Edição 1 658 - 19/7/2000

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Razões de otimismo

Coordenador de pesquisas econômicas da
McKinsey diz que a globalização e o progresso
econômico beneficiam ricos e pobres

Eliana Giannella Simonetti

Bill Lewis, de 58 anos, um físico nuclear que em duas oportunidades trabalhou no Departamento de Defesa dos Estados Unidos, está entre as pessoas que mais minuciosamente conhecem a economia mundial. Ele é chefe do McKinsey Global Institute, ligado à empresa americana de consultoria McKinsey, cuja função é produzir estudos comparativos do funcionamento do mercado em diferentes países e regiões. Em dez anos de existência, o instituto já mergulhou nos segredos de uma dúzia de economias nacionais, entre elas a do Japão, Coréia, Brasil, Rússia, Polônia, Estados Unidos e Suécia. Seus economistas visitaram fábricas, prédios em construção, bares de esquina, feiras livres, grandes companhias de produção de energia e aço para entender minuciosamente as razões do crescimento súbito ou da resistência do subdesenvolvimento dos países. "O conhecimento da economia, do ponto de vista macro, não é bastante para explicar as diferenças, mas os detalhes são reveladores", diz. Lewis concedeu a VEJA a entrevista que se segue.

Veja – Alguns estudiosos dizem que o grau de desenvolvimento dos povos depende principalmente da cultura, da mentalidade predominante. Qual o real efeito disso?
Lewis –
É possível encontrar em países de culturas semelhantes desempenhos econômicos díspares. Portanto não acredito muito nessa tese. Hoje está em voga dizer que desenvolvimento econômico crescente, melhoria no desempenho econômico, globalização e abertura comercial são bons somente para a classe média e para os mais ricos e que não trazem nada de positivo para os pobres. A evidência é contrária. É de que o progresso beneficia os pobres numa taxa pelo menos igual, se não um pouco maior, à dos ricos. O que determina que uma região tire maior proveito das oportunidades de crescimento é a política econômica adotada. Sem dúvida nenhuma ela é um fator mais influente no desempenho global do que a cultura do povo.  

Veja – Mas, se todos os povos são potencialmente capazes de se desenvolver, por que alguns não se desenvolvem?
Lewis –
Por uma série de razões, país algum toma sempre as decisões econômicas mais adequadas. As propostas de mudanças na economia, em geral, provocam reações entre os que são favorecidos pelo modelo antigo e têm seus interesses ameaçados pela modernização. Isso é normal, é política. Ocorre que o grau de resistência às mudanças varia de um país para outro. Em alguns deles, certos grupos com interesses feridos conseguem bloquear mais eficazmente o progresso ou a implementação de políticas econômicas mais adequadas. Quanto menor o poder de grupos minoritários, mais chance o país tem de mudar, de aperfeiçoar sua economia. Por isso é possível concluir que há uma forte correlação entre democracias populares e bom desempenho econômico. Entre os países ricos, que têm alto índice de produtividade, como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e alguns europeus, também há classes com interesses especiais, avessos a mudanças. São, por exemplo, os sindicatos de trabalhadores ou os burocratas. Mas essa gente acaba sendo obrigada a se curvar diante de um interesse maior, que diz respeito a todos: o dos consumidores. Nos países desenvolvidos, as pessoas são muito ciosas de seus direitos como consumidores. E é esse interesse maior que acaba prevalecendo quando há democracia. A vontade dos consumidores é atendida no melhor nível possível. Isso é importante porque, afinal, é o ponto de vista do consumidor que determina o desempenho da economia. Um sinal de vitalidade fundamental das economias é gerar consumo. Algumas regiões não se desenvolvem simplesmente porque teimam em ignorar esse dado básico.

Veja – Seria esse o mal da economia japonesa?
Lewis –
O Japão cresceu durante muito tempo. Mas a economia mundial mudou e o país ficou defasado. Seu modelo já não funciona há bastante tempo e nada foi feito justamente porque há muitos interesses envolvidos, muita gente que perderá benesses com a modernização da economia. O Japão terá de fazer um número enorme de mudanças em suas microrregulações, aquelas que atingem a maneira como os indivíduos fazem negócios, se quiser voltar a crescer. Caso contrário, a crise, que já dura dez anos, se aprofundará.  

