Edição 1 658 - 19/7/2000

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Viciados em sexo
pedem ajuda

Pesquisas realizadas no Brasil e nos Estados Unidos
mostram que a combinação entre sexo e internet está
criando um novo e preocupante tipo de
comportamento compulsivo

Roberta Paduan e Elen Peterson


Antonio Milena
O eletricista Alexandre e sua mulher, Silvana: e-mails de mulheres e imagens eróticas armazenados no micro do marido provocaram uma crise de ciúme e quase acabaram com o casamento


A obsessão digital é o grande vício da era moderna. O fácil alcance a uma infinidade de informações e serviços por meio da internet cria um tipo de dependência que leva muitas pessoas a perder a medida das horas que passam diante do micro. E o que tanto elas procuram? A maioria gasta seu tempo atrás daquilo: sexo. Um terço das consultas à rede é realizada em busca de fotos, vídeos ou bate-papos de conteúdo erótico. Sexo virtual tornou-se um dos assuntos mais lucrativos do comércio eletrônico e uma das diversões prediletas dos usuários. O acesso rápido, o conforto e a privacidade característicos da rede produzem o ambiente ideal para os internautas liberarem suas fantasias. Sexo e internet parecem ter sido feitos um para o outro. O potencial explosivo dessa combinação viciante vem sendo estudado com muito interesse por psicólogos e psiquiatras. Os resultados dos primeiros trabalhos científicos chegaram recentemente ao conhecimento público e apontam para um dado preocupante. Há muita gente exagerando na dose, perdendo a conexão com a realidade e buscando ajuda especializada para escapar dessa nova modalidade de vício. O mal atinge indiscriminadamente todas as faixas etárias – de pais de família a adolescentes. Para classificá-los, foi cunhada até uma nova expressão: viciados em cybersexo. Estão nesse grupo as pessoas cuja vida começa a ser seriamente afetada pelo hábito de acessar páginas pornográficas ou de perder horas dentro das salas de bate-papo, nas quais se satisfazem com categorias diversas de sexo virtual. "Cybersexo é uma nova droga, é o crack da compulsividade sexual", disse a VEJA o psicólogo Al Cooper, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, um dos maiores especialistas no tema.



Antonio Milena
Nelson Vitiello, da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana: pesquisa constatou que 16% dos internautas passam catorze horas semanais em sites pornográficos


A dependência de cybersexo deixa marcas profundas na vida dos viciados. O trabalho mais completo sobre o tema chama-se "Usuários e Abusadores do Cybersexo" e foi realizado em conjunto por equipes do Centro de Casamento e Sexualidade de Santa Clara e das universidades Duquesne e Stanford, nos Estados Unidos. Eles pesquisaram os hábitos na rede de 9.265 internautas. Pouco mais de 8% deles afirmaram que gastam mais de onze horas por semana navegando em sites pornográficos. Para os especialistas, são pessoas que estão numa fronteira perigosa. De simples curiosidade e diversão, o cybersexo pode tornar-se um hábito perigoso. Uma parcela menor de internautas, estimada em 1%, já ultrapassou essa barreira e entrou para o grupo de dependentes. Fazendo-se uma projeção sobre a população dos Estados Unidos, teríamos cerca de 200.000 casos de viciados somente naquele país. São pessoas que chegam a passar 25 horas por semana em frente da tela do micro em busca de sexo. Trocam mensagens picantes, com descrições detalhadas do ato sexual, enquanto se masturbam. Por causa do hábito, abandonam a mulher, deixam de conviver com os filhos e colocam em risco o emprego. Em um levantamento semelhante, a Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana detectou no país o mesmo problema. Por aqui, 16% dos usuários pesquisados passam catorze horas por semana acessando pornografia. "O sujeito que só consegue ter prazer diante do computador precisa urgentemente de tratamento", afirma o ginecologista Nelson Vitiello, um dos coordenadores da pesquisa.



