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A
defesa que aflige,
o ataque que empolga
Com seu jogo
agressivo e vulnerável,
o Brasil aproveita a
inocência dos
primeiros adversários para tentar
um ajuste em plena competição
Carlos
Maranhão, de Seul
AFP
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AP
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Ronaldinho
tem relâmpagos do fenômeno que encantou o mundo, mas a defesa, com
ou sem Polga, dá sustos |

Veja também |
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Se
a Copa tivesse terminado na sexta-feira, com o encerramento de uma primeira
fase recheada de surpresas, emoções e desastres, a seleção
brasileira seria a primeira pentacampeã mundial da história
do futebol. Na pontuação, ela foi a número 1. Somou
três vitórias em três jogos e obteve um folgado saldo
de gols, critério inicial de desempate, ficando bem à frente
da Espanha, a outra equipe com 100% de aproveitamento em seu grupo. Marcou
onze gols e levou três, enquanto os espanhóis fizeram nove
e sofreram quatro.
A grande largada brasileira, na verdade, não começou na
estréia, contra a Turquia. Ela aconteceu em dezembro do ano passado,
quando a estrela de Pelé, quase 32 anos após sua decisiva
participação na conquista do tri, deu uma mãozinha
e tanto ao projeto do penta. No sorteio das chaves, foi ele quem tirou,
no escuro, as seleções que caíram no colo do Brasil.
Eram três das raras galinhas-mortas que ainda existem no futebol.
A Argentina teve a pior sorte, com a companhia da Inglaterra e da Suécia,
responsáveis por sua precoce eliminação. A França,
como só mais tarde se pôde constatar, entrou igualmente numa
fria. A Itália, que parecia estar numa situação tranqüila,
garantiria apenas a classificação, dramaticamente, graças
à derrota da Croácia para o Equador. Diante de um europeu
de segunda classe (a Turquia), uma baba asiática (a China), como
se diz na gíria dos gramados, e de um aprendiz centro-americano
sem pontaria (a Costa Rica), a seleção brasileira viveu
onze dias de privilégio na Coréia. Teve condições
de errar à vontade no meio-campo, principalmente na defesa, testar
vinte jogadores o lateral Belletti e os goleiros reservas foram
os únicos que não entraram , poupar os pendurados
com cartão amarelo e garantir sem nenhuma ameaça sua passagem
para as oitavas-de-final. Com um cenário tão aprazível,
os atacantes brasileiros cresceram de rendimento jogo a jogo. "As três
vitórias vão nos dar a confiança de que precisávamos
para encarar as partidas decisivas", diz Rivaldo.
AP
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| O
choro dos portugueses: mais um favorito que vai embora mais cedo |
Os favoritos excluídos da festa não podem reclamar de nada.
Copa do Mundo é assim mesmo. Não se trata de um campeonato
nos moldes europeus, com turno e returno, no sistema de pontos corridos,
em que todos jogam contra todos e uma derrota pode ser perfeitamente compensada.
Na Copa, um torneio curto, o caminho dos participantes depende dos cruzamentos
determinados pelo acaso, no sorteio, e pelos resultados dos adversários.
"Em um campeonato, a longo prazo, o futebol tem a lógica de qualquer
esporte, e quase sempre ganha o melhor", compara o comentarista e ex-jogador
Tostão. "Numa Copa, o resultado muitas vezes nasce do imprevisto."
Sempre foi assim. O Brasil provavelmente perderia o título de 1962
se, na partida em que estava sendo derrotado pela Espanha por 1 a 0, o
árbitro tivesse marcado um pênalti claro cometido por Nilton
Santos. "Nós não viraríamos aquele marcador, como
terminamos conseguindo, e seríamos eliminados", ele acredita. Da
mesma forma, é possível que a seleção de 1986
tivesse chegado perto das finais se o praticamente infalível Zico
não desperdiçasse uma penalidade contra a França.
Os cruzamentos favoreceram os brasileiros na campanha do tetra, em 1994,
como está se repetindo na Coréia e no Japão.
A partir da manhã desta segunda-feira, no entanto, inicia-se outra
história. Às 8h30, no horário de Brasília,
os canarinhos enfrentam a Bélgica pelas oitavas-de-final. Para
quem pretende levantar a taça na finalíssima do próximo
dia 30, daqui em diante não existe mais opção fora
da vitória. Em caso de empate, haverá prorrogação
de meia hora, com a chamada morte súbita o jogo termina
se sair um gol. Se o empate persistir, a decisão será nos
pênaltis. O Brasil perdeu nas duas últimas Olimpíadas
para equipes africanas na morte súbita, mas na Copa ganhou nos
pênaltis da Itália na final de 1994 e da Holanda em 1998.
A Bélgica é um time chato. Joga feio, marca forte e adora
o jogo aéreo. "Ela tem lá atrás uns cinturas-duras
de 1,90 metro", diz o técnico Felipão. Mais ou menos isso.
