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Um muro para manter
o terror do lado de fora
Em desespero
com os ataques suicidas,
Israel começa a cercar a Cisjordânia

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Como impedir
os atentados suicidas perpetrados por palestinos em pontos de ônibus,
mercados, restaurantes e bares de cidades israelenses? Ao longo dos 20
meses da Intifada, a revolta palestina nos territórios ocupados
por Israel na guerra de 1967, o governo israelense testou todas as alternativas.
Reforçou o policiamento nos centros urbanos, isolou as cidades
palestinas e, para impedir a entrada de terroristas suicidas em seu território,
impôs um controle rígido nos 25 postos fixos e em outros
oitenta móveis espalhados nas fronteiras com a Cisjordânia
e a Faixa de Gaza. Toda medida preventiva foi respondida com novos atentados
sangrentos em Israel. Nem mesmo a ocupação militar de várias
cidades palestinas autônomas da Cisjordânia, com a prisão
e a morte de muitos líderes terroristas, trouxe resultados. Depois
de setenta atentados suicidas cometidos por homens-bomba palestinos, o
governo do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, decidiu aceitar
uma solução radical, espantosa: a construção
de uma barreira fortificada nos 400 quilômetros da linha verde,
a fronteira que até 1967 separou Israel da Cisjordânia.
As
obras tiveram início na semana passada e deverão consumir
oito meses antes de se completar o primeiro trecho, uma faixa mais vulnerável
de 120 quilômetros usada por dezenas de terroristas palestinos para
entrar clandestinamente em Israel. O restante vai depender da liberação
de verbas e corre o risco de ficar no papel, pois o custo é altíssimo
1 milhão de dólares por quilômetro construído.
Nenhum governo israelense se tinha atrevido a erguer tal barreira, com
medo de que isso fosse entendido como a aceitação por Israel
das fronteiras de 1967. A decisão foi difícil especialmente
para Sharon, que, como explicou em artigo publicado no jornal The New
York Times, não vê a Cisjordânia como um território
ocupado, mas como uma "área em disputa". O primeiro-ministro acabou
aceitando que esse é o preço a ser pago para dar um pouco
de segurança à população. Desde o início
da Intifada, nenhum suicida palestino conseguiu entrar em Israel pela
Faixa de Gaza, cuja fronteira é guardada por cercas.
O modelo
para a nova barreira é a existente na fronteira com a Jordânia.
Inclui vários níveis de defesa, como arame farpado, cerca
eletrificada, fossos profundos o suficiente para deter veículos
blindados e vigilância eletrônica. Em duas áreas críticas,
coladas a uma rodovia que passa ao lado das cidades palestinas fronteiriças
de Tulkarem e Qalqilya, a cerca vai dar lugar a um muro de concreto para
impedir a ação de franco-atiradores. Numa mostra da tensão
que envolve os dois lados, os operários israelenses estão
trabalhando com colete à prova de bala e cobertura de soldados
do Exército. A decisão do governo Sharon de separar israelenses
e palestinos, impensável há alguns meses, é um sintoma
de desespero. Uma pesquisa divulgada no início do mês pela
Universidade de Tel-Aviv mostrou um apoio maior entre os israelenses à
construção de uma barreira para isolar os palestinos do
que à retomada das negociações de paz. Na mesma pesquisa,
65% dos entrevistados endossaram a proposta de abandonar as colônias
israelenses nos territórios ocupados, onde vivem 200 000 judeus,
para viabilizar a separação definitiva dos palestinos.
O destino
das colônias menores e mais isoladas torna-se mais agudo com a construção
da barreira. A maioria dos israelenses acha que elas não valem
a vida da soldadesca enviada para protegê-las. Mas o governo de
Sharon entende que, se as colônias forem desmanteladas neste momento,
os palestinos entenderão como a confirmação de que
é possível expulsar os israelenses à força
de atentados. Há também a questão de Jerusalém.
Desde 1967, o governo israelense abocanhou 35% da parte oriental da cidade,
habitada majoritariamente por árabes, para construir habitações
para judeus. Erguer de forma unilateral uma barreira que isole Jerusalém
do território palestino só criaria mais confusão.
Sabendo disso, Sharon empurrou para o futuro uma definição
sobre o trajeto da muralha na cidade.
O isolamento
também deverá agravar a crise econômica nos territórios
ocupados, onde o índice de desemprego é de 40%. A circulação
de bens e mercadorias entre os dois lados, que já havia caído
desde o início da Intifada, deverá despencar ainda mais.
Milhares de moradores da Cisjordânia que cruzam a fronteira clandestinamente
para trabalhar em Israel deverão perder o emprego com a construção
de uma fronteira indevassável. No lado israelense, o maior temor
é que o isolamento da Cisjordânia não impeça
o prosseguimento dos atentados suicidas. O caso do palestino Ibrahim Sarahne,
preso em maio, é exemplar. Sarahne dirigia um táxi com placas
de Israel pelas ruas de Tel-Aviv usando identidade falsa de um árabe-israelense.
Em entrevista ao jornal The New York Times, ele admitiu ter levado
em seu carro quatro terroristas da Cisjordânia para missões
suicidas dentro de Israel. Sarahne contou que deixava o suicida num local
movimentado e depois ouvia o barulho da explosão da bomba. Cinco
israelenses morreram nos ataques. O motorista disse que nunca foi parado
nos postos de fronteira e revelou que é muito fácil enganar
as forças de segurança e entrar clandestinamente no país.
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