Sérgio Lima/Folha Imagem/Ricardo
Stuckert

O senhor acha
que ele pode estar usando seu nome para facilitar negócios,
presidente?
Não tenho provas, mas não tenho dúvidas.
Diálogo
de Fernando Henrique e um ministro sobre Eduardo Jorge
Alexandre Secco e Daniela
Pinheiro
Brasília mergulhou na semana passada numa
crise política criada por um motivo errado mas com um personagem
certo, o ex-secretário-geral da Presidência da República
Eduardo Jorge Caldas Pereira.
O motivo errado: a tempestade em torno das
suspeitas de que, em 1996, o Planalto teria facilitado a
liberação de verbas para a obra superfaturada do prédio
do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo. A construção
recebeu 231 milhões de reais, dos quais 169 milhões foram
desviados. A denúncia sugeria que o próprio presidente Fernando
Henrique Cardoso teria usado o cargo para dar dinheiro público
a uma quadrilha especializada em desviar dinheiro público.
Como se veria, os indícios de que isso teria ocorrido não
se sustentam. A participação provada de Fernando Henrique
no processo se resumiu a enviar ao Congresso Nacional um
projeto de lei com um pedido de suplementação de 25 milhões
de reais em favor da obra. Antes de qualquer outra consideração,
é preciso lembrar que na época do pedido, meados de 1996,
a obra era tida como regular. Seu responsável, o juiz Nicolau
dos Santos Neto, que mais tarde se revelaria o notório Lau-Lau,
tinha reputação de magistrado correto. O Ministério Público
só abriria inquérito para apurar irregularidades naquela
construção no ano seguinte. E apenas em 1998, dois anos
depois, portanto, o prédio do TRT seria incluído pelo Tribunal
de Contas da União na lista de obras públicas suspeitas
de irregularidades para as quais a liberação de verbas estaria
condicionada à solução dos problemas.
Otávio Magalhães/AE
 |
| O condomínio
de luxo Praia Guinle, no Rio, onde está o apartamento
de quatro suítes avaliado em 1 milhão de reais: para
completar o dinheiro, o ex-assessor de FHC Eduardo Jorge
pegou um empréstimo de 300 000 reais com o BancoCidade,
que tem apenas 8 000 pessoas físicas em sua carteira
de clientes |
Desta vez, o próprio Palácio do Planalto deu
sua contribuição para que a confusão ganhasse corpo. Divulgou-se
uma explicação apressada e bizarra. "Não cabe ao presidente
da República ler o que assina, a responsabilidade é do ministro
que leva ao gabinete a pasta de despachos", informou um
assessor. Feita para defender FHC, a frase foi lida quase
como uma confissão de culpa. Afinal, a equipe de comunicação
do governo apresentava o presidente como um nefelibata pronto
a assinar documentos cujo teor desconhece. A resposta produziu
ainda outro efeito negativo para Fernando Henrique. Ao dizerem
que ele desconhecia o teor do papel que levou sua assinatura,
os assessores atiçaram a suspeita de que haveria irregularidades
no documento. Ou seja, caso o presidente conhecesse seu
conteúdo, teria tomado a atitude correta de atirar o documento
ao lixo. Na verdade, o documento era inócuo. Tratava-se
de um projeto de lei que, para ter vida, precisaria ser
aprovado pelo Congresso.
O caso do prédio do TRT ganhou fôlego na
quinta-feira, com a publicação pela revista IstoÉ do
conteúdo de uma fita com uma entrevista atribuída ao juiz
Nicolau dos Santos Neto. Nela, uma voz descreve como conseguia
liberar verbas oficiais: com a ajuda de altos funcionários
do governo, em especial de Eduardo Jorge, ex-secretário-geral
da Presidência, e do hoje ministro Martus Tavares, do Planejamento.
Os trechos divulgados não fazem uma única referência a corrupção
ou irregularidades, mas azedaram ainda mais o clima. A crise
parecia destinada a assumir proporções de catástrofe quando
começou a se dissipar por força das próprias inconsistências.
Logo se soube que o projeto com o pedido de suplementação
de verba enviado ao Congresso por FHC fora assinado por
sessenta deputados paulistas entre eles doze do PT,
justamente o partido que pedia a condenação do presidente
por não saber onde coloca sua assinatura. "Os deputados
do PT que aprovaram esse projeto vão ter de se explicar",
declarou o presidente de honra do partido, Luís Inácio Lula
da Silva. Pura bazófia. Assinaram porque a obra naquela
época nada tinha que despertasse a atenção dos vigilantes
deputados petistas ou do presidente da República e seus
auxiliares. Isso coloca os petistas na mesma posição do
presidente que querem incriminar: ou eles também não lêem
o que assinam, ou são cúmplices de Lau-Lau. Ambas as hipóteses
são absurdas.