A altura média de seus zagueiros é 1,86 metro. Conhecidos
como "diabos vermelhos", os belgas trazem a credencial de participar de
sua sexta Copa consecutiva. Em 1986 ficaram em quarto lugar. Só
não passaram para a segunda fase em 1998. Antes de garantirem a
classificação, na sexta-feira, ao bater a Rússia
por 3 a 2, seu feito mais recente fora uma vitória de 2 a 1 num
amistoso preparatório contra a França, em Paris, no mês
passado. Como não se percebera que os franceses estavam virando
saco de pancada, o resultado serviu para dar à Bélgica maior
respeitabilidade. Se passar por ela, a seleção brasileira
terá na sexta-feira, nas quartas-de-final, um de seus jogos mais
difíceis: o vencedor de Dinamarca e Inglaterra, que se defrontariam
no sábado. Ganhando de novo, irá às semifinais com
o sobrevivente do bloco formado por Suécia, Senegal, Japão
e Turquia. O adversário de uma eventual final é imprevisível.
Sairá entre os oito que começariam a se eliminar na madrugada
de sábado: Alemanha, Paraguai, México, Estados Unidos, Espanha,
Irlanda, Coréia e Itália.
Nesta fase, o Brasil terá três fatores a seu favor e dois
contra. Nenhum é desprezível. O primeiro e mais importante
ponto positivo é o talento individual dos atacantes, sobretudo
Ronaldo. Aos 25 anos, com 41 gols em jogos oficiais pela seleção
está atrás somente de Zico, Romário e Pelé
, ele finalmente começa a exibir de novo a magia e a eficiência
de seu futebol arrasador. Vem provando que não tem medo de colocar
o pé em divididas e continua com o faro de gol apuradíssimo.
Acima de tudo, ele está com espírito vencedor. Marcou quatro
vezes na atual Copa, mesmo total que atingiu nas sete partidas de 1998,
e recuperou a alegria de jogar, estampada no sorriso que ilumina seu rosto
dentro e fora de campo. "Ainda há umas coisinhas para consertar,
mas minhas condições melhoram a cada jogo", afirma.
AP
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| A
Bélgica comemora na sexta-feira: o destino os colocou contra o Brasil |
O segundo fator é uma arma letal: as cobranças de falta.
"Em jogos disputados como os da segunda fase, elas poderão desequilibrar
para nosso lado", confia Ronaldinho Gaúcho. Várias seleções
têm bons batedores, como o inglês Beckham, o italiano Totti
e o espanhol Raúl, embora sem três esplêndidas escolhas
como as do Brasil: de longa distância, a patada de Roberto Carlos,
que fez o seu contra a China; mais de perto, Rivaldo do lado direito e,
do esquerdo, Ronaldinho Gaúcho, que treina a jogada desde a infância
e não se cansa de rever vídeos em que seu ídolo Zico
vencia barreiras e goleiros com mortíferos chutes de curva. Em
média, o Brasil faz um gol de falta a cada Copa. Apesar de não
terem sido muitos onze nos últimos quarenta anos ,
a maioria resolveu partidas complicadas. "O número deve aumentar,
porque no futebol moderno os gols saem cada vez mais de bola parada",
diz o comentarista Júnior, ex-lateral da seleção.
"Ter cobradores como os nossos será fundamental nas partidas eliminatórias."
A terceira vantagem reside nos próprios adversários que
sobraram. Não que França e Argentina tivessem vindo à
Copa com times claramente melhores que o do Brasil. Já foram superiores,
sim, mas seus resultados mostraram que haviam deixado de ser. A dificuldade
em um confronto com qualquer um deles seria a pesada carga de tensão
que tomaria conta dos jogadores brasileiros. Resta meia dúzia de
times competitivos, com a diferença de que a situação
se inverteu: eles é que temem os tetracampeões.
Os dois aspectos desfavoráveis são preocupantes. Um é
a falta de uma estratégia definida, o que faz com que o técnico
Felipão continue a experimentar esquemas e jogadores no decorrer
da competição. O melhor exemplo é o meio-campista
Ricardinho, que nunca jogara com ele, foi convocado numa emergência,
treinou como titular num dia e ficou no banco 24 horas mais tarde. "Como
a Argentina, o Brasil confia basicamente em suas individualidades para
atacar, mas terá problemas com isso na segunda fase", prevê
o respeitado articulista inglês David Miller, que acompanha para
o jornal Daily Telegraph sua 12ª Copa do Mundo. "As defesas
dos times europeus não apenas continuam muito compactas como ficaram
mais rápidas, o que ajuda a neutralizar seleções
sem táticas bem esquematizadas."
Por fim, há as falhas da zaga. Elas apareceram contra a Turquia,
ficaram escondidas no jogo-treino com a China e tornaram-se aflitivas
diante da Costa Rica. "Vamos tentar corrigir na medida do possível",
diz Felipão, que não conta com muito tempo para isso e não
encontrou, além de Lúcio, Roque Júnior, Edmílson
e Anderson Polga, opções seguras de convocação.
"Temos de melhorar a marcação, temos de dar bicão!",
exclamava o goleiro Marcos depois dos 5 a 2 de quinta-feira passada. "Agora
não podemos errar mais, porque se a gente bobear o Varigão
decola", lembra o lateral Roberto Carlos, referindo-se ao jato fretado
que levará a delegação de volta ao país. Se
os erros da defesa superarem os acertos do ataque, como se teme, o avião
iniciará nesta semana uma inglória travessia do Pacífico.
Caso aconteça o contrário, como se espera, ele não
irá para a pista do Aeroporto de Narita, no Japão, antes
da sonhada final em Yokohama.
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