Razões de otimismo
Coordenador de pesquisas econômicas
da
McKinsey diz que a globalização e o progresso
econômico beneficiam ricos e pobres
Eliana Giannella Simonetti
Bill Lewis, de 58 anos, um físico nuclear que em
duas oportunidades trabalhou no Departamento de Defesa dos
Estados Unidos, está entre as pessoas que mais minuciosamente
conhecem a economia mundial. Ele é chefe do McKinsey
Global Institute, ligado à empresa americana de consultoria
McKinsey, cuja função é produzir estudos
comparativos do funcionamento do mercado em diferentes países
e regiões. Em dez anos de existência, o instituto
já mergulhou nos segredos de uma dúzia de
economias nacionais, entre elas a do Japão, Coréia,
Brasil, Rússia, Polônia, Estados Unidos e Suécia.
Seus economistas visitaram fábricas, prédios
em construção, bares de esquina, feiras livres,
grandes companhias de produção de energia
e aço para entender minuciosamente as razões
do crescimento súbito ou da resistência do
subdesenvolvimento dos países. "O conhecimento da
economia, do ponto de vista macro, não é bastante
para explicar as diferenças, mas os detalhes são
reveladores", diz. Lewis concedeu a VEJA a entrevista que
se segue.
Veja Alguns estudiosos dizem que o grau de
desenvolvimento dos povos depende principalmente da cultura,
da mentalidade predominante. Qual o real efeito disso?
Lewis É possível encontrar em países
de culturas semelhantes desempenhos econômicos díspares.
Portanto não acredito muito nessa tese. Hoje está
em voga dizer que desenvolvimento econômico crescente,
melhoria no desempenho econômico, globalização
e abertura comercial são bons somente para a classe
média e para os mais ricos e que não trazem
nada de positivo para os pobres. A evidência é
contrária. É de que o progresso beneficia
os pobres numa taxa pelo menos igual, se não um pouco
maior, à dos ricos. O que determina que uma região
tire maior proveito das oportunidades de crescimento é
a política econômica adotada. Sem dúvida
nenhuma ela é um fator mais influente no desempenho
global do que a cultura do povo.
Veja Mas, se todos os povos são potencialmente
capazes de se desenvolver, por que alguns não se
desenvolvem?
Lewis Por uma série de razões,
país algum toma sempre as decisões econômicas
mais adequadas. As propostas de mudanças na economia,
em geral, provocam reações entre os que são
favorecidos pelo modelo antigo e têm seus interesses
ameaçados pela modernização. Isso é
normal, é política. Ocorre que o grau de resistência
às mudanças varia de um país para outro.
Em alguns deles, certos grupos com interesses feridos conseguem
bloquear mais eficazmente o progresso ou a implementação
de políticas econômicas mais adequadas. Quanto
menor o poder de grupos minoritários, mais chance
o país tem de mudar, de aperfeiçoar sua economia.
Por isso é possível concluir que há
uma forte correlação entre democracias populares
e bom desempenho econômico. Entre os países
ricos, que têm alto índice de produtividade,
como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova
Zelândia e alguns europeus, também há
classes com interesses especiais, avessos a mudanças.
São, por exemplo, os sindicatos de trabalhadores
ou os burocratas. Mas essa gente acaba sendo obrigada a
se curvar diante de um interesse maior, que diz respeito
a todos: o dos consumidores. Nos países desenvolvidos,
as pessoas são muito ciosas de seus direitos como
consumidores. E é esse interesse maior que acaba
prevalecendo quando há democracia. A vontade dos
consumidores é atendida no melhor nível possível.
Isso é importante porque, afinal, é o ponto
de vista do consumidor que determina o desempenho da economia.
Um sinal de vitalidade fundamental das economias é
gerar consumo. Algumas regiões não se desenvolvem
simplesmente porque teimam em ignorar esse dado básico.
Veja Seria esse o mal da economia japonesa?
Lewis O Japão cresceu durante muito tempo.
Mas a economia mundial mudou e o país ficou defasado.
Seu modelo já não funciona há bastante
tempo e nada foi feito justamente porque há muitos
interesses envolvidos, muita gente que perderá benesses
com a modernização da economia. O Japão
terá de fazer um número enorme de mudanças
em suas microrregulações, aquelas que atingem
a maneira como os indivíduos fazem negócios,
se quiser voltar a crescer. Caso contrário, a crise,
que já dura dez anos, se aprofundará.
Veja O otimismo que se observa em muitos
analistas da economia mundial atualmente se justifica?
