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O reconstrutor de
cidades
Brasileiro
que já trabalhou em cinqüenta
países planeja o renascimento de Cabul

Rosana Zakabi
Arquivo pessoal

Rabinovitch
(à dir.) em Cabul: projetos |

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O emprego
do fluminense Jonas Rabinovitch é daqueles de provocar arrepios
de inveja na maioria dos arquitetos. Coordenador de desenvolvimento urbano
da Organização das Nações Unidas (ONU), ele
ocupa-se não de erguer prédios bonitos, mas da reconstrução
de cidades inteiras, destruídas por guerras ou catástrofes
naturais. No momento, o urbanista debruça-se sobre a prancheta
em busca de soluções para Cabul e outras cidades do Afeganistão,
arrasadas por vinte anos de guerras. Desde que se tornou funcionário
da ONU, há nove anos, Rabinovitch participou da reconstrução
e do desenvolvimento urbano de mais de cinqüenta países, entre
eles o Timor Leste e Bangladesh, dois dos mais pobres que existem. A missão
atual é particularmente difícil. Não bastasse Cabul,
com 1,5 milhões de habitantes, estar reduzida a escombros e só
dispor de fornecimento precário de água e eletricidade,
a guerra ainda não terminou totalmente no Afeganistão. Que
modelo se pode adotar para uma cidade em tal estado de deterioração?
Numa das reuniões sobre a reconstrução da capital,
o representante do governo afegão disse a Rabinovitch que o melhor
a fazer era seguir o modelo de Curitiba.
A idéia
não é estapafúrdia. O urbanista diz que as duas cidades
são parecidas em termos de população, área
e topografia. "Cabul mostra as mesmas tendências de crescimento
desordenado que Curitiba apresentava na década de 60", diz. Ele
sabe do que está falando. Rabinovitch nasceu em Niterói,
há 45 anos, e trabalhou por mais de dez anos na prefeitura de Curitiba.
Foi o que lhe deu notoriedade internacional, pois a capital paranaense
é o exemplo urbanístico brasileiro mais conhecido no exterior.
O arquiteto cursou mestrado em Londres e, em 1993, recebeu convite para
prestar consultoria à ONU por três meses. Acabou contratado
e hoje mora em Nova York. Divorciado, tem duas filhas, Julianna Eve, de
8 anos, e Nikole, de 5. Ele diz que reconstruir uma cidade devastada pela
guerra é tarefa espinhosa, porém já foi realizada
mil vezes no passado. Muitas vezes pode ser mais complicado promover o
desenvolvimento de uma nação que nunca passou por guerras
mas vive em situação crítica de pobreza. Isso porque
é mais fácil elaborar planos para uma região que
precisa recomeçar do zero do que para uma área tomada por
favelas.
"Como não
dá para exterminar as favelas, a solução é
regularizar os assentamentos irregulares promovendo a compra do terreno
por meio de prestações compatíveis com a renda",
ensina Rabinovitch. Em Bangladesh, a equipe do urbanista empenhou-se em
ensinar os moradores dos cortiços a melhorar o sistema de eletricidade,
pavimentar as ruas, coletar o lixo e criar sistemas de água e esgoto.
"São exemplos", comenta ele, "que valem para as favelas brasileiras."
Muitas vezes a primeira coisa a fazer num país arruinado pela guerra
não é reconstruir prédios, mas estabelecer o direito
de propriedade, para evitar a ocupação desordenada. No Timor
Leste, que a Indonésia ocupou militarmente durante quase três
décadas e só neste ano ganhou a independência, a ONU
passou três anos identificando os donos de terras e imóveis.
Nas duas semanas que passou recentemente em Cabul, Rabinovitch constatou
que, além da pobreza e da destruição dos edifícios,
um grande problema é a indefinição sobre a propriedade
dos terrenos. "Muitas pessoas fugiram de suas casas por causa das guerras,
e esses imóveis foram ocupados ou revendidos por outras famílias",
diz ele.
Rabinovitch
e sua equipe também estão elaborando um plano para recolher
taxas e impostos nos municípios e preservar os centros históricos,
em cooperação com outras agências da ONU. Não
será um trabalho fácil, mesmo porque o sucesso do programa
depende muito da boa vontade da população. No ano passado,
a ONU admitiu o fracasso do plano de reconstrução da Bósnia-Herzegóvina,
iniciado cinco anos antes. Em lugar de se tornar um lugar próspero
e pacífico, a Bósnia se transformou numa terra dominada
por máfias. O desafio no Afeganistão é como evitar
que 1,8 bilhão de dólares destinados à reconstrução
também sejam rapinados pelos corruptos.
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