Veja – O otimismo que se observa em muitos analistas da economia mundial atualmente se justifica?
Lewis –
Há muitos caminhos que o mundo pode tomar, mas considerando-se os últimos dez anos só podemos ser otimistas. No passado havia dois problemas globais enormes para resolver. O primeiro não tinha a ver diretamente com a economia. Dizia respeito à dúvida sobre se Estados Unidos e União Soviética se envolveriam numa guerra termonuclear. O segundo problema global era o seguinte: parecia que o mundo estava caminhando para uma divisão entre ricos e pobres, entre os que têm tudo e os que nada têm. Imaginava-se se seria possível que os países ricos sobrevivessem isolados de 80% da população mundial, os pobres. Bem, em virtude do colapso da União Soviética e do fim da competição entre americanos e soviéticos, o problema das guerras nucleares foi afastado. Pode voltar, é claro, mas certamente de forma muito diferente do que era quinze anos atrás. E uma tremenda reforma econômica modificou o mundo desde então. De alguma forma a riqueza se disseminou. Isso não quer dizer que o mundo ficará, necessariamente, muito melhor do que está hoje. Mas há espaço para esperar que a qualidade de vida melhore nos países em desenvolvimento, e que com isso sejam criadas condições para a estabilidade e a coesão social.  

Veja – Existe de fato uma nova economia baseada na tecnologia da informação? O que será dos países que não conseguirem inserir-se nela?
Lewis
– Isso é muito complicado. Hoje os computadores estão presentes, de alguma forma, em 85% da economia americana, e os resultados, em termos de aumento de produtividade, não são tão visíveis. Assim, ninguém sabe a resposta à questão sobre se há ou não uma nova economia, um novo padrão de eficiência. Mas é certo que a tecnologia, sozinha, não constrói um ambiente melhor. É certo também que há muito o que fazer para melhorar o desempenho dos países, independentemente de sua inserção ou não na nova economia.  

Veja – O que mais entrava o progresso de um país?
Lewis
– Existem detalhes fundamentais para o desenvolvimento econômico aos quais não se costuma dar importância. Um ponto muito sensível na receita do crescimento está nas regras setoriais sob as quais as empresas têm de operar. Trata-se de microrregulamentações que normalmente não chamam muito a atenção, porque são muitas, e muito detalhadas. Veja o caso da Inglaterra. Como explicar que, sendo um país de mercado aberto e relativamente competitivo, ela tivesse um desempenho econômico tão inferior ao dos Estados Unidos – considerando que os dois são países de culturas anglo-saxãs muito semelhantes? Em nossos estudos descobrimos que, justamente nos setores em que os negócios interagem com os consumidores, os ingleses eram mais parecidos com seus vizinhos europeus que com os americanos. Eles tinham muitos entraves à reforma de prédios e à construção de novos edifícios, e por isso encontramos muitos hospitais abandonados: porque, por terem mais de 100 anos de idade, os prédios não podiam ser tocados. E isso justamente em locais ideais para a construção de hipermercados. Resultado: a Inglaterra fez uma revisão completa na lei de zoneamento urbano e nos códigos de construção. E houve uma explosão de negócios nessa área.

Veja – O caso da Inglaterra é modelar na sua análise. Por quê? Que reformas tão importantes os ingleses fizeram?
Lewis –
A mudança maior aconteceu na forma pela qual o governo inglês administrava sua política de competição no mercado. A legislação permitia que oligopólios e outros tipos de concentração ocorressem, o que prejudicava o desempenho da economia e os consumidores como um todo. Isso foi resolvido. A lei mudou não só no sentido de coibir concentração e estimular a competição entre empresas, mas também na definição da forma como os abusos de poder econômico são julgados. A Inglaterra também não caiu no populismo simplório de tentar distribuir renda por decreto. Recentemente estabeleceu um salário mínimo – coisa que não existia por ali –, mas fixou-o num patamar bastante baixo. O país preferiu melhorar a distribuição de renda fazendo uma reforma tributária para valer.