Lewis Há muitos caminhos que o mundo pode
tomar, mas considerando-se os últimos dez anos só
podemos ser otimistas. No passado havia dois problemas globais
enormes para resolver. O primeiro não tinha a ver
diretamente com a economia. Dizia respeito à dúvida
sobre se Estados Unidos e União Soviética
se envolveriam numa guerra termonuclear. O segundo problema
global era o seguinte: parecia que o mundo estava caminhando
para uma divisão entre ricos e pobres, entre os que
têm tudo e os que nada têm. Imaginava-se se
seria possível que os países ricos sobrevivessem
isolados de 80% da população mundial, os pobres.
Bem, em virtude do colapso da União Soviética
e do fim da competição entre americanos e
soviéticos, o problema das guerras nucleares foi
afastado. Pode voltar, é claro, mas certamente de
forma muito diferente do que era quinze anos atrás.
E uma tremenda reforma econômica modificou o mundo
desde então. De alguma forma a riqueza se disseminou.
Isso não quer dizer que o mundo ficará, necessariamente,
muito melhor do que está hoje. Mas há espaço
para esperar que a qualidade de vida melhore nos países
em desenvolvimento, e que com isso sejam criadas condições
para a estabilidade e a coesão social.
Veja Existe de fato uma nova economia baseada
na tecnologia da informação? O que será
dos países que não conseguirem inserir-se
nela?
Lewis Isso é muito complicado. Hoje os
computadores estão presentes, de alguma forma, em
85% da economia americana, e os resultados, em termos de
aumento de produtividade, não são tão
visíveis. Assim, ninguém sabe a resposta à
questão sobre se há ou não uma nova
economia, um novo padrão de eficiência. Mas
é certo que a tecnologia, sozinha, não constrói
um ambiente melhor. É certo também que há
muito o que fazer para melhorar o desempenho dos países,
independentemente de sua inserção ou não
na nova economia.
Veja O que mais entrava o progresso de um
país?
Lewis Existem detalhes fundamentais para o desenvolvimento
econômico aos quais não se costuma dar importância.
Um ponto muito sensível na receita do crescimento
está nas regras setoriais sob as quais as empresas
têm de operar. Trata-se de microrregulamentações
que normalmente não chamam muito a atenção,
porque são muitas, e muito detalhadas. Veja o caso
da Inglaterra. Como explicar que, sendo um país de
mercado aberto e relativamente competitivo, ela tivesse
um desempenho econômico tão inferior ao dos
Estados Unidos considerando que os dois são
países de culturas anglo-saxãs muito semelhantes?
Em nossos estudos descobrimos que, justamente nos setores
em que os negócios interagem com os consumidores,
os ingleses eram mais parecidos com seus vizinhos europeus
que com os americanos. Eles tinham muitos entraves à
reforma de prédios e à construção
de novos edifícios, e por isso encontramos muitos
hospitais abandonados: porque, por terem mais de 100 anos
de idade, os prédios não podiam ser tocados.
E isso justamente em locais ideais para a construção
de hipermercados. Resultado: a Inglaterra fez uma revisão
completa na lei de zoneamento urbano e nos códigos
de construção. E houve uma explosão
de negócios nessa área.
Veja O caso da Inglaterra é modelar
na sua análise. Por quê? Que reformas tão
importantes os ingleses fizeram?
Lewis A mudança maior aconteceu na forma
pela qual o governo inglês administrava sua política
de competição no mercado. A legislação
permitia que oligopólios e outros tipos de concentração
ocorressem, o que prejudicava o desempenho da economia e
os consumidores como um todo. Isso foi resolvido. A lei
mudou não só no sentido de coibir concentração
e estimular a competição entre empresas, mas
também na definição da forma como os
abusos de poder econômico são julgados. A Inglaterra
também não caiu no populismo simplório
de tentar distribuir renda por decreto. Recentemente estabeleceu
um salário mínimo coisa que não
existia por ali , mas fixou-o num patamar bastante
baixo. O país preferiu melhorar a distribuição
de renda fazendo uma reforma tributária para valer.
Veja Em países como o Brasil, a Rússia
e a Índia há uma parte grande da economia
que corre no subterrâneo. Esses países não
deveriam estar se desenvolvendo mais rapidamente por escapar
do gesso da lei, especialmente da legislação
miúda?
