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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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Agora, sim, vai começar

Numa competição marcada pelo
imponderável, Senegal, Japão
e
Coréia ocupam
o espaço de times
poderosos, como França, Argentina
e Portugal

Carlos Maranhão, de Seul


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A cobertura completa da Copa 2002

Organizada por dois países, com dois blocos de participantes que não se encontrarão antes do jogo final, a Copa da Coréia e do Japão está marcada pela duplicidade. Durante quinze dias, houve uma competição. Neste fim de semana, começou outra. A primeira foi marcada por dramas inesperados que justificam a definição de futebol dada pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter: "É um teatro em que assistimos a uma peça de desfecho imprevisível". A segunda, com dezesseis jogos decisivos, inicia-se também sob a marca do imponderável, que, cada vez mais, parece caracterizar o jogo das multidões. Equipes sem nenhuma vitória nos Mundiais anteriores, como os dois anfitriões, classificaram-se com sobras. O estreante Senegal jogou com a confiança e o atrevimento dos times amadurecidos. Sem os dois maiores favoritos, precocemente eliminados, mas com alguns times surpreendentes e forças em ascensão, os estádios asiáticos transformam-se agora em palco de confrontos na regra do mata-mata. Perdeu, volta para casa.


AFP
Alegria pela classificação: o italiano Del Piero carrega o colega de equipe Cannavaro


Apesar de o Brasil e a Espanha terem conquistado todos os 9 pontos que disputaram, ainda não há uma equipe pintando como campeã. "Não se pode garantir mais nada", diz o escritor e jornalista inglês Brian Glanville, autor de A História da Copa do Mundo, um dos livros definitivos sobre o assunto. "Pensei que tivesse visto e pesquisado tudo a respeito do futebol, mas o que ocorreu aqui é quase inacreditável. Ninguém poderia prever as tragédias sofridas por França e Argentina. Ou a queda de Portugal." Em seus 72 anos, a Copa já havia proporcionado uma série de sortilégios inesquecíveis. A grande Itália certa vez caiu eliminada pela Coréia do Norte. No tempo em que a bola dos americanos era realmente quadrada, a Inglaterra foi derrotada pelos Estados Unidos. Seleções consideradas imbatíveis em sua época, como a Hungria de Puskas, a Holanda de Cruyff e o Brasil de Zico, Falcão e Sócrates, perderam Mundiais que pareciam ganhos por antecipação.

 
Fotos AP
O México avança com fúria para a fase seguinte, mas ao argentino Batistuta só restaram lágrimas e despedida da seleção

Nunca, porém, seleções tão fortes saíram de cena tão cedo. Com o pranto dos argentinos, a prostração dos franceses e o desespero dos portugueses, o futebol, embora perca em brilho técnico, valorizou-se em sua dimensão de espetáculo. Diferentemente de esportes mais racionais e com vocação meio científica, como o vôlei e o basquete, nos quais os técnicos traçam na prancheta tudo o que os jogadores devem fazer na quadra – e fazem –, nos gramados as estatísticas podem não significar nada. Eis aí seu encanto. O México, que nunca passou das quartas-de-final, deu uma canseira na Itália tricampeã mundial, e os Estados Unidos, contra qualquer prognóstico, ultrapassaram um grupo difícil. Em seus três jogos, a França chutou 26 vezes contra as metas adversárias e cobrou 24 escanteios. Não marcou nenhum gol e regressou humilhada para Paris. A Dinamarca, com doze arremates e onze córneres, assinalou cinco gols e foi a primeira colocada dessa mesma chave.

"Por que, a cada quatro anos, bilhões de pessoas no planeta ficam de olhos pregados na TV, mudam seus horários e durante um mês não pensam em outra coisa?", pergunta o presidente da milionária federação espanhola de futebol, Angel Villar. "A resposta é simples: elas não sabem o que vai dar. E, quando acontece algo ainda mais inesperado, como o que estamos vendo, o interesse cresce a níveis acima do normal." A série de resultados incomuns, que deixaram de cabelo em pé os torcedores europeus e sul-americanos, atravessou de maneira oposta os dois continentes que se incorporaram mais recentemente ao universo da bola. Com cinco vagas na Copa, os africanos classificaram apenas Senegal. Repetiram assim seu fraco desempenho de 1994 e 1998. Os dois últimos campeões olímpicos, Nigéria e Camarões, ficaram no meio do caminho, na companhia da África do Sul e da Tunísia. Enquanto oferecer surpresas, o futebol será imbatível como espetáculo.

   
 
   
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