Dida Sampaio/AE
 |
| O presidente do Senado,
Antonio Carlos Magalhães: "É um absurdo envolver o Fernando
Henrique no caso do TRT paulista" |
Com a divulgação da fita, Brasília entrou no modo de ebulição
tão peculiar em momentos de crise. O senador Pedro Simon
(PMDB-RS) pediu a cabeça de Martus Tavares. "Esse moço foi
de uma irresponsabilidade total", afirmou. O presidente
do Senado, Antonio Carlos Magalhães, inocentou o presidente
de qualquer culpa, mas não poupou Tavares. "A responsabilidade
é do ministro." Na noite de quinta-feira, o presidente convocou
uma reunião no Palácio do Planalto para avaliar o estrago.
Outra reunião seria feita na sexta-feira, dessa vez no Palácio
da Alvorada, a residência oficial do presidente. A tensão
pode ser medida pelo teor de uma nota oficial divulgada
na semana passada. Nunca, em todas as crises anteriores
e não foram poucas , o presidente precisou
soltar um comunicado reafirmando seu compromisso com a "correção
com o trato da coisa pública", segundo suas palavras. A
nota seguia garantindo aos brasileiros que o Planalto não
vai "acobertar" nenhum deslize penal praticado eventualmente
pelo ex-secretário-geral do Planalto.
Fruto de reportagens exageradas, requentadas
e de uma fita em que um criminoso procurado pela polícia
acusa funcionários públicos, a crise da semana passada
na ausência de um fato novo tem poucas chances de
evoluir para uma tempestade de granizo sobre o Planalto.
É uma crise de motivação equivocada, portanto. Já o personagem
que a perpassa, Eduardo Jorge Caldas Pereira, um economista
que trabalhou mais de quinze anos com FHC, quatro deles
no Palácio do Planalto no posto de secretário-geral da Presidência,
traz em si todos os ingredientes para fomentar uma crise
de verdade. Ao deixar o governo, há dois anos, o ex-assessor
participou da campanha da reeleição presidencial e atualmente
ganha a vida e que vida! como consultor.
Para começo de conversa, Eduardo Jorge é amigo
pessoal dos dois pilares podres que ruíram com a descoberta
dos desvios de dinheiro da obra do TRT, o juiz Lau-Lau e
o senador cassado Luiz Estevão. A amizade do ex-assessor
com o ex-senador é antiga, muito próxima e inclui os familiares
de lado a lado. Os casais se freqüentam. Quanto ao seu relacionamento
com o juiz, o ex-assessor do presidente terá ainda muito
que explicar. Para tornar mais confusa a participação de
Eduardo Jorge nesse caso, o jornal O Estado de S. Paulo
publicou na sexta-feira reportagem mostrando que o escritório
de advocacia Caldas Pereira, que tem entre seus sócios dois
irmãos e uma sobrinha do ex-assessor, trabalhou para a Incal.
É isso mesmo, a Incal é aquela construtora responsável pelo
prédio do TRT, cujos diretores chegaram a ser presos e só
foram restituídos à liberdade mediante habeas-corpus.
Ricardo Stuckert
 |
| Milton
Seligman, que deixou o governo em maio e passou no escritório
de Eduardo Jorge para pedir "apoio no futuro": quando
foi ver FHC no Planalto, encontrou Eduardo Jorge no
gabinete; quando foi embora, ele continuou lá |
De acordo com um ministro que esteve com o
presidente na semana passada, depois do estouro da crise,
a preocupação de FHC com uma possível investigação em torno
de sua participação no caso TRT é nula. "Não tenho nada
a ver com essa história e serei o maior defensor das investigações",
comentou. Seu receio chama-se Eduardo Jorge. O presidente
diz a pessoas próximas que já ouviu muita maledicência a
respeito do antigo auxiliar, mas nunca lhe levaram uma prova
ou indício concreto contra ele. "Eu me sentiria traído caso
isso ocorresse", disse FHC. Na conversa com o ministro,
o presidente foi confrontado com a pergunta:
O senhor acha que Eduardo Jorge pode estar
usando seu nome para facilitar negócios, presidente?
Fernando Henrique respondeu:
Não tenho provas, mas não tenho dúvidas.
