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Crônicas marcianas

Uma obra saborosa sobre os bastidores
da exploração de Marte pela Nasa


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Marte é dono de uma poderosa mística. Sua observação remonta à Antiguidade, e ele ocupa um papel único na história da ciência. Foi estudando sua órbita, por exemplo, que o alemão Johannes Kepler formulou suas leis do movimento planetário, no começo do século XVII. Ao mesmo tempo, o planeta é uma obsessão popular desde 1877, quando o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli relatou ter descoberto canais em sua superfície. Em italiano, canais são sulcos na terra que tanto podem ser artificiais quanto naturais. Mas em inglês há dois termos: "channel" é um acidente geográfico; "canal", uma obra de engenharia. Quando a imprensa americana divulgou as descobertas de Schiaparelli usando a segunda palavra, imediatamente se espalhou a idéia de que uma civilização alienígena nos espreitava do planeta vizinho. Graças a esse erro de tradução, não existe nada no céu noturno que inflame tanto a imaginação. Marte é um ponto para o qual convergem uma enorme curiosidade científica e numerosas fantasias.

Nesta semana, sai no Brasil um livro rico de informações sobre temas marcianos. Escrito pelo jornalista americano Laurence Bergreen, Viagem a Marte (tradução de Paulo Reis; Objetiva; 350 páginas; 37,90 reais) foi fruto de dois anos de entrevistas com cientistas da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. Bergreen teve acesso franqueado a pesquisas, documentos e reuniões fechadas. Sem perder de vista os temas caros à imaginação popular, fez um livro saboroso sobre a história recente da exploração do planeta vermelho, desvendando seus bastidores e resumindo os debates científicos mais importantes.

Um aspecto central, claro, é a especulação sobre a existência de vida em Marte. Bergreen mostra como, nas últimas décadas, saiu de cena definitivamente a esperança de encontrar formas de vida complexas por lá. Ao mesmo tempo, há evidências da presença de "vida extremófila" no planeta. São aqueles organismos que, apesar de muito simples, conseguem adaptar-se aos ambientes mais extremos. Para que existam, basta a presença de água e de alguma fonte de energia. Ora, ainda que Marte seja um planeta árido, essas duas condições estão presentes lá, como a sonda Mars Global Surveyor, lançada em 1996 pela Nasa, vem comprovando abundantemente. Bergreen ressalta, contudo, que a discussão nesse campófila" no planeta. São aqueles organismos que, apesar de muito simples, conseguem adaptar-se aos ambientes mais extremos. Para que existam, basta a presença de água e de alguma fonte de energia. Ora, ainda que Marte seja um planeta árido, essas duas condições estão presentes lá, como a sonda Mars Global Surveyor, lançada em 1996 pela Nasa, vem comprovando abundantemente. Bergreen ressalta, contudo, que a discussão nesse campo ainda é acalorada. "A tese da vida se fortalece, mas não há consenso. Aliás, não existe algo como 'o ponto de vista da Nasa' sobre nenhum assunto científico. O que existe é uma multidão de pontos de vista", diz ele.

Outra questão que Bergreen aborda com detalhes é o envio de astronautas a Marte. "Nos cronogramas internos da instituição há uma viagem tripulada prevista para 2014", afirma ele. "Ouvi de várias pessoas que a tecnologia está quase toda disponível, mas não sei se apostaria muitas fichas nessa data." De fato, ainda existem muitos problemas a resolver, como prevenir a descalcificação dos ossos dos astronautas e, acima de tudo, diminuir os efeitos letais da radiação numa longa travessia planetária. E, além dessas questões médicas e de engenharia, não se pode desprezar a política. "Quando fomos à Lua, a Guerra Fria estava em curso e queríamos ganhar uma corrida", diz Bergreen. "Hoje, não existe motivação para fazer às pressas essa viagem caríssima."

Sim, dinheiro é um assunto de Viagem a Marte. No interior da Nasa, Bergreen não presenciou apenas debates renhidos entre astrônomos, físicos e biólogos, e uma espécie de "choque de culturas", opondo cientistas e engenheiros. Ele identificou também uma guerra pelas verbas da instituição (cerca de 13 bilhões de dólares anuais). O último diretor da Nasa, Daniel Goldin, que se demitiu alguns meses atrás, tinha como lema a frase "mais rápido, melhor, mais barato". Isso ajudou a desmontar velhos hábitos burocráticos da agência. Por outro lado, acredita Bergreen, criou-se uma certa neurose em torno dos cortes de custos. Nem os gênios da exploração espacial, enfim, estão livres das questões mais terrenas.

 

OS HOMENZINHOS VERDES

 
Warner Bros

Um dos invasores de Marte Ataca!: o planeta favorito da ficção

No que dependesse da ficção, o sistema solar poderia conter não mais do que a Terra e Marte. Escritores, desde meados do século XIX, e cineastas, a partir do século XX, têm-se ocupado em demonstrar as similaridades do planeta vizinho com o nosso e exaltar seu potencial para abrigar vida. É claro que, se algum dia forem encontrados vestígios dela, a coisa não deve lembrar em nada a figura do "homenzinho verde" que, ao que se sabe, foi atribuída aos marcianos pelo escritor Edgar Rice Burroughs, em 1911, e que é a grande piada de comédias recentes como o filme Marte Ataca!. Uma das peças mais importantes na formação da, por assim dizer, mitologia marciana veio com a publicação, em 1898, do romance A Guerra dos Mundos. Nele, o inglês H.G. Wells imaginava o que aconteceria se marcianos planejassem uma invasão à Terra. Quarenta anos depois, a idéia ainda foi capaz de causar pânico, quando Orson Welles a transformou numa simulação de noticiário na rádio americana. Mesmo com as expedições recentes a Marte, essa aura não se dissipa. Só nos últimos dois anos, três filmes – Missão: Marte, Planeta Vermelho e Fantasmas de Marte – escolheram o planeta como cenário. Em todos, havia alienígenas, bons ou ruins, à espera dos terráqueos. Para parafrasear Jornada nas Estrelas, Marte não é "a última fronteira". É, sim, a primeira porta.



   
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