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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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Oriente Médio : Israel quer construir muro para deter terroristas
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Um muro para manter
o terror do lado de fora

Em desespero com os ataques suicidas,
Israel começa a cercar a Cisjordânia


Veja também
A cobertura diária da crise no Oriente Médio em VEJA on-line

Como impedir os atentados suicidas perpetrados por palestinos em pontos de ônibus, mercados, restaurantes e bares de cidades israelenses? Ao longo dos 20 meses da Intifada, a revolta palestina nos territórios ocupados por Israel na guerra de 1967, o governo israelense testou todas as alternativas. Reforçou o policiamento nos centros urbanos, isolou as cidades palestinas e, para impedir a entrada de terroristas suicidas em seu território, impôs um controle rígido nos 25 postos fixos e em outros oitenta móveis espalhados nas fronteiras com a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Toda medida preventiva foi respondida com novos atentados sangrentos em Israel. Nem mesmo a ocupação militar de várias cidades palestinas autônomas da Cisjordânia, com a prisão e a morte de muitos líderes terroristas, trouxe resultados. Depois de setenta atentados suicidas cometidos por homens-bomba palestinos, o governo do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, decidiu aceitar uma solução radical, espantosa: a construção de uma barreira fortificada nos 400 quilômetros da linha verde, a fronteira que até 1967 separou Israel da Cisjordânia.

As obras tiveram início na semana passada e deverão consumir oito meses antes de se completar o primeiro trecho, uma faixa mais vulnerável de 120 quilômetros usada por dezenas de terroristas palestinos para entrar clandestinamente em Israel. O restante vai depender da liberação de verbas e corre o risco de ficar no papel, pois o custo é altíssimo – 1 milhão de dólares por quilômetro construído. Nenhum governo israelense se tinha atrevido a erguer tal barreira, com medo de que isso fosse entendido como a aceitação por Israel das fronteiras de 1967. A decisão foi difícil especialmente para Sharon, que, como explicou em artigo publicado no jornal The New York Times, não vê a Cisjordânia como um território ocupado, mas como uma "área em disputa". O primeiro-ministro acabou aceitando que esse é o preço a ser pago para dar um pouco de segurança à população. Desde o início da Intifada, nenhum suicida palestino conseguiu entrar em Israel pela Faixa de Gaza, cuja fronteira é guardada por cercas.

O modelo para a nova barreira é a existente na fronteira com a Jordânia. Inclui vários níveis de defesa, como arame farpado, cerca eletrificada, fossos profundos o suficiente para deter veículos blindados e vigilância eletrônica. Em duas áreas críticas, coladas a uma rodovia que passa ao lado das cidades palestinas fronteiriças de Tulkarem e Qalqilya, a cerca vai dar lugar a um muro de concreto para impedir a ação de franco-atiradores. Numa mostra da tensão que envolve os dois lados, os operários israelenses estão trabalhando com colete à prova de bala e cobertura de soldados do Exército. A decisão do governo Sharon de separar israelenses e palestinos, impensável há alguns meses, é um sintoma de desespero. Uma pesquisa divulgada no início do mês pela Universidade de Tel-Aviv mostrou um apoio maior entre os israelenses à construção de uma barreira para isolar os palestinos do que à retomada das negociações de paz. Na mesma pesquisa, 65% dos entrevistados endossaram a proposta de abandonar as colônias israelenses nos territórios ocupados, onde vivem 200 000 judeus, para viabilizar a separação definitiva dos palestinos.

O destino das colônias menores e mais isoladas torna-se mais agudo com a construção da barreira. A maioria dos israelenses acha que elas não valem a vida da soldadesca enviada para protegê-las. Mas o governo de Sharon entende que, se as colônias forem desmanteladas neste momento, os palestinos entenderão como a confirmação de que é possível expulsar os israelenses à força de atentados. Há também a questão de Jerusalém. Desde 1967, o governo israelense abocanhou 35% da parte oriental da cidade, habitada majoritariamente por árabes, para construir habitações para judeus. Erguer de forma unilateral uma barreira que isole Jerusalém do território palestino só criaria mais confusão. Sabendo disso, Sharon empurrou para o futuro uma definição sobre o trajeto da muralha na cidade.

O isolamento também deverá agravar a crise econômica nos territórios ocupados, onde o índice de desemprego é de 40%. A circulação de bens e mercadorias entre os dois lados, que já havia caído desde o início da Intifada, deverá despencar ainda mais. Milhares de moradores da Cisjordânia que cruzam a fronteira clandestinamente para trabalhar em Israel deverão perder o emprego com a construção de uma fronteira indevassável. No lado israelense, o maior temor é que o isolamento da Cisjordânia não impeça o prosseguimento dos atentados suicidas. O caso do palestino Ibrahim Sarahne, preso em maio, é exemplar. Sarahne dirigia um táxi com placas de Israel pelas ruas de Tel-Aviv usando identidade falsa de um árabe-israelense. Em entrevista ao jornal The New York Times, ele admitiu ter levado em seu carro quatro terroristas da Cisjordânia para missões suicidas dentro de Israel. Sarahne contou que deixava o suicida num local movimentado e depois ouvia o barulho da explosão da bomba. Cinco israelenses morreram nos ataques. O motorista disse que nunca foi parado nos postos de fronteira e revelou que é muito fácil enganar as forças de segurança e entrar clandestinamente no país.

 
 


 

   
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