Sérgio Lima/Folha Imagem
 |
| O senador
Pedro Simon faz ameaça contra o governo:"Ou sai esse
moço, o Martus Tavares, ou sai a CPI para investigar
o envolvimento de Eduardo Jorge no caso do TRT" |
O ministro ficou tão impressionado com o que
ouviu que decidiu reproduzir o diálogo a pelo menos dois
parlamentares de sua confiança. Conhecido nos tempos do
Planalto como "O Sombra", por sua aversão aos holofotes,
Eduardo Jorge saiu do governo há dois anos. A versão que
prevaleceu sobre a saída foi que o antigo assessor estava
cansado. Responsável pelo serviço de informações do governo,
hoje entregue ao Gabinete Militar, checava a biografia de
todos os candidatos aos cargos de alto escalão. Eduardo
Jorge também atuava como ponte entre o governo e a direção
dos fundos de pensão das estatais, instituições que movimentam
bilhões de dólares e decidem qualquer parada nas privatizações.
Outra de suas funções era articular o apoio da base governista
para acelerar a tramitação de projetos e emendas de interesse
do Planalto. No final de 1998, Eduardo Jorge confessou a
amigos que deixava o governo também por razões financeiras.
"Preciso ganhar dinheiro", disse ele na época.
Desse ponto de vista, a saída de Eduardo
Jorge do governo tem sido um sucesso. Trabalhando como consultor,
tira quase 1 milhão de reais por ano, salário de presidente
de multinacional. Os clientes lhe pagam entre 15.000 e 18.000
reais por mês para tê-lo como "conselheiro", segundo as
próprias palavras. "Não faço lobby", disse Eduardo Jorge
a VEJA. Não se pode dizer que ele seja um lobista como outro
qualquer. O lobista, por definição, é um sujeito que, trabalhando
para uma empresa, tenta aproximar-se dos governantes para
viabilizar negócios. Eduardo Jorge é bem mais que isso.
Pelos altos cargos que ocupou, é recebido com muito mais
facilidade.
Ana Araújo
 |
| O ministro Martus Tavares,
que levou os papéis para o presidente assinar: "Não
há interferência do Executivo nos gastos do Judiciário"
|
Uma parte significativa de seus proventos vem de sua atuação
na área de seguros. Sua entrada formal, como dono, no ramo
dos seguros foi no ano passado, quando se tornou sócio de
10% de um grupo chamado Meta, que atua como corretora de
seguros de vida e de planos de saúde. O grupo fatura 130
milhões de reais por ano e tem tradição de vender serviço
a empresas estatais. Outra empresa de seguros da qual o
secretário participa como conselheiro é a Delphos. Detalhe:
nas duas últimas eleições presidenciais, o grupo Meta doou
250.000 reais a Fernando Henrique, e a Delphos, outros 200.000.
Desde que entrou para a Meta, a empresa já
fechou dois bons contratos em áreas onde o livre trânsito
de Eduardo Jorge no governo foi fator decisivo. Em fevereiro
deste ano, o grupo Meta atuou como corretora de um contrato
de seguro-saúde para 20.500 funcionários e ex-funcionários
do Ministério dos Transportes e seus dependentes no valor
de 6,5 milhões de reais. A seguradora, escolhida por meio
de carta-convite, é a BrasilSaúde, do Banco do Brasil, que
na data do contrato era presidida por José Maria Monteiro.
Sua nomeação para o cargo passou pelas mãos de Eduardo Jorge.
O contrato foi feito sem licitação. O argumento do ministério
é de que o edital não ficou pronto a tempo. Na semana passada,
o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, contou à imprensa
que foi procurado por Eduardo Jorge para tratar de negócios.
Ana Araújo
 |
| Com uma
força de Eduardo Jorge, Carlos Jereissatti arrematou
a Telemar: agora a empresa contrata serviços do ex-assessor
|
As andanças de Eduardo Jorge pelos negócios de seguro despertam
suspeitas potencialmente explosivas. Uma delas diz respeito
justamente a sua atuação num negócio entre o Ministério
dos Transportes e a seguradora do Banco do Brasil. Nessa
transação, a empresa da qual ele é sócio recebeu uma comissão.
Por melhores que tenham sido as condições de corretagem
oferecidas pela empresa de Eduardo Jorge, fica no ar a desconfiança
de favorecimento. O pecado está no fato de Eduardo Jorge
ter intermediado uma operação entre um ex-colega de governo,
o ministro Padilha, e o presidente da seguradora estatal
que assumiu o cargo com a sua ajuda. Monteiro deixou o BB
três meses depois.
