Edição 1 658 - 19/7/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


Toda a miséria do mundo

"Os fluxos migratórios internacionais não vão diminuir.
Legais ou ilegais, eles constituem, como foi o caso
no último quartel do século XIX, um dos
componentes da globalização"



Ilustração Ale Setti


O noticiário sobre os fluxos de imigração clandestina toma às vezes um tom burlesco. Como agora, quando se descobriu um novo modo de entrada ilegal de imigrantes na fronteira México–Estados Unidos. Em 4 de julho, aproveitando as festas do Independence Day, um grupo de mexicanos disfarçados em ciclistas que disputavam uma competição – com capacete, número nas costas, roupa colorida e tudo o mais – passou na fronteira aberta por guardas americanos simpatizantes do esporte. Os coitados foram presos mais adiante, em Corpus Christi (Texas), onde confessaram que as bicicletas de corrida com dez marchas e o resto do equipamento eram fornecidos, por alto preço, pelas quadrilhas de contrabandistas de imigrantes.

Trezentos mil mexicanos migram anualmente, de um jeito ou de outro, para os Estados Unidos. Em vista disso, Vicente Fox, o presidente eleito do México, declarou que o problema se resolveria com a instauração, daqui a dez anos, de uma fronteira aberta entre os dois países. Segundo ele, a solução deu certo na Europa, onde, "25 anos atrás, a migração de espanhóis para a Alemanha era tão importante quanto a de mexicanos para os EUA atualmente". Ora, ao contrário do que parece pensar o futuro presidente mexicano, essa medida só deslocaria a barreira a ser ultrapassada mais para o sul, para a Guatemala, visto que o território mexicano é também via de passagem de outras redes – inclusive brasileiras – de migração clandestina para os Estados Unidos. A União Européia debate-se com este problema: o desaparecimento das fronteiras internas aumentou a pressão dos imigrantes na periferia da região. As tensões mais graves localizam-se na Alemanha, alvo do tráfico de imigrantes vindos da Europa Central, e na Espanha, entrada preferencial dos migrantes ilegais do Marrocos e da África negra. Para José Maria Aznar, primeiro-ministro espanhol, essa imigração constitui o "problema número 1 do começo do século XXI".

O drama vivido por milhares de pessoas de todas as raças tomou dimensão atroz no mês passado, quando a polícia britânica descobriu, no estacionamento do porto de Dover, 58 chineses mortos asfixiados na caçamba fechada de um caminhão. As reportagens da imprensa européia revelaram a extensão do tráfico de imigrantes clandestinos transportados por redes da máfia chinesa, entre as quais a tríade das "Cabeças de Serpente", e seus cúmplices europeus. Gente trazida do Extremo Oriente até a Inglaterra e tratada como gado, sofrendo todo tipo de humilhação, de chantagem, de violência. O tráfico de migrantes em direção aos Estados Unidos e à Europa Ocidental virou um grande negócio, formando quadrilhas internacionais que tiram mais lucro dessa atividade, muito mais abrangente, do que do tráfico de drogas.

O problema já transparece no Brasil pelos dois lados. No lado da emigração, nas redes que exploram os brasileiros que viajam e trabalham ilegalmente nos Estados Unidos e em vários países europeus. No lado da imigração, com os traficantes e patrões boçais que se aproveitam dos asiáticos e hispano-americanos entrados ilegalmente em nosso país. De fato, desde o começo do Plano Real, com a moeda brasileira sobrevalorizada, aumentou o afluxo de migrantes dos países vizinhos. Hoje, só na Grande São Paulo vivem 200.000 bolivianos, muitos deles imigrantes ilegais, conforme dados de alguns especialistas.

Uma coisa é certa: os fluxos migratórios internacionais não vão diminuir. Legais ou ilegais, eles constituem, como foi o caso no último quartel do século XIX, um dos componentes da globalização. Confrontado com a situação bizarra de lidar com os dois lados do problema, o Brasil ganharia grande autoridade diplomática se tratasse com dignidade os imigrantes ilegais. Respeitar os bolivianos que trabalham ilegalmente na Grande São Paulo daria força para defender os brasileiros que trabalham clandestinamente na Grande Nova York.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador
(lfa@workmail.com)