O continente condenado
Um em cada cinco adultos sul-africanos
tem Aids,
mas o presidente do país nada faz porque não
acredita na contaminação pelo HIV
Cristiano Dias
AP
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| Contra a corrente:
Mbeki
diz que a causa
da Aids é a miséria
e não o vírus |
A realidade é tão terrível que desafia
a compreensão. Sete anos depois de enterrar o apartheid,
a África do Sul está sendo tragada pela Aids.
Um em cada cinco adultos sul-africanos está infectado
pelo vírus HIV. São mais de 4 milhões
de aidéticos. É mais do que em qualquer outro
país. A cifra é assombrosa mesmo num continente
de números assustadores. De cada três pessoas
infectadas, duas vivem na África. Por lá,
surgem oito novos doentes por minuto. De cada dez mortos,
seis são africanos. Em duas décadas, a Aids
já matou 19 milhões de pessoas, quase tanto
quanto a gripe espanhola no início do século
XX (20 milhões) e a peste negra na Idade Média
(25 milhões). Era de esperar que o presidente de
um país no epicentro de uma epidemia que ameaça
dizimar seu povo tivesse muito a dizer numa reunião
internacional sobre a doença. Ao discursar na abertura
da 13ª Conferência sobre Aids, em Durban, no
domingo 9, o presidente sul-africano Thabo Mbeki preferiu
defender a tese de que a Aids é causada pela miséria,
não pelo vírus HIV. É uma bobagem,
sustentada pela opinião de poucos cientistas. Mas
são tolices como essas, aliadas à falta de
educação, à ausência de políticas
de saúde e à baderna geral, que explicam como
a doença que está relativamente sob controle
nos outros continentes ameaça exterminar a África.
Mantidos os índices de mortalidade atuais pelos
próximos dez anos, a Aids terá matado mais
de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, mais do
que a II Guerra, a maior catástrofe do século
XX. A Aids já é a principal causa de mortes
nas Forças Armadas do Congo-Brazzaville seis em
cada dez óbitos. Por causa da devastação
causada pela doença, nos próximos cinco anos
a expectativa de vida no continente deve retroceder aos
níveis dos anos 60, caindo de 59 para 45 anos em
média. O Zimbábue é o caso mais dramático.
Entre 2005 e 2010, a esperança de vida deve retroceder
a 37 anos. De modo diferente da maioria das doenças,
que abate sobretudo crianças e velhos, a Aids tem
a característica de causar o maior número
de mortes entre a população jovem, na fase
mais produtiva de sua vida. As conseqüências
são duplamente calamitosas, pois as vítimas
deixam órfãos de pouca idade (há 11
milhões de órfãos da Aids e 5 milhões
de crianças contaminadas durante a gestação)
e fazem escassear a mão-de-obra produtiva. As estimativas
são de que a economia de vários países
africanos diminua entre 15% e 20% nos próximos dez
anos em virtude da doença.
A pergunta óbvia, diante de um quadro tão
devastador, é o que fazer. As estatísticas
mostram que 95% dos aidéticos estão nos países
pobres. O dado pode provocar confusão e dar a impressão
de que o sul-africano Mbeki tem razão quando diz
que o HIV é uma fantasia de homossexuais ricos e
brancos. A ciência já demonstrou que o vírus
é a causa real da doença. Ocorre que a miséria
é o terreno fértil no qual ela prolifera.
A ONU estima que sejam necessários 2,3 bilhões
de dólares por ano para tratar a doença na
África. Atualmente os africanos investem apenas 300
milhões de dólares. Só os Estados Unidos
gastam 4,8 bilhões de dólares por ano com
seus 850.000 infectados. O dinheiro
para a África talvez pudesse ser levantado com uma
coleta internacional. Ainda assim, o resultado seria duvidoso.
A história mostra que raramente os estrangeiros podem
resolver os problemas de outros países. O grosso
do serviço precisa ser feito em casa. E, com poucas
exceções, os governantes africanos não
estão fazendo coisa alguma para combater a Aids.
As campanhas de prevenção e uma série
de novos remédios reduziram bastante a mortalidade
causada pela epidemia nos países ricos. Nesses lugares,
a doença continua, em parte, confinada aos grupos
de risco. Não é assim na África, onde
a contaminação ocorre sobretudo nas relações
heterossexuais. Em novembro do ano passado, o número
de africanas infectadas ultrapassou o de homens. A mesma
tendência de crescimento da contaminação
tem se visto em outros continentes, mas na África
as tradições matriarcais de algumas tribos
que permitem que a mulher tenha vários parceiros
ajudam a disseminar a doença entre elas. Em 27 dos
53 países africanos pratica-se o ritual da mutilação
genital feminina. As condições precárias
de higiene em que são feitas essas operações,
que atingem até 90% da população feminina
em certas regiões, abrem caminho para a contaminação.