Veja – Em países como o Brasil, a Rússia e a Índia há uma parte grande da economia que corre no subterrâneo. Esses países não deveriam estar se desenvolvendo mais rapidamente por escapar do gesso da lei, especialmente da legislação miúda?
Lewis
– Não. A economia informal não é produtiva. Não investe em novas tecnologias, na formação de trabalhadores. Não se interessa pela melhoria da qualidade de seus produtos e serviços. É um quebra-galho. É preciso que as leis mudem, desengessem o mundo dos negócios, para que o país cresça. Não fora, mas dentro da lei. Mas eu nunca colocaria Brasil, Rússia e Índia num mesmo grupo. Se tivesse de escolher entre os três qual o melhor, sem dúvida escolheria o Brasil. A Rússia é um país único, com economia ímpar. Não pertence a grupo nenhum. E a diferença entre a Índia e o Brasil é enorme. A renda per capita brasileira é aproximadamente 25% da americana. A da Índia é 5%. A Índia tem 1 bilhão de habitantes, ao passo que o Brasil tem cerca de 150 milhões. Na Índia, 80% das pessoas trabalham na cadeia de produção de alimentos. No Brasil são cerca de 30%. O Brasil tem toda a estrutura de uma economia moderna, em todos os setores, tudo está no lugar. Falta aumentar a produtividade dos trabalhadores. A alta informalidade atrapalha esse progresso. Mas nós acreditamos que o Brasil tem potencial para crescer cerca de 8% ao ano. E isso será muito mais fácil se a regulamentação econômica for reformada. Nenhum país, nunca, é ótimo em tudo. Mas o Brasil certamente tem espaço para melhorar seu desempenho.

Veja – O que lhe dá tamanha certeza da capacidade de crescimento da economia brasileira?
Lewis
– Uma das grandes surpresas no Brasil é a estrutura relativamente moderna de suas empresas. É pouco usual encontrar em países em desenvolvimento empresas com padrões semelhantes aos do Primeiro Mundo. Então no Brasil é claro que o desenvolvimento pode acontecer. Nossa única questão é a respeito de que caminho o Brasil irá tomar. Se continuar seguindo o modelo democrático ocidental, com suas implicações econômicas, de maneira cada vez mais acelerada, acho que não haverá grande entrave ao crescimento econômico.

Veja – E a Índia?
Lewis
– Na Índia a coisa é muito mais complicada. É preciso criar novas indústrias. É preciso transferir cerca de 500 milhões de pessoas da cadeia de produção de alimentos para outros setores, como as siderúrgicas, o de serviços e até o comércio. O problema da Índia é muito complexo. Cerca de 70% de sua economia está nas mãos do governo, que acredita fortemente numa idéia superada: o planejamento centralizado.

Veja – Há relação entre estabilidade econômica e crescimento?
Lewis
– Países que crescem economicamente são muito mais estáveis política e socialmente. A História do mundo conta que nações com dificuldade de crescer economicamente têm de enfrentar crises de instabilidade.

Veja – O instituto que o senhor dirige tem a reputação de conhecer os países, o funcionamento das economias locais, em alguns casos melhor do que os próprios governos. Que uso vocês fazem desse conhecimento?
Lewis
– No universo da construção do conhecimento e do debate de questões públicas, como estas de que tratamos, o que realmente importa no longo prazo é quanta influência nós conseguimos ter. Quer dizer, nossas pesquisas servem para que orientemos nossos clientes sobre onde investir e o que esperar do futuro em cada região, mas diria que, num nível mais elevado, nosso objetivo tem sido basicamente mudar a maneira de pensar das pessoas influentes, sejam políticos, tecnocratas, diretores de empresas, enfim, gente que toma decisões. Temos tentado chegar a essa gente dizendo-lhes coisas que nunca ouviram. Normalmente temos encontros pessoais com empresários e membros de governos, que são nossos clientes, e então divulgamos as informações de forma a obter a maior abrangência possível.

Veja – Que diferença isso faz?
Lewis
– Em dez anos nós pudemos verificar algumas diferenças, que variam de país para país conforme o ambiente e, francamente, conforme a real intenção dos tomadores de decisão de cada governo. Assim, num país como a Inglaterra, onde os administradores do Estado quiseram ver nosso estudo, houve mudanças imediatas que foram positivas para os ingleses, para o governo e para empresas. A Inglaterra cresceu mais rapidamente. Lá o desemprego caiu. Em outros países, como a Rússia, onde a situação é tão confusa que você nunca sabe quem está realmente fazendo o quê, nós não temos esperança de exercer nenhuma influência no curto prazo. Nesses casos, continuamos a estudar, entender o que acontece e o que precisa ser feito para melhorar o cenário econômico do país. Também procuramos divulgar intensamente nossas constatações entre os jovens, aqueles com menos de 35 anos, que terão de tomar decisões no futuro.

 
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Da internet
  Mckinsey Global Institute