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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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Inimigo do peito

Em A Soma de Todos os Medos,
os americanos
lembram como
era bom brigar com os russos

Isabela Boscov

 
Divulgação
Freeman e Affleck: personagens de Tom Clancy


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Os russos juram que não foram eles que detonaram uma explosão nuclear num estádio lotado nos Estados Unidos. Mas, entre si, se perguntam: "Temos mesmo certeza de que não fomos nós? Não haveria algum desgarrado entre nós?". Os americanos querem acreditar na resposta, mas têm de revidar – e aí os russos podem se considerar no direito de apertar mais alguns botões. Não há acordo antiarmas, fim de tensão Leste-Oeste ou entrada de outros inimigos em cena capaz de desatualizar o cenário retratado em A Soma de Todos os Medos (The Sum of All Fears, Estados Unidos, 2002). Pelo simples fato de que há no mundo bombas – e interessados em usá-las, em número suficiente para tornar possível esse quadro. A nova aventura do agente da CIA Jack Ryan, desde sexta-feira em cartaz no país, faz uma escolha fraquinha de vilão – um neonazista austríaco que planeja lançar os velhos inimigos um contra o outro. Uma pataquada, claro, mas que não passa de um detalhe. O que está no cerne de Medos é o delicado jogo entre antagonistas convertidos em aliados relutantes. Nesse sentido, é um thriller tão eficaz quanto os outros protagonizados pelo agente criado pelo escritor Tom Clancy, como Caçada ao Outubro Vermelho e Jogos Patrióticos.

O detalhe curioso aqui é que o tempo passou, mas Ryan ficou mais jovem. Depois de ser vivido por Alec Baldwin e Harrison Ford, o papel agora cabe a Ben Affleck. Ryan, portanto, é um agente júnior pinçado pelo diretor da CIA (Morgan Freeman) para ajudá-lo na missão de decifrar o novo presidente russo. O antigo, gordo e beberrão, acaba de morrer, e o desconhecido Nemerov, com pinta de linha-dura, foi alçado ao seu posto – uma referência óbvia à sucessão de Boris Ieltsin por Vladimir Putin. Ryan acha que Nemerov é mais confiável do que parece. E, à medida que os incidentes se sucedem, o agente se tornará uma peça crucial para fazer valer esse voto de confiança e evitar que se dê um passo sem volta.

Affleck não é um ator capaz de comunicar gravidade. Mas, considerando-se que aqui ele ainda é um jovem impulsivo, esse é um mal até certo ponto mitigável – especialmente com a ajuda do bom elenco de apoio, em que se destaca o irlandês Ciarán Hinds, como Nemerov. Há também alguma preocupação com a verossimilhança. Os personagens russos falam russo entre si, e não aquele inglês com falso sotaque eslavo, e a explosão da bomba é mostrada com efeitos menos espalhafatosos do que os habituais, mas ainda mais apavorantes. O curioso de Medos, contudo, é a mensagem nostálgica de suas entrelinhas: bons tempos aqueles em que o inimigo tinha endereço conhecido e estava do outro lado da linha de um telefone vermelho.

   
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