Outro bom contrato foi fechado com a Telemar,
o consórcio de telefonia. O grupo Meta atuou como corretor
de seguros de todos os funcionários da empresa, 25 000 no
total. Coincidência ou não, quando ainda estava no governo,
Eduardo Jorge participou ativamente da formação do consórcio
que venceu a licitação para a compra da Tele Norte Leste.
Ele conduziu as seguradoras ligadas ao Banco do Brasil a
se associar ao grupo integrado pelo empresário Carlos Jereissatti,
a Andrade Gutierrez e a Inepar. Seu parceiro nessa operação
foi o ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio, demitido
no escândalo do grampo do BNDES. "O pessoal do Jereissatti
negociou a corretagem com o Meta. Sei que entre eles existe
esse tipo de relação", afirma Pedro de Freitas, presidente
da seguradora da Caixa Econômica Federal (Sasse).
Ana Araújo
 |
Paulo Jares
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| O
ministro Eliseu Padilha, dos Transportes: contrato de
seguro para os funcionários do ministério intermediado
por uma das empresas de Eduardo Jorge |
O amigão:
Pedro de Freitas, presidente da seguradora da Caixa
Econômica Federal, telefonemas freqüentes e encontros
semanais com Eduardo Jorge "sem falar de negócios" |
Eduardo Jorge estabeleceu conexões proveitosas
no mundo empresarial. Sua opção preferencial pela área de
seguros foi providencial. Um de seus grandes amigos no governo
é justamente Pedro de Freitas, o presidente da Sasse. Ambos
se falam semanalmente, almoçam juntos pelo menos duas vezes
por mês, mas juram que conversam apenas "sobre questões
pessoais". No mercado de seguros há 35 anos, Freitas sustenta
que Eduardo Jorge jamais lhe pediu conselhos, orientação
ou qualquer outra informação estratégica. Outra amizade
"desinteressada" feita por Eduardo Jorge durante o governo
foi com o presidente da Aliança do Brasil, uma coligada
do Banco do Brasil na área de seguros, Manoel Pinto. Com
ele, Eduardo Jorge tem uma história complicada. Em dezembro
de 1996, antes de assumir a seguradora (por indicação de
Eduardo Jorge), Pinto teve o seu nome envolvido num escândalo
político. Então assessor da presidência do Banco do Brasil,
foi apontado como o autor de uma lista contendo o nome dos
deputados do PPB que tinham dívidas com o Banco do Brasil.
Essa lista serviria para pressionar os parlamentares a votar
a favor da emenda da reeleição. Na ocasião, o ex-ministro
da Coordenação de Assuntos Políticos Luiz Carlos Santos,
hoje presidente de Furnas, acusou Eduardo Jorge de ter sido
o mentor intelectual do documento. O ex-assessor de FHC
jura inocência até hoje. Mas a dúvida nunca se dissipou
totalmente.
Adriana Elias/Folha Imagem
 |
| José
Maria Monteiro, ex-tesoureiro de Covas: cargo no governo
federal pelas mãos do ex-secretário |
Num escritório de consultoria que mantém em Brasília, o
EJP, o ex-assessor recebe parlamentares e funcionários da
alta burocracia federal. Um senador que esteve lá e pede
para não ser identificado conta que foi tratar de assuntos
partidários, da mesma forma que fazia quando Eduardo Jorge
trabalhava no Planalto. O ex-secretário executivo do Ministério
do Desenvolvimento Milton Seligman também foi visitar Eduardo
Jorge no escritório. "Fui despedir-me dele e ver se seria
possível me ajudar a fazer contatos para meus negócios futuros",
conta Seligman. Além do EJP, o Sombra tem participação acionária
na LC Faria Consultoria, uma empresa com um ano de vida,
tocada pelo seu ex-chefe de gabinete, Claudio de Araújo
Faria. Durante todo o tempo em que ocupou o terceiro andar
do Planalto, Eduardo Jorge teve Faria como seu assessor.
Quando Eduardo Jorge saiu do governo, seu auxiliar também
pediu as contas. A rigor, a LC Faria é uma empresa que presta
o mesmo serviço que a EJP. Por que ele teria interesse em
ser sócio de uma empresa que é sua concorrente em potencial?
Ninguém sabe ao certo. Mas isso já desperta suspeitas. Uma
das explicações pode estar guardada com os promotores de
Justiça. O Ministério Público está investigando as empresas
de Eduardo Jorge.