Em Moçambique, na região de Zambézia,
acredita-se que qualquer doença possa ser curada
com relações sexuais. Assim o mal espírito
passaria para o outro corpo, uma prática conhecida
como "kaka". É outro prato cheio para a proliferação
da Aids.
Há bons (e raros) exemplos de combate à
doença. Em Uganda, o truculento presidente Yoweri
Musseveni envolveu-se pessoalmente na cruzada antivírus.
A distribuição em massa de preservativos e
a campanha de esclarecimento à população
reduziram em 45% a taxa de contaminação de
mulheres grávidas em áreas urbanas e baixaram
o porcentual da população infectada de 14%
para 8%. No Senegal, a campanha institucional de prevenção
manteve o índice de contaminação abaixo
dos 2%, um dos menores da região. No comando do país
mais desenvolvido ao sul do Saara, o presidente Thabo Mbeki
tomou o rumo contrário: seu governo ignora a Aids.
Isso decorre de posições políticas
e ideológicas que remontam aos tempos do apartheid.
Restrita a brancos homossexuais, no início da década
de 80, a Aids passou a infectar também negros heterossexuais,
nos anos 90. Com o fim do apartheid em 1993, que abriu as
fronteiras para a entrada de imigrantes e refugiados políticos
dos países vizinhos, como Moçambique e Zimbábue,
focos tradicionais da doença, a contaminação
se acelerou. Nessa época, a Aids era duplamente estigmatizada.
Para os brancos, tratava-se de uma doença de negros
promíscuos, e para os negros era uma doença
de gays brancos.
Mbeki poderia pelo menos aconselhar os sul-africanos a
usar preservativos e a evitar sexo inseguro. É isso,
em essência, o que está dando certo em Uganda.
Mas nada diz porque teme que a campanha de prevenção
à Aids alimente o estereótipo racista de que
os negros são irresponsáveis e não
controlam o impulso sexual. A aposta de seu governo é
de que o desenvolvimento econômico e a melhora da
educação ensinarão o povo a tomar cuidado.
O próprio Nelson Mandela, o primeiro presidente pós-apartheid,
só fez menção pública à
epidemia no país em 1998, em seu penúltimo
ano à frente do governo. Logo que assumiu, ele fechou
várias clínicas especializadas, basicamente
porque médicos e enfermeiros eram brancos. A falta
de informação e de uma estratégia nacional
de combate à doença fez o número de
infectados aumentar quinze vezes na década passada.
A África do Sul tornou-se refém do HIV.
Brasil obtém bons resultados
distribuindo remédio de graça
Um estudo preparado pelo Banco Mundial no início
da década de 90 estimou que o Brasil teria
1,2 milhão de infectados pela Aids em 2000.
A nação possui hoje 540 000 aidéticos,
menos da metade do previsto no levantamento catastrófico
de dez anos atrás. A doença tem avançado
no país, que abriga a maior concentração
de aidéticos da América Latina, mas
num ritmo mais lento do que fazia supor sua irrupção
fulminante no início da década de 80.
Parte do êxito obtido se deve à estratégia
de distribuição de remédios.
Ao lado de países como México e Argentina,
o Brasil é dos poucos a entregar gratuitamente
medicamentos aos aidéticos. Isso é possível
porque ele fabrica oito das doze drogas anti-retrovirais
utilizadas no tratamento. Se tivesse de importar,
o custo seria 70% maior.
O país também tem conseguido bons
resultados na prevenção da doença
por meio da distribuição gratuita de
preservativos, o método mais eficaz de evitar
a contaminação em relações
sexuais. Um levantamento da Unaids, a agência
de combate à Aids das Nações
Unidas, revela que o uso da camisinha aumentou cinco
vezes no país nos anos 90. O governo brasileiro
investiu no ano passado cerca de 350 milhões
de dólares no combate à doença.
O retorno é animador. Estima-se que entre 1997
e 1999 foram evitadas 146 000 internações
em decorrência da Aids uma economia de 289
milhões de dólares para os cofres públicos.
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