E. Pinheiro/1° Plano
O empresário Alexandre, que chegou a virar noites fazendo sexo virtual diante da tela do computador: "Estava exagerando e, por isso, resolvi dar uma freada"


A doença da compulsão sexual não é um fenômeno novo. Estima-se que 3% da população mundial sofre desse distúrbio de comportamento. Nos casos mais graves, os dependentes chegam a masturbar-se doze vezes por dia ou mantêm uma média de seis relações sexuais no mesmo período. Um filme espanhol, Entre as Pernas, recém-lançado no circuito brasileiro e que está fazendo sucesso no exterior, retrata um grupo de viciados em sexo. Numa das cenas, a protagonista, interpretada pela atriz Victoria Abril, define toda a extensão desse drama. "Tenho repugnância de todos os homens com quem transo, mas não consigo parar de fazer isso", diz a personagem. O fator novo é a quantidade de gente que começa a desenvolver esses sintomas de compulsividade por causa da internet. Em geral, são pessoas psicologicamente sadias, sem nenhum problema de relacionamento. De repente, elas começam a suspeitar de que há algo errado quando passam a gastar mais horas acessando endereços eróticos que trabalhando, estudando ou convivendo com outras pessoas.

Com três filhos e dois casamentos desfeitos, a secretária executiva carioca Teresa Cristina Barcellos, 50 anos, fez da internet um instrumento para espantar a solidão. "No início, quando comecei a freqüentar as salas de bate-papo, era muito divertido, mas depois achei que estava ficando maluca", conta ela, que chegou a se apaixonar por um jovem de 25 anos. Os dois faziam sexo virtual, mas nunca se encontraram ao vivo. No auge de sua loucura cibernética, Teresa chegava a passar até oito horas por dia diante da tela do computador. Sua conta telefônica bateu na casa dos 400 reais. Seu cotidiano começou a ser seriamente afetado. "Varava noites no micro, várias vezes vi o jornal entrando por baixo da porta e pensava que, naquela hora, deveria estar acordando para ir à praia ou passear", lembra.

A grande quantidade de horas navegadas atrás de material pornográfico não é o único indicativo de que o usuário pode estar cruzando o limite entre a diversão e o vício. Outros parâmetros importantes são quanto esse hábito vem afetando a vida do indivíduo e o desenvolvimento de tolerância. Isso acontece quando a pessoa precisa acessar material erótico cada vez mais ousado para manter o mesmo grau de excitação. O caso do astrólogo baiano Alexey Dodsworth, 28 anos, ilustra bem esse dilema. Ele nunca havia tido nenhum comportamento compulsivo até conhecer as salas de sexo virtual. "Me senti como se estivesse num supermercado, podendo pegar o que eu quisesse", lembra. Durante dez meses, ele passou em média seis horas por dia em frente da tela do micro. A situação chegou a um ponto em que o astrólogo se desinteressou por mulheres reais e só fazia sexo pela internet. "Só parei com esse hábito quando me impus três meses de abstinência", conta ele.

O número de homens que fazem cybersexo compulsivamente é maior que o de mulheres – na proporção de oito para dois. "As mulheres sentem-se estimuladas ao trocar mensagens e criar fantasias, enquanto os homens ficam satisfeitos com o estímulo visual e mais imediato", afirma o psiquiatra Carlos Eduardo Carrion, que realizou uma pesquisa recente sobre o comportamento dos internautas. Descobriu que 20% deles entram no serviço exclusivamente em busca de um parceiro ou parceira para uma transa virtual. O empresário mineiro Alexandre Amaral Scotti, 38 anos, não passa um dia sem acessar na rede seus sites eróticos prediletos. Todas as manhãs, depois de ler e-mails e responder a eles, assiste a um ou dois vídeos pornográficos no computador. Em seguida, conecta-se a uma sala de bate-papo exclusiva para cybersexo. Fica plugado seis horas por dia. Há um ano, o empresário era ainda mais compulsivo. Às vezes, virava noites fazendo sexo virtual. "Vi que estava exagerando na dose e resolvi dar uma freada", conta Alexandre.

