la como uma espécie de fábula arquetípica sobre o ódio, em que o confronto entre dois gêmeos faz pensar nos mitos da Antiguidade. Outros serão seduzidos pelos elementos realistas da trama: os cheiros e as cores do Amazonas e o mundo dos imigrantes libaneses, já retratado por Hatoum em sua obra de estréia, Relato de um Certo Oriente (1989). Por fim, haverá aqueles que se mostrarão atentos à dimensão alegórica do livro, que transforma os irmãos em luta, Omar e Yaqub, em emblemas de "dois Brasis" que jamais se reconciliam. Todas as leituras são pertinentes. Mais que isso, elas se complementam.

Mas existe uma outra característica de Dois Irmãos que é preciso destacar: a maestria exibida por Hatoum ao dialogar com a tradição literária brasileira. A dimensão alegórica do livro, já mencionada, serve como exemplo: faz lembrar o romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, no qual os personagens centrais também funcionam como símbolos, respectivamente, da República e do Império. Hatoum, entretanto, não está interessado em imitar grandes autores. Trata-se, isso sim, de retomar problemas clássicos da ficção nacional. O ponto em que isso se torna mais claro é a maneira como ele constr&oacete;i o narrador do livro, Nael.

Nael é filho da empregada Domingas com um dos dois irmãos gêmeos (qual deles, não se sabe ao certo). Ele não é considerado um membro da família. Vive à sua margem, fazendo pequenos serviços e recebendo migalhas de afeto. Nael, enfim, é um "agregado" – um tipo de personagem estudado de maneira quase obsessiva por autores como José de Alencar e Machado de Assis. Como bem perceberam esses escritores, o agregado era uma figura peculiarmente brasileira, engendrada pela sociedade escravista do século XIX. Ele não era um escravo, mas também não tinha meios para se manter sozinho. Por isso, dependia do favor dos ricos. Como nota o crítico Roberto Schwarz, "foi natural que o emaranhado de humilhações e esperanças ligado a esse quadro se tornasse matéria central no romance brasileiro". Ao retomar esse assunto no contexto do século XX, explorando seus desdobramentos e novas facetas, Hatoum não apenas demonstra que é leitor atento de seus precursores. Ele também dá uma aula sobre como estudar as relações sociais por meio da literatura.

 

 

 
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