Lewis Não. A economia informal não
é produtiva. Não investe em novas tecnologias,
na formação de trabalhadores. Não se
interessa pela melhoria da qualidade de seus produtos e
serviços. É um quebra-galho. É preciso
que as leis mudem, desengessem o mundo dos negócios,
para que o país cresça. Não fora, mas
dentro da lei. Mas eu nunca colocaria Brasil, Rússia
e Índia num mesmo grupo. Se tivesse de escolher entre
os três qual o melhor, sem dúvida escolheria
o Brasil. A Rússia é um país único,
com economia ímpar. Não pertence a grupo nenhum.
E a diferença entre a Índia e o Brasil é
enorme. A renda per capita brasileira é aproximadamente
25% da americana. A da Índia é 5%. A Índia
tem 1 bilhão de habitantes, ao passo que o Brasil
tem cerca de 150 milhões. Na Índia, 80% das
pessoas trabalham na cadeia de produção de
alimentos. No Brasil são cerca de 30%. O Brasil tem
toda a estrutura de uma economia moderna, em todos os setores,
tudo está no lugar. Falta aumentar a produtividade
dos trabalhadores. A alta informalidade atrapalha esse progresso.
Mas nós acreditamos que o Brasil tem potencial para
crescer cerca de 8% ao ano. E isso será muito mais
fácil se a regulamentação econômica
for reformada. Nenhum país, nunca, é ótimo
em tudo. Mas o Brasil certamente tem espaço para
melhorar seu desempenho.
Veja O que lhe dá tamanha certeza
da capacidade de crescimento da economia brasileira?
Lewis Uma das grandes surpresas no Brasil é
a estrutura relativamente moderna de suas empresas. É
pouco usual encontrar em países em desenvolvimento
empresas com padrões semelhantes aos do Primeiro
Mundo. Então no Brasil é claro que o desenvolvimento
pode acontecer. Nossa única questão é
a respeito de que caminho o Brasil irá tomar. Se
continuar seguindo o modelo democrático ocidental,
com suas implicações econômicas, de
maneira cada vez mais acelerada, acho que não haverá
grande entrave ao crescimento econômico.
Veja E a Índia?
Lewis Na Índia a coisa é muito
mais complicada. É preciso criar novas indústrias.
É preciso transferir cerca de 500 milhões
de pessoas da cadeia de produção de alimentos
para outros setores, como as siderúrgicas, o de serviços
e até o comércio. O problema da Índia
é muito complexo. Cerca de 70% de sua economia está
nas mãos do governo, que acredita fortemente numa
idéia superada: o planejamento centralizado.
Veja Há relação entre
estabilidade econômica e crescimento?
Lewis Países que crescem economicamente
são muito mais estáveis política e
socialmente. A História do mundo conta que nações
com dificuldade de crescer economicamente têm de enfrentar
crises de instabilidade.
Veja O instituto que o senhor dirige tem a
reputação de conhecer os países, o
funcionamento das economias locais, em alguns casos melhor
do que os próprios governos. Que uso vocês
fazem desse conhecimento?
Lewis No universo da construção
do conhecimento e do debate de questões públicas,
como estas de que tratamos, o que realmente importa no longo
prazo é quanta influência nós conseguimos
ter. Quer dizer, nossas pesquisas servem para que orientemos
nossos clientes sobre onde investir e o que esperar do futuro
em cada região, mas diria que, num nível mais
elevado, nosso objetivo tem sido basicamente mudar a maneira
de pensar das pessoas influentes, sejam políticos,
tecnocratas, diretores de empresas, enfim, gente que toma
decisões. Temos tentado chegar a essa gente dizendo-lhes
coisas que nunca ouviram. Normalmente temos encontros pessoais
com empresários e membros de governos, que são
nossos clientes, e então divulgamos as informações
de forma a obter a maior abrangência possível.
Veja Que diferença isso faz?
Lewis Em dez anos nós pudemos verificar
algumas diferenças, que variam de país para
país conforme o ambiente e, francamente, conforme
a real intenção dos tomadores de decisão
de cada governo. Assim, num país como a Inglaterra,
onde os administradores do Estado quiseram ver nosso estudo,
houve mudanças imediatas que foram positivas para
os ingleses, para o governo e para empresas. A Inglaterra
cresceu mais rapidamente. Lá o desemprego caiu. Em
outros países, como a Rússia, onde a situação
é tão confusa que você nunca sabe quem
está realmente fazendo o quê, nós não
temos esperança de exercer nenhuma influência
no curto prazo. Nesses casos, continuamos a estudar, entender
o que acontece e o que precisa ser feito para melhorar o
cenário econômico do país. Também
procuramos divulgar intensamente nossas constatações
entre os jovens, aqueles com menos de 35 anos, que terão
de tomar decisões no futuro.
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