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Quanto mais velho,
melhor
Grifes
fazem viagem de volta ao passado
e roupas novas ficam com cara de usadas
Silvia Rogar
Fotos Felipe Reis

Estampa
de tapeçaria, couro envelhecido e bolsa de brechó: mistura de épocas
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Se você sente uma pontada no estômago toda vez que se lembra
da pequena fortuna que pagou por aquela bolsa grafitada autêntica,
pela saia camuflada de grife ou pelos óculos de sol coloridos com
detalhes de strass que teve de aposentar por causa da inundação
de imitações, conforme-se, relaxe e espere: em alguns anos,
tudo isso pode virar vintage. O termo, que se pronuncia à inglesa,
com acento na primeira sílaba, e que na enologia designa a safra
excelente de um vinho, no mundo da moda se traduz por uma roupa que marca
época, depois some e, passado um tempo, volta mais desejada ainda.
Antigamente, caçar esse tipo de peça era uma arte que iniciados
desempenhavam, com prazer e olhar de lince, em brechós e feirinhas
de objetos usados, ou bajulando descaradamente alguma avó de bom
gosto e muito espaço no armário. Agora que virou moda, os
brechós se multiplicam, roupas antigas e valorizadas são
oferecidas em leilões na internet (peças com assinaturas
como Valentino, Givenchy e Chanel costumam ser arrematadas por preços
que variam de 1.500 a 10.000
dólares) e, principalmente, grifes modernas oferecem a alternativa
ao alcance de todas: modelos inspirados em peças vintage.
A onda das
roupas vintage ganhou projeção mundial no ano passado, quando
Julia Roberts recebeu o Oscar de melhor atriz com um deslumbrante Valentino
bicolor, original de 1982. Foi seguida por colegas como Winona Ryder,
Renée Zellweger e Drew Barrymore, que aqui e ali compareceram com
roupinhas velhas e podres de chique. Pronto: os brechós lotaram.
Em Londres, os mais badalados costumam receber visitas de quem dita moda,
como os estilistas John Galliano e Alexander McQueen. "Não dá
mais para lançar uma coleção sem pesquisa em brechós",
diz Anderson Birman, sócio da rede de sapatos brasileira Arezzo.
Neste inverno, a marca recriou hits dos anos 70, como tamancos e sandálias
plataforma com estampas de marchetaria e coturnos de couro com aparência
envelhecida. O couro com cara de usado é uma das tendências
mais fortes da estação. A grife Frankie Amaury usou-o em
tudo: calças, saias e jaquetas, todas inspiradas na década
de 80, que para muita gente nem parece tão distante assim para
merecer um revival.

Patchwork,
boca-de-sino e plataforma: velho estilo, novos materiais |
A referência,
como dizem os entendidos, pode vir de qualquer época. A coleção
da Maria Garcia, linha jovem da marca paulista Huis Clos, baseou-se na
indumentária dos anos 20 para fazer vestidos retos sem cintura,
casacos e saias com estampa de tapeçaria e sapatos de bico arredondado.
A estilista Andrea Bilinski foi beber na fonte das fontes, com uma coleção
que evoca os coletes, as listras laterais e as cores psicodélicas
que compunham o emblemático figurino do guitarrista Jimi Hendrix.
Há muita mistura de estampas na linha patchwork e muita calça
boca-de-sino felizmente com versões reduzidas a proporções
usáveis. A tecnologia ajuda muito a dar cara de velho ao produto
novo, com a vantagem da qualidade superior dos novos materiais. A saia
que a estilista carioca Alice Tapajós recriou (veja quadro abaixo)
ficou muito mais bem-acabada. As plataformas de madeira dos sapatos, pesadíssimas
na década de 70, agora são de poliuretano peso-pluma. A
linha Originals da Adidas (calça e blusão com três
listras brancas na lateral, sinônimo de uniforme escolar nos anos
70, venerados pelos modernos) acaba de ser relançada no Brasil
com o mesmo jeitão, mas feita de fio mais fino, mais confortável
e mais agradável ao toque.
Os preços
das peças novas inspiradas em coisa antiga são os de coleção
em começo de estação: invariavelmente altos. Já
nos brechós, a roupa é usada e, conseqüentemente, mais
em conta do que quando era nova (ainda que, no caso das grifes estrangeiras
de luxo, se trate de uma redução do caríssimo para
o apenas caro). Com toda a história da moda à disposição,
o difícil é combinar peças sem cair no exagero. "Quem
usa vintage dos pés à cabeça corre o risco de parecer
um vampiro que saiu do caixão e foi dar uma voltinha", brinca a
consultora de moda Cristina Franco. Seu conselho: misturar peças
atuais e antigas, de preferência deixando o vintage para os detalhes.
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OLHA
ELA AÍ OUTRA
VEZ
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Selmy Yassuda
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Para
criarem o vintage sem poeira, as grifes estão revirando o
próprio baú. A estilista Alice Tapajós refez
para esta coleção a primeira peça que produziu,
em 1974: uma saia de três camadas de babados. "Criei a saia
aos 19 anos e adorei. Deixei guardada, para refazer na hora certa",
diz Alice (acima, à direita, com o modelo original).
As diferenças são o tule, que agora não arma,
uma opção em patchwork e, naturalmente, o preço:
as novas, como no modelo ao lado, custam entre 375 e 605 reais.
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