André Midani, o maior nome da indústria de discos nacional, decide se aposentar. Vai ajudar pobres
Sérgio Martins
O maior executivo na história da indústria musical brasileira não quer mais saber de trabalhar em gravadoras. Aos 70 anos, responsável pelo lançamento de movimentos como a bossa nova, a tropicália e o rock nacional, André Midani deixou a presidência da divisão latino-americana da Warner, com sede em Nova York, para dedicar-se aos pobres cariocas. Irá atuar como consultor da Viva Favela, um dos braços da ONG Viva Rio, que cuida de sessenta rádios comunitárias. "Cheguei a trabalhar dezesseis horas por dia, pensando no mercado de discos, e achava pouco. De repente, perdi a paciência", conta ele. Midani é a discrição em pessoa, mas nas entrelinhas de quase tudo o que diz pode-se intuir irritação com os rumos que a indústria musical tomou nos últimos tempos. Ele já não pode lapidar a carreira de um artista, sua especialidade, porque a engrenagem não permite mais isso. "Hoje em dia, espera-se que um cantor dê retorno à gravadora logo no disco de estréia", afirma Ana Fonseca, executiva da Universal Music que trabalhou com Midani nos anos 80.
André Midani nasceu na Síria e mudou-se para a França aos 3 anos de idade. Desembarcou no Brasil em 1955 porque não queria lutar na guerra colonialista que os franceses travavam na Argélia. Por aqui, esteve à frente de três multinacionais. Assumiu a EMI em 1955, pela qual lançou discos importantes de João Gilberto e Tom Jobim. Na Philips, ele ficou entre 1968 e 1976, e ajudou a promover os principais artistas da tropicália. "Fui assistir a um show conturbado de Caetano Veloso em 68. As pessoas gritavam 'fora!', jogavam coisas no palco, e eu ia ficando cada vez com mais vontade de contratá-lo", lembra. Finalmente veio seu período na Warner, onde permaneceu de 1976 até 2001.
O fato de ter conexões internacionais rendeu a Midani ao menos uma boa anedota. Nas páginas de um jornal carioca, o cineasta Glauber Rocha resolveu denunciá-lo como agente da CIA. "Glauber não se conformava que um estrangeiro como eu descobrisse talentos cuja existência era desconhecida pelos próprios brasileiros", diz. Durante o regime militar, as pressões vinham dos dois lados. Certo dia, no começo dos anos 70, ele recebeu o telefonema de um político ligado ao governo, sugerindo que ele contratasse o cantor Wilson Simonal que na época estava sendo acusado de delatar artistas simpatizantes da esquerda aos militares. Ele se lembra de uma conversa que teve com Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil sobre o assunto. "Caetano e Gil acharam que era uma atitude válida", revela. "Mas Chico se revoltou e disse que aquilo era uma concessão inaceitável ao sistema." No ambiente de farra dos anos 70, o presidente da gravadora manteve chamegos com algumas artistas de seu catálogo. Midani namorou Rita Lee e confessa ter tido uma "atração" pela cantora Elza Soares. "Eu ficava boquiaberto quando a Elza cantava. Ela se divertia dizendo que era minha deusa de chocolate."
Quando Midani assumiu a Warner, a gravadora passava por uma das piores crises de sua história. Midani deu aos dois "farejadores" com que contava na companhia, os produtores Pena Schmidt e Liminha, a tarefa de lhe trazer alguma novidade. O que os dois lhe apresentaram foi uma leva de grupos de rock surgidos em São Paulo e no Rio de Janeiro. O investimento estava longe de ser seguro, mas Midani bancou a aposta e colheu a recompensa com o estouro das primeiras músicas de Ultraje a Rigor, Titãs e Kid Abelha. Foi sua última grande tacada de mercado antes de mudar-se para os Estados Unidos, em 1989, e assumir a divisão latino-americana da gravadora. Midani diz que nesses anos que passou fora do Brasil ouviu muitas vezes a ladainha de que nada de novo acontecia por aqui. "No entanto, foi só pisar em solo brasileiro para me encantar com o grupo Afro Reggae e com o rapper MV Bill. Por pior que pareça o contexto, sempre há algo de novo acontecendo", acredita ele.
TOQUES DE MIDANI