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Ao
pé do ouvido
Por meio do
ponto eletrônico,
apresentadores de TV ficam
sabendo o que fazer e até
o que pensar

Ricardo Valladares
Fotos Antonio Milena
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Luciana
Gimenez e a diretora do
Superpop: "Não fala comigo, Lu, pelo amor de Deus"
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No
ar desde 2001, Luciana Gimenez é de longe uma das apresentadoras
mais abiloladas que a televisão já viu. Mas acredite: poderia
ser pior, não fosse por um aparelhinho chamado ponto eletrônico.
Por intermédio dele, Teresa Guimarães, a diretora do programa
de Luciana, sopra em seu ouvido um fluxo quase ininterrupto de informações.
Elas vão desde o nome de um entrevistado que ela não tem
a menor idéia de quem seja até ordens sobre como se sentar
e para onde se virar. Às vezes, Luciana se concentra tanto no que
a diretora está lhe dizendo que esquece que está na TV e
começa a responder. "Aí eu chamo sua atenção:
'Lu, não fala comigo, pelo amor de Deus'", diverte-se Teresa. Criado
nos anos 50, como adaptação dos equipamentos contra surdez,
o ponto teve sua estréia na televisão brasileira em 1958,
no programa Conversa Puxa Conversa, da TV Tupi. Desde então
a engenhoca sofisticou-se imensamente e, mais importante, tornou-se onipresente.
Seja em que emissora for, o ponto é um meio invisível de
comunicação entre quem comanda uma atração
dos bastidores e quem se encontra diante das câmaras. Em programas
ao vivo, ele serve para avisar o apresentador sobre a entrada de merchandisings
ou de um intervalo comercial, ou até para cortar uma entrevista
quando ela se torna enfadonha. No programa do SBT Falando Francamente,
apresentado por Sônia Abrão, o ponto tem sido usado para
mantê-la informada de todas as oscilações do ibope.
Mas não é todo mundo que gosta do aparelhinho. Experimente
falar ao telefone e, ao mesmo tempo, conversar com uma pessoa que está
à sua frente. É uma situação desconfortável,
semelhante à do uso do ponto, e é por isso que muita gente
o odeia. "Quando eu uso ponto, parece que só metade do meu cérebro
está funcionando", diz Luciano Huck, da Globo.
Antonio Milena
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Folha Imagem/Rogerio Lacanna
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| Sônia
e Jô: e não é que eles têm algo em comum? |
As
ordens ou intervenções de um diretor ao pé do ouvido
podem ser exasperantes para alguns artistas. Quando estrelava o Programa
Livre, no SBT, a apresentadora Babi certa vez arrancou o ponto do
ouvido em pleno ar. Ficou irritada com uma preleção interminável
de seu diretor, Vildomar Batista. Mas Babi diz que, em linhas gerais,
não tem nada contra o recurso. Ela conta que ficou surpresa quando
viu a atriz Regina Duarte utilizar o ponto eletrônico nas gravações
da novela Por Amor, da Globo. "A Regina disse que não gostava
de estudar roteiro e que o ponto poupava seu tempo e seus fins de semana",
revela. No Brasil, são poucos os atores que se utilizam do ponto.
Ao contrário do México e de outros países da América
do Sul, nos quais ele costuma ser a regra para o elenco inteiro.
Quem faz uso intensivo do ponto é o apresentador Jô Soares.
Até quatro pessoas podem falar em seu ouvido a cada programa. Se
o assunto de uma entrevista é futebol, o jornalista Wilton Marques,
um dos integrantes de sua produção, é convocado para
soprar dicas ou anedotas. Quando uma boa piada ocorre ao humorista Max
Nunes, redator do programa, ele também não hesita em passá-la
ao apresentador. Jô, no entanto, não se sente muito à
vontade para discutir o uso do ponto. "É só uma ferramenta",
desconversa ele, que acredita que desnudar os bastidores de um programa
sempre traz o risco de quebrar seu encanto. Boa saída contra esse
perigo encontrou Monique Evans à frente do Noite Afora,
da Rede TV!. Ela simplesmente transformou seu ponto em personagem. Tira-o
do ouvido, coloca-o novamente, contesta as instruções da
diretora Mônica Pimentel e já chegou até a introduzi-lo
no ouvido de um convidado. Bem à sua moda desbocada, ela inventou
um apelido para o aparelhinho: é seu "O.B. de orelha".
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