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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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Ao pé do ouvido

Por meio do ponto eletrônico,
apresentadores de TV ficam
sabendo o que fazer – e até
o que pensar

Ricardo Valladares

 
Fotos Antonio Milena

Luciana Gimenez e a diretora do Superpop: "Não fala comigo, Lu, pelo amor de Deus"

No ar desde 2001, Luciana Gimenez é de longe uma das apresentadoras mais abiloladas que a televisão já viu. Mas acredite: poderia ser pior, não fosse por um aparelhinho chamado ponto eletrônico. Por intermédio dele, Teresa Guimarães, a diretora do programa de Luciana, sopra em seu ouvido um fluxo quase ininterrupto de informações. Elas vão desde o nome de um entrevistado que ela não tem a menor idéia de quem seja até ordens sobre como se sentar e para onde se virar. Às vezes, Luciana se concentra tanto no que a diretora está lhe dizendo que esquece que está na TV e começa a responder. "Aí eu chamo sua atenção: 'Lu, não fala comigo, pelo amor de Deus'", diverte-se Teresa. Criado nos anos 50, como adaptação dos equipamentos contra surdez, o ponto teve sua estréia na televisão brasileira em 1958, no programa Conversa Puxa Conversa, da TV Tupi. Desde então a engenhoca sofisticou-se imensamente e, mais importante, tornou-se onipresente.

Seja em que emissora for, o ponto é um meio invisível de comunicação entre quem comanda uma atração dos bastidores e quem se encontra diante das câmaras. Em programas ao vivo, ele serve para avisar o apresentador sobre a entrada de merchandisings ou de um intervalo comercial, ou até para cortar uma entrevista quando ela se torna enfadonha. No programa do SBT Falando Francamente, apresentado por Sônia Abrão, o ponto tem sido usado para mantê-la informada de todas as oscilações do ibope. Mas não é todo mundo que gosta do aparelhinho. Experimente falar ao telefone e, ao mesmo tempo, conversar com uma pessoa que está à sua frente. É uma situação desconfortável, semelhante à do uso do ponto, e é por isso que muita gente o odeia. "Quando eu uso ponto, parece que só metade do meu cérebro está funcionando", diz Luciano Huck, da Globo.

 
Antonio Milena
Folha Imagem/Rogerio Lacanna
Sônia e Jô: e não é que eles têm algo em comum?

As ordens ou intervenções de um diretor ao pé do ouvido podem ser exasperantes para alguns artistas. Quando estrelava o Programa Livre, no SBT, a apresentadora Babi certa vez arrancou o ponto do ouvido em pleno ar. Ficou irritada com uma preleção interminável de seu diretor, Vildomar Batista. Mas Babi diz que, em linhas gerais, não tem nada contra o recurso. Ela conta que ficou surpresa quando viu a atriz Regina Duarte utilizar o ponto eletrônico nas gravações da novela Por Amor, da Globo. "A Regina disse que não gostava de estudar roteiro e que o ponto poupava seu tempo e seus fins de semana", revela. No Brasil, são poucos os atores que se utilizam do ponto. Ao contrário do México e de outros países da América do Sul, nos quais ele costuma ser a regra para o elenco inteiro.

Quem faz uso intensivo do ponto é o apresentador Jô Soares. Até quatro pessoas podem falar em seu ouvido a cada programa. Se o assunto de uma entrevista é futebol, o jornalista Wilton Marques, um dos integrantes de sua produção, é convocado para soprar dicas ou anedotas. Quando uma boa piada ocorre ao humorista Max Nunes, redator do programa, ele também não hesita em passá-la ao apresentador. Jô, no entanto, não se sente muito à vontade para discutir o uso do ponto. "É só uma ferramenta", desconversa ele, que acredita que desnudar os bastidores de um programa sempre traz o risco de quebrar seu encanto. Boa saída contra esse perigo encontrou Monique Evans à frente do Noite Afora, da Rede TV!. Ela simplesmente transformou seu ponto em personagem. Tira-o do ouvido, coloca-o novamente, contesta as instruções da diretora Mônica Pimentel e já chegou até a introduzi-lo no ouvido de um convidado. Bem à sua moda desbocada, ela inventou um apelido para o aparelhinho: é seu "O.B. de orelha".

   
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