Outro traço típico dos viciados em cybersexo é a timidez. "A rede tem funcionado como uma muleta para os retraídos e para as pessoas que sofrem de fobia social", afirma o psicólogo Sérgio André Segundo, da Clínica do Amor e Timidez, em São Paulo. No local, quatro especialistas atendem em média sessenta clientes por semana. É gente que começa a suar frio quando pensa na possibilidade de abordar uma garota num bar ou que, nos casos extremos, nem sequer sai de casa por causa do medo de estabelecer contatos sociais. Nos últimos tempos, o uso da internet tem sido um tema recorrente nas terapias, principalmente com os adolescentes. Eles acessam as salas de chats para não precisar procurar um parceiro ou parceira real, o que implica sempre o risco de uma rejeição ao vivo. Muitos relatam uma sensação de vazio depois de uma relação virtual, mas acabam repetindo compulsivamente a experiência.


Antonio Milena
A escritora Márcia, que se conecta à web todas as noites em busca de aventuras excitantes: "Sou dependente de sexo e da internet"


"A internet é um caminho poderoso de aproximação entre as pessoas, mas pode ter conseqüências desastrosas quando não é bem utilizada", afirma Ailton Amélio da Silva, psicólogo da Universidade de São Paulo. Foi o que aconteceu com o casal formado pelo eletricista Alexandre Martins Rocha, 29 anos, e pela psicóloga Silvana Gonçalves Forgerini, 27. Eles estão juntos há três anos e têm dois filhos gêmeos de 5 meses. Recentemente, quase se separaram por causa da internet. Alexandre gastava horas nas salas de bate-papo e garantia à mulher que era uma diversão inofensiva. Silvana ficou com uma impressão diferente quando entrou na caixa postal do marido e encontrou dezenas de e-mail de mulheres. Teve um ataque de ciúme quando viu que várias dessas amigas virtuais enviavam mensagens adocicadas e fotos pornográficas para o endereço de Alexandre. Num acesso de fúria, arrebentou todos os cabos do microcomputador e ameaçou fazer as malas e sair de casa. Acabou voltando atrás e entrou em um acordo com o marido, que diminuiu radicalmente as horas de navegação pela rede.

Uma pesquisa divulgada recentemente na Itália mostra como os relacionamentos virtuais podem provocar estrago na vida real. Realizado com 352 mulheres de internautas, o estudo revelou que mais da metade delas se sentem incomodadas quando o parceiro está diante da tela do computador. No mês passado, um caso demonstrou como a rede pode criar constrangimentos que seriam inimagináveis até pouco tempo atrás. O episódio envolveu um casal de chineses que se conheceram pela internet. Ele se dizia desimpedido. Ela escreveu que necessitava urgentemente de um namorado. Depois de um tempo se correspondendo, os dois marcaram um encontro ao vivo. Foi um fiasco. Os dois pombinhos virtuais descobriram que eram marido e mulher na vida real. A briga foi tão feia que a polícia teve de intervir.

Os endereços eróticos fazem tanto sucesso entre os usuários que faturam cerca de 1 bilhão de dólares nos Estados Unidos. Já existem por lá, inclusive, serviços especializados em garantir a segurança dos que se dedicam ao cybersexo. Na página Wildxangel, por exemplo, além de conselhos para identificar mentiras nas trocas de mensagem nas salas de bate-papo, há notícias atualizadas de casos de pessoas que tiveram problemas graves por não tomar cuidado com esse tipo de relação. Num caso ocorrido recentemente no Estado do Texas, um estudante foi atraído para um encontro, depois de conhecer uma garota pela internet que se identificava como "Kelly" e dizia ser uma jovem e bonita mulher, porém problemática e em busca de alguém que pudesse salvá-la de relacionamentos turbulentos. "Kelly", na verdade, era um psicopata chamado Kenny Wayne Lockwood. O corpo do estudante foi achado pela polícia em estado de decomposição num rancho do Texas, com uma bala na nuca. Lockwood está preso.


