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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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Euforia sem explicação

Pesquisas põem em dúvida
a relação entre endorfina
e prazer no esporte

Flávia Varella

 
Nica Daud

O corredor já está com a língua de fora, mas se esforça, acelera, exagera, tenta ir além de seus limites. Nesse instante, uma sensação de euforia o invade. É o chamado barato da corrida, o famoso runner's high, em inglês. No dia seguinte, ele quer correr mais. Está viciado em exercício. A teoria de que o esforço físico provoca a liberação de endorfina, uma substância química com propriedades analgésicas e entorpecentes, é há anos o argumento preferido dos esportistas para justificar a paixão pela atividade física. A tese era perfeita até que um grupo de cientistas americanos resolveu desmenti-la. Alguns pesquisadores agora dizem que a suposta inundação de endorfina no cérebro não tem evidência científica. Outros duvidam até que o barato da corrida exista. "Eu acredito que essa história da endorfina em corredores seja uma total fantasia", afirma Huda Akil, pesquisadora da Uno dos esportistas para justificar a paixão pela atividade física. A tese era perfeita até que um grupo de cientistas americanos resolveu desmenti-la. Alguns pesquisadores agora dizem que a suposta inundação de endorfina no cérebro não tem evidência científica. Outros duvidam até que o barato da corrida exista. "Eu acredito que essa história da endorfina em corredores seja uma total fantasia", afirma Huda Akil, pesquisadora da Universidade de Michigan e presidente da Sociedade para a Neurociência.

As endorfinas, substâncias com propriedades parecidas com a morfina produzidas pelo organismo em situações de grande stress ou dor, foram descobertas na década de 70, mesma época em que o cooper se popularizava nos Estados Unidos. Como os níveis da endorfina aumentam no sangue durante a corrida, a sensação de bem-estar relatada por alguns atletas foi logo atribuída a ela. O problema é que a maior concentração da substância tem pouco significado ou, pelo menos, os cientistas ainda não sabem o que isso acarreta. O prazer só viria, em tese, se a endorfina aumentasse também no sistema nervoso central. Mas ela não passa do sangue para o cérebro, no qual a medição durante a execução do esforço físico é muito difícil.

"Como há pessoas que se tornam dependentes de exercícios físicos e existe uma semelhança do que relatam com a ação dos opiáceos, como a morfina, foi feita a relação com a endorfina", explica a bioquímica Maria da Graça Naffah Mazzacoratti, do laboratório de Neurociência da Universidade Federal de São Paulo. Um pequeno grupo de esportistas, de fato, apresenta características do vício em relação ao exercício – como necessidade de aumentar sempre a dosagem para atingir o prazer, a dependência e a ânsia de praticá-lo –, e experimentos com ratos comprovaram que a atividade física pode provocar dependência. "O desafio da ciência agora é entender o que ocorre bioquimicamente", afirma o professor de farmacologia Cristoforo Scavone, da Universidade de São Paulo (USP). Os cientistas já sabem que a endorfina não é o elemento fundamental nesse processo. "É provável que seja um coquetel de substâncias, uma delicada mistura", diz Huda Akil.

 

O que as novas pesquisas revelam

Durante o exercício, há um aumento de endorfina no sangue, mas a substância não passa para o cérebro.

Alguns cientistas acreditam que a sensação de euforia relatada por corredores não é um fato bioquímico.

Ao menos em ratos, o exercício pode viciar, mas a endorfina não é a principal causa da dependência.

Fonte: Huda Akil, presidente da Sociedade Americana para a Neurociência

 

   
 
   
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