Ed Ferreira/AE
 |
| De Nicolau
a Lau-Lau: o ex-secretário dizia que conversavam apenas
sobre cargos. As denúncias falam agora em verbas |
Com o presidente, a relação permaneceu próxima mesmo depois
da demissão formal. E foi mantida mesmo depois que se revelaram
na Justiça suas ligações com o juiz Lau-Lau em junho do
ano passado. Eduardo Jorge costumava freqüentar o gabinete
de FHC e chegou a assistir a algumas audiências. Numa dessas
ocasiões, há cerca de oito meses, o ex-assessor participou
de um encontro entre FHC e o diretor do Ibope, Carlos Augusto
Montenegro. Trataram da imagem presidencial. "Quando eu
cheguei ele já estava lá. Quando saí, ele permaneceu", conta
Montenegro. Mais de uma vez foi visto também no Palácio
da Alvorada, inclusive em finais de semana. No fim do ano
passado, Fernando Henrique o presenteou com uma fotografia
oficial autografada. No réveillon, ele fazia parte da lista
de convidados do presidente, que assistiu ao show de fogos
de artifício de dentro do Forte de Copacabana. Na semana
passada, FHC conversou por telefone com um amigo empresário,
de São Paulo. Com a liberdade de quem conhece o presidente
desde a década de 70, o empresário perguntou por que FHC
não rompe de vez com Eduardo Jorge. "Nada me contaram de
concreto até agora sobre ele. Mas se algo desastroso vier
a ser revelado a mim sobre ele, não hesitarei em tomar providências",
disse FHC.
Orlando Brito
 |
| Luiz
Estevão cumprimenta Lídice, mulher de Eduardo Jorge,
durante uma festa na capital ocorrida em 1997: o casal
cultiva amizade com a família do ex-senador |
Amigos próximos de Eduardo Jorge ainda no governo acham
que ele está se expondo demais, exibindo sinais exteriores
de riqueza que ele nunca ostentara. Ao comprar um apartamento
de 1 milhão de reais no Rio de Janeiro, no exclusivo condomínio
Praia Guinle, Eduardo Jorge ingressou num círculo social
habitado por empresários e artistas milionários. Da relação
de moradores, não faz parte nenhum funcionário público.
Para comprar o imóvel, Eduardo Jorge obteve um empréstimo
de 300.000 reais do BancoCidade, que possui apenas 8.000
pessoas físicas em sua carteira de clientes. A fama do banco
é trabalhar com o alto empresariado, não com funcionários
públicos aposentados, como Eduardo Jorge. Pelo menos o Eduardo
Jorge que o presidente conheceu um rábula dedicado,
brilhante conhecedor de leis e que foi seu leal auxiliar
por mais de quinze anos. Os sinais são de que aquele servidor
não existe mais. Foi substituído por um grande facilitador
de oportunidades que envolvem esferas de governo. A questão
que interessa ao país é saber se FHC já foi apresentado
a esse ás dos negócios.
Sempre no centro do poder
Álbum de família
 |
| Na década de 70,
com senadores no lobby do Congresso Nacional |
O cearense Eduardo Jorge Caldas Pereira, de 58 anos,
é um fenômeno da vida pública. Sua trajetória no Congresso
Nacional é incomparável. Aos 22 anos, militante dos
movimentos de esquerda, passou num concurso para datilógrafo
no Senado. Em menos de dois anos se tornou peça-chave
na elaboração do Orçamento da União. À época, o então
senador Mem de Sá chegou a fazer um discurso em plenário
louvando o brilhantismo "daquele datilógrafo". Sua
reputação lhe rendeu carta branca para implantar o
Prodasen, o serviço de processamento de dados do Senado,
e sugerir a criação de cargos, como o de assessor
parlamentar. Paralelamente, passou a colecionar amigos
e informações. Dono de memória invejável, vangloria-se
de declamar artigos inteiros da Constituição e do
regimento interno do Congresso sem titubear.
Fez mestrado e doutorado nos Estados Unidos. Durante
esse período, foi chamado pela New York University
para assessorar assembléias legislativas americanas.
Em 1983, ao voltar para Brasília, foi convidado pelo
então senador Fernando Henrique Cardoso para trabalhar
na CPI das Polonetas, que investigava denúncias de
irregularidades num empréstimo feito pelo Brasil à
Polônia. O senador ficou impressionado com o trabalho
do assessor. Mais tarde, como auxiliar de FHC na Presidência,
Eduardo Jorge centralizava informações sobre a burocracia,
controlava a arapongagem no Planalto e atendia aos
pedidos de parlamentares. O papel lhe valeu apelidos
do tipo "Homem-Interpol", "Sherlock" e "O Sombra".
|
Com reportagem de Cristine
Prestes e
Rodrigo Vergara, de São Paulo, e Flamínio Fantini,
de Brasília
Saiba
mais |
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