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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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O santo negócio da cerveja

Marcas produzidas em mosteiros
da Bélgica são degustadas com
respeito, como os vinhos na França

Ruth de Aquino, de Bruxelas

 
Mosteiro e cerveja de Westmalle: com sabores

Tem gente que bebe sempre a mesma marca de cerveja. Na Bélgica, essa fidelidade cheira a sacrilégio. Há mais de 500 tipos de cerveja no país e seu padroeiro é um santo do século XI, o beneditino Arnold. Muitas dessas cervejas são degustadas de modo respeitoso, como o vinho na França e o uísque na Escócia. Às vezes, são servidas como champanhe, em baldes entre cubos de gelo. Há quem beba rezando. Literalmente. São os monges trapistas que fabricam a bebida desde o século XVII. A Ordem da Trapa é uma dissidência dos beneditinos. Seu nome deriva da origem geográfica: La Trappe, na Normandia. te;culo XI, o beneditino Arnold. Muitas dessas cervejas são degustadas de modo respeitoso, como o vinho na França e o uísque na Escócia. Às vezes, são servidas como champanhe, em baldes entre cubos de gelo. Há quem beba rezando. Literalmente. São os monges trapistas que fabricam a bebida desde o século XVII. A Ordem da Trapa é uma dissidência dos beneditinos. Seu nome deriva da origem geográfica: La Trappe, na Normandia. Há seis mosteiros trapistas na Bélgica e todos hoje vivem principalmente de cerveja. Westmalle, Westvleteren, Chimay, Orval e Rochefort são os mais tradicionais. O único mosteiro a destoar da tradição, o Achel, sucumbiu ao destino há quatro anos e também passou a fabricar a bebida.

À exceção da Westvleteren, que só é vendida no mosteiro, as outras marcas são encontradas em bares, restaurantes, mercados e lojas de suvenires. Sempre em garrafa, pois em lata seria heresia. Há cervejas doces ou amargas, mais ou menos encorpadas, algumas com leve gosto de framboesa, banana, figo e até chocolate. A fabricada pelos monges belgas exige alguns rituais. A garrafa maior, com rolha, costuma ser aberta alguns minutos antes de ser consumida, para "respirar". Há quem goste de envelhecer a bebida, guardando-a de seis meses a três anos. A aura da cerveja trapista conquistou tantos fiéis que há muitos cervejeiros tentando copiar, dentro e fora da Bélgica. Os religiosos já processaram os que ousaram adicionar ao nome de seus produtos a expressão "estilo trapista". Mas nada podem fazer contra fábricas que usam desenhos de monges no rótulo. Até porque há muitas abadias (não trapistas) que emprestam sua "marca" a cervejarias.


No mosteiro de Rochefort: desde o século XVII

O frade Titus, do mosteiro de Achel, conhece o tipo de cerveja que se bebe no Brasil, a larger. "Não passa de um decente copo d'água", diz. As cervejas trapistas mais fortes são reservadas para os dias especiais de liturgia, como a procissão em homenagem a Santo Arnold, em Bruxelas. No livro As Grandes Cervejas da Bélgica, do inglês Michael Jackson, considerado o maior especialista mundial na bebida (ele já a consumia antes de o cantor homônimo virar celebridade), reverencia a diversidade das cervejas e diz por que elas enriquecem a gastronomia belga: "Nenhum outro país insistiu tanto no uso de frutas, ervas e temperos na bebida". Alguns monges chamam a cerveja até hoje de "pão líquido", por ser nutritiva, especialmente para quem não come nenhum tipo de carne. A fama de bebida sagrada começou há 1.000 anos, com os "milagres" do beneditino Arnold: ele estimulou os fiéis a trocar água pela bebida, e as epidemias cessaram. É que, ao ser fervida na fabricação da cerveja, a água deixava de ser contaminada.

   
 
   
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