Fernando Vivas
O astrólogo Alexey: sexo pela rede tirou o interesse por encontros ao vivo com as mulheres


No Brasil, a oferta de páginas de cybersexo também é impressionante. Existem no país mais de 100 serviços de bate-papo para entabular conversas eróticas. Sua freqüência média é de 3 500 visitantes no horário de pico, que ocorre geralmente no começo da madrugada, às sextas e aos sábados. No site de busca Alta Vista, versão em português, é possível encontrar mais de 90.000 links relacionados com o assunto. A grande oferta de endereços eróticos e o fácil acesso a essas páginas fazem com que os internautas se sintam tentados a não limitar suas consultas a esse material durante os momentos de lazer. Segundo a pesquisa "Usuários e Abusadores do Cybersexo", 70% do tráfego de material pornográfico na rede acontece durante o horário comercial. No mesmo levantamento, 20% dos homens e 12% das mulheres admitem usar o micro do local de trabalho para navegar em sites eróticos. É gente que se desliga da realidade e fica numa sala de bate-papo, trocando mensagens picantes, enquanto o colega ao lado está trabalhando num relatório. Essa situação vem provocando problemas graves. No ano passado, quarenta funcionários da Xerox Corporation, dos Estados Unidos, foram demitidos no mesmo dia por acessar páginas pornográficas e esportivas durante o horário de expediente. Calcula-se que as empresas americanas percam 1 bilhão de dólares por ano com o uso indevido da internet pelos funcionários.

O sexo on-line já é uma preocupação presente nos centros de tratamento para compulsivos. No Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, todos os pacientes afirmam utilizar o computador para encontrar novos parceiros ou praticar sexo virtual. Metade deles supera a dependência em seis meses de tratamento, à base de terapia e pequenas doses de antidepressivos. A droga tem o papel de ajudar a diminuir a libido. O restante dos viciados leva um tempo maior para se recuperar. Algumas entidades de ajuda aos maníacos por cybersexo copiam a fórmula consagrada pelos grupos dos Alcoólicos Anônimos. A associação dos Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa) é um desses exemplos. Ela possui escritórios em sete cidades brasileiras e difunde a idéia de que a grande meta do viciado em sexo é evitar uma recaída nas próximas 24 horas.


Selmy Yassuda
A secretária Teresa, que chegou a gastar 400 reais de conta telefônica conhecendo parceiros amorosos na internet: "No início, era muito divertido, mas depois comecei a achar que estava ficando maluca"


O funcionário público Raul, 41 anos, é um dos que participam das reuniões. Mesmo casado e pai de dois filhos, ele manteve durante muito tempo uma vida dupla, que incluía visitas a saunas e banheiros públicos. Descobriu as salas de sexo virtual há dois anos e permanecia praticamente o dia inteiro conectado. "Eu deixava de almoçar para ficar no micro, e minha conta telefônica chegou a me custar o salário de um mês", lembra. A situação começou a se mostrar muito preocupante. Primeiro, Raul tentou fazer terapia. Não adiantou. A salvação veio quando ele viu na TV um anúncio do Dasa e começou a freqüentar as reuniões. Hoje, graças a esse tratamento, Raul não acessa mais nenhum chat erótico há meses. Em casos extremos como esse, a única saída é desconectar-se. Na página mantida pela organização americana "Viciados em Sexo On-Line" existe um fórum de discussões em que um dos ex-dependentes dá um conselho radical. "A única saída? Ponha um bom filtro de pornografia em seu micro e jogue fora a senha. Mudei minha vida dessa maneira."

 

 

A organização americana Viciados em Sexo On-Line presta ajuda a quem não consegue desconectar-se da pornografia. Alguns dos associados participam de um fórum em que trocam informações e contam suas experiências dramáticas.
A seguir, alguns dos depoimentos
mais comoventes:

"Não consigo ficar um dia sem visitar os sites pornôs, entrar em salas de sexo virtual ou chamar alguém num desses serviços de telefone erótico. Sou escritor, perco muitas horas navegando e a qualidade do meu trabalho vem despencando nos últimos anos."
Horatio,
30 anos, solteiro

"Sempre tive vitórias e recaídas na minha luta feroz para me livrar da pornografia. É um velho ciclo do qual nunca consegui me libertar. Até eu descobrir como era fácil acessar sexo pela internet. Aí, rolei montanha abaixo."
Rhino, casado,
pai de cinco filhos

"Não gosto de me classificar de 'viciado em sexo'. Mas sei que, se resolver deletar todos os links de sites pornôs arquivados no meu micro, no momento seguinte estarei já pesquisando outros endereços eróticos."
Liquid Healing,
escritor

 

Com reportagem de Marcelo Carneiro, do Rio de Janeiro ,
e
José Edward, de Belo Horizonte

 

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