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TELEVISÃO
Warner
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| Nó na Garganta:
perturbador |
Nó na Garganta (The Butcher Boy, Irlanda/Estados
Unidos, 1997. Estréia na HBO domingo, às 20h30)
A família do garoto Francie não é
lá muito saudável, o que justifica em parte
sua inclinação para a violência. Quando
sua mãe se mata, porém, ele enlouquece de
vez e o título original, "o garoto açougueiro",
é uma boa amostra do que está por vir. O diretor
Neil Jordan, de Entrevista com o Vampiro, escolheu
esta história para fazer uma alegoria perturbadora
(e magnífica) sobre a sua Irlanda natal.
LIVROS
Vou
Embora, de Jean Echenoz (tradução
de Myriam Campello; Objetiva; 184 páginas; 17,90
reais) Cansado da rotina, um galerista francês
resolve transformar-se em caçador de tesouros e parte
para aventuras em lugares como o Pólo Norte. Com
base nesse mote inusitado, Jean Echenoz compôs um
livro hilariante, movimentado e muitíssimo bem escrito.
Em outras palavras, uma raridade na ficção
francesa contemporânea que vale a pena conferir.
O Peso da Água, de Anita
Shreve (tradução de Fausto Wolff; Bertrand
Brasil; 272 páginas; 33 reais) Em 1873, duas mulheres
são mortas numa desolada cidadezinha costeira. Cem
anos depois, uma repórter viaja ao local dos crimes
para fotografá-lo, seguida pelo marido, que está
envolvido com outra mulher. Entretecendo os dois enredos
o primeiro real, o segundo inventado , a americana
Anita Shreve compõe uma história poderosa
e cheia de tensão, que mantém o leitor grudado
no livro até a última página.
FILME
Divulgação
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| Zona de Conflito:
drama familiar |
Zona de Conflito (The War Zone, Inglaterra,
1999. Estréia nesta sexta-feira no Rio de Janeiro)
O inglês Tim Roth é um ator excepcional
e agora se mostra também um diretor seguro. Seu filme
de estréia trata de uma família aparentemente
normal e afetuosa. Pouco a pouco, contudo, Roth mostra as
rachaduras nessa fachada de felicidade. A frieza com que
o faz torna as revelações ainda mais chocantes.
DISCOS
Shoki,
Shoki, Femi Kuti (Universal) O nigeriano Fela
Kuti era um ótimo músico e um maluco de pedra.
Chegou a transformar sua mansão em Lagos, onde morava
com 27 esposas, numa espécie de "república",
com direito a leis e exército próprios. Seu
filho, Femi, é bem mais pacato. Em matéria
de talento musical, no entanto, não fica a dever
em nada ao pai. Em Shoki, Shoki, o saxofonista refina
a mistura de funk americano e ritmos africanos que se tornou
a marca registrada de Fela Kuti. Além disso, mostra
suingue e virtuosismo no instrumento que consagrou Charlie
Parker. Shoki Shoki, como costuma ocorrer com a melhor
juju music (nome pelo qual ficou conhecido o pop
nigeriano), é um convite irresistível para
chacoalhar o esqueleto.
Trilha
de Magnólia, Aimee Mann e outros (WEA)
Este é um caso raro de trilha sonora de filme calcada
praticamente em um único artista a cantora
americana Aimee Mann, ex-vocalista do grupo Til Tuesday.
Em sua carreira-solo, que já dura dez anos, ela se
acostumou a ser um sucesso de crítica e um fracasso
de público. Graças a um de seus fãs,
o cineasta Paul Thomas Anderson, o diretor de Magnólia,
ela é agora um nome badalado. Anderson escreveu o
roteiro do filme a partir das canções da moça.
Que são ótimas. Ela é craque em baladas
roqueiras, que entoa com uma charmosíssima voz sussurrada.
Apenas duas músicas na trilha não são
interpretadas por ela: um par de sucessos empoeirados do
dinossáurico Supertramp. Esqueça-os e se concentre
no talento da loirinha.
Literatura brasileira
Carlos Graieb
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Dois Irmãos
Milton Hatoum
Companhia das Letras; 268 páginas;
24 reais
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Dois Irmãos,
segundo romance do escritor amazonense Milton
Hatoum, é uma obra de qualidades raras. Alguns
desejarão lê-la como uma espécie
de fábula arquetípica sobre o ódio,
em que o confronto entre dois gêmeos faz pensar
nos mitos da Antiguidade. Outros serão seduzidos
pelos elementos realistas da trama: os cheiros e as
cores do Amazonas e o mundo dos imigrantes libaneses,
já retratado por Hatoum em sua obra de estréia,
Relato de um Certo Oriente (1989). Por fim,
haverá aqueles que se mostrarão atentos
à dimensão alegórica do livro,
que transforma os irmãos em luta, Omar e Yaqub,
em emblemas de "dois Brasis" que jamais se reconciliam.
Todas as leituras são pertinentes. Mais que
isso, elas se complementam.
Mas existe uma outra característica de Dois
Irmãos que é preciso destacar: a
maestria exibida por Hatoum ao dialogar com a tradição
literária brasileira. A dimensão alegórica
do livro, já mencionada, serve como exemplo:
faz lembrar o romance Esaú e Jacó,
de Machado de Assis, no qual os personagens centrais
também funcionam como símbolos, respectivamente,
da República e do Império. Hatoum, entretanto,
não está interessado em imitar grandes
autores. Trata-se, isso sim, de retomar problemas
clássicos da ficção nacional.
O ponto em que isso se torna mais claro é a
maneira como ele constr&oacete;i o narrador do livro,
Nael.
Nael é filho da empregada Domingas com um
dos dois irmãos gêmeos (qual deles, não
se sabe ao certo). Ele não é considerado
um membro da família. Vive à sua margem,
fazendo pequenos serviços e recebendo migalhas
de afeto. Nael, enfim, é um "agregado"
um tipo de personagem estudado de maneira quase obsessiva
por autores como José de Alencar e Machado
de Assis. Como bem perceberam esses escritores, o
agregado era uma figura peculiarmente brasileira,
engendrada pela sociedade escravista do século
XIX. Ele não era um escravo, mas também
não tinha meios para se manter sozinho. Por
isso, dependia do favor dos ricos. Como nota o crítico
Roberto Schwarz, "foi natural que o emaranhado de
humilhações e esperanças ligado
a esse quadro se tornasse matéria central no
romance brasileiro". Ao retomar esse assunto no contexto
do século XX, explorando seus desdobramentos
e novas facetas, Hatoum não apenas demonstra
que é leitor atento de seus precursores. Ele
também dá uma aula sobre como estudar
as relações sociais por meio da literatura.
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