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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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Quanto mais velho, melhor

Grifes fazem viagem de volta ao passado
e roupas novas ficam com cara de usadas

Silvia Rogar


Fotos Felipe Reis

Estampa de tapeçaria, couro envelhecido e bolsa de brechó: mistura de épocas


Se você sente uma pontada no estômago toda vez que se lembra da pequena fortuna que pagou por aquela bolsa grafitada autêntica, pela saia camuflada de grife ou pelos óculos de sol coloridos com detalhes de strass que teve de aposentar por causa da inundação de imitações, conforme-se, relaxe e espere: em alguns anos, tudo isso pode virar vintage. O termo, que se pronuncia à inglesa, com acento na primeira sílaba, e que na enologia designa a safra excelente de um vinho, no mundo da moda se traduz por uma roupa que marca época, depois some e, passado um tempo, volta mais desejada ainda. Antigamente, caçar esse tipo de peça era uma arte que iniciados desempenhavam, com prazer e olhar de lince, em brechós e feirinhas de objetos usados, ou bajulando descaradamente alguma avó de bom gosto e muito espaço no armário. Agora que virou moda, os brechós se multiplicam, roupas antigas e valorizadas são oferecidas em leilões na internet (peças com assinaturas como Valentino, Givenchy e Chanel costumam ser arrematadas por preços que variam de 1.500 a 10.000 dólares) e, principalmente, grifes modernas oferecem a alternativa ao alcance de todas: modelos inspirados em peças vintage.

A onda das roupas vintage ganhou projeção mundial no ano passado, quando Julia Roberts recebeu o Oscar de melhor atriz com um deslumbrante Valentino bicolor, original de 1982. Foi seguida por colegas como Winona Ryder, Renée Zellweger e Drew Barrymore, que aqui e ali compareceram com roupinhas velhas e podres de chique. Pronto: os brechós lotaram. Em Londres, os mais badalados costumam receber visitas de quem dita moda, como os estilistas John Galliano e Alexander McQueen. "Não dá mais para lançar uma coleção sem pesquisa em brechós", diz Anderson Birman, sócio da rede de sapatos brasileira Arezzo. Neste inverno, a marca recriou hits dos anos 70, como tamancos e sandálias plataforma com estampas de marchetaria e coturnos de couro com aparência envelhecida. O couro com cara de usado é uma das tendências mais fortes da estação. A grife Frankie Amaury usou-o em tudo: calças, saias e jaquetas, todas inspiradas na década de 80, que para muita gente nem parece tão distante assim para merecer um revival.



Patchwork, boca-de-sino e plataforma: velho estilo, novos materiais

A referência, como dizem os entendidos, pode vir de qualquer época. A coleção da Maria Garcia, linha jovem da marca paulista Huis Clos, baseou-se na indumentária dos anos 20 para fazer vestidos retos sem cintura, casacos e saias com estampa de tapeçaria e sapatos de bico arredondado. A estilista Andrea Bilinski foi beber na fonte das fontes, com uma coleção que evoca os coletes, as listras laterais e as cores psicodélicas que compunham o emblemático figurino do guitarrista Jimi Hendrix. Há muita mistura de estampas na linha patchwork e muita calça boca-de-sino – felizmente com versões reduzidas a proporções usáveis. A tecnologia ajuda muito a dar cara de velho ao produto novo, com a vantagem da qualidade superior dos novos materiais. A saia que a estilista carioca Alice Tapajós recriou (veja quadro abaixo) ficou muito mais bem-acabada. As plataformas de madeira dos sapatos, pesadíssimas na década de 70, agora são de poliuretano peso-pluma. A linha Originals da Adidas (calça e blusão com três listras brancas na lateral, sinônimo de uniforme escolar nos anos 70, venerados pelos modernos) acaba de ser relançada no Brasil com o mesmo jeitão, mas feita de fio mais fino, mais confortável e mais agradável ao toque.

Os preços das peças novas inspiradas em coisa antiga são os de coleção em começo de estação: invariavelmente altos. Já nos brechós, a roupa é usada e, conseqüentemente, mais em conta do que quando era nova (ainda que, no caso das grifes estrangeiras de luxo, se trate de uma redução do caríssimo para o apenas caro). Com toda a história da moda à disposição, o difícil é combinar peças sem cair no exagero. "Quem usa vintage dos pés à cabeça corre o risco de parecer um vampiro que saiu do caixão e foi dar uma voltinha", brinca a consultora de moda Cristina Franco. Seu conselho: misturar peças atuais e antigas, de preferência deixando o vintage para os detalhes.

 

OLHA ELA AÍ OUTRA VEZ

 
Selmy Yassuda

Para criarem o vintage sem poeira, as grifes estão revirando o próprio baú. A estilista Alice Tapajós refez para esta coleção a primeira peça que produziu, em 1974: uma saia de três camadas de babados. "Criei a saia aos 19 anos e adorei. Deixei guardada, para refazer na hora certa", diz Alice (acima, à direita, com o modelo original). As diferenças são o tule, que agora não arma, uma opção em patchwork e, naturalmente, o preço: as novas, como no modelo ao lado, custam entre 375 e 605 reais.

 

   
 

 

 

   
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