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Edição 1 756 - 19 de junho de 2002
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A crise explodiu
antes
da hora

A possibilidade de o Brasil
virar uma Argentina é remota.
Mas é isso que anda por trás
do nervosismo do mercado
nas últimas semanas

Eurípedes Alcântara

 
Fotos Dida Sampaio/AE
"A única possibilidade de o governo evitar que ganhemos as eleições é criar pânico na sociedade. Isso pode estourar no colo deles. E não será bom para ninguém."
LULA


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Enquete: Com os sinais negativos do mercado financeiro nos últimos dias, você acha que o Brasil corre o risco de virar uma Argentina?

Afinal, o Brasil corre o risco de virar uma Argentina? Depois de meses em que claramente a economia brasileira descolou do trágico destino do vizinho, o Brasil parece estar vivendo uma crise de enredo parecido. Dólar nas alturas, avaliações desastrosas das agências que monitoram o risco das economias emergentes e uma sensação horrorosa de ser a bola da vez. Até quem deveria estar esconjurando o desastre, como o presidente Fernando Henrique e o ministro da Fazenda, Pedro Malan, admitiu essa hipótese, mesmo que com claros objetivos eleitorais. "Se um presidente incompetente for eleito, podemos ter a mesma sorte da Argentina", disse FHC. O fato é que o Brasil vivia na semana passada a pior crise financeira desde o fim de 1998, marcado pelo caos que implodiu aquele saudoso real com poder de dólar. Naquele momento os brasileiros sabiam por que estavam sofrendo. A Rússia dera um calote bilionário, as bolsas americanas estavam derretendo, a quase paridade do real com a moeda americana fora desmoralizada e a desconfiança corria solta em relação a qualquer economia da calota sul. E a crise de agora?

Bem, ela parece uma daquelas jogadas infelizes da defesa da seleção brasileira, quando os zagueiros fazem firulas com a bola próximo da área, nas barbas dos atacantes adversários. Fala-se com pavor da dívida pública brasileira de 685 bilhões de reais, ou 55% do PIB. Mas até que o jogo eleitoral pesado começasse, até que se iniciassem as menções à Argentina e esse fantasma passasse a ocupar a preocupação do brasileiro comum, a dívida tinha o mesmo tamanho e poucos duvidavam da capacidade do Brasil de administrá-la. Agora é diferente. A culpa pela súbita vulnerabilidade tem sido empurrada de um lado para outro pelos jogadores da competição eleitoral. Os tucanos não param de reafirmar que Lula eleito equivale ao risco de caos. Lula responde que foi o governo que tornou o país frágil. Ele comparou os adversários aos autores do episódio do Riocentro, em que militares descontentes com a redemocratização explodiram uma bomba no carro quando iam fazer um atentado. "Isso pode estourar no colo deles", disse Lula.

 
"A dívida é manejável, e tem candidato que faz terrorismo quando diz que ela aumentou dez vezes. É um misto de ignorância com intenção desestabilizadora."
JOSÉ SERRA
FHC conversa com Serra: "O Brasil já enfrentou e derrotou crises piores"  

O fato de que há nervosismo eleitoral com a liderança de Lula nas pesquisas – esse é o principal ingrediente da preocupação – não torna menos dramática a agitação dos mercados. Ela é real, ela antecipa o quadro econômico que eventualmente ocorrerá no ano que vem, ela é também danosa no presente. Alguns sinais preocupantes estavam à vista na semana passada. Num país sem tradição de poupança interna, o clima de incerteza conseguiu tirar a fé num dos mecanismos de captação mais populares, os fundos DI, que, de uma hora para outra, passaram a ser encarados como investimento de alto risco. Logo os fundos DI, antes apontados como porto seguro em momentos de turbulência. Nos últimos vinte dias, os brasileiros arrancaram 10 bilhões de reais de todos os fundos. Teve corrida para o dólar, que bateu em 2,7 reais, na sexta-feira passada, uma valorização de 11% em menos de duas semanas. Isso produziu remessas legais e ilegais de dinheiro para o exterior em tal volume que o Banco Central abriu uma investigação a respeito. Em apenas dez dias, a dívida pública, que tem um pedaço atrelado ao dólar, cresceu 18 bilhões de reais. O Brasil passou de novo por aquela liturgia humilhante de crise globalizada, com o rebaixamento do crédito brasileiro. O JP Morgan, banco americano que produz um ranking diário do risco oferecido a investidores por 21 países emergentes, chegou a colocar o Brasil atrás apenas da quebrada Argentina e da paupérrima Nigéria, um dos países mais corruptos e atrasados do mundo.

No fim da semana, o governo anunciou medidas para conter a especulação. Aprofundou ainda mais os cortes de gastos, decidiu incorporar às reservas 10 bilhões de dólares que tinha de crédito aprovado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e aumentou a quantidade de dinheiro que os bancos são obrigados a depositar todos os dias no Banco Central – o que tecnicamente limita a capacidade deles de especular com moeda estrangeira. Foi anunciado também o aumento da meta de superávit primário de 3,5% para 3,75% do PIB, o que mostra o comprometimento do governo em melhorar as contas do país. O superávit primário é o que sobra no caixa antes de se pagarem os juros da dívida. As coisas melhoram um pouco. Com essas medidas, o pobre Equador voltou a ocupar o terceiro lugar que perdera para o Brasil no começo da semana. Mas, para se ter uma idéia da percepção negativa que o mercado está tendo do Brasil, basta comparar o risco atribuído a alguns outros emergentes. Esse chamado risco país é medido em pontos. Quanto mais pontos, pior a situação. Pois bem, o México tinha um risco país de 300 pontos contra os 1 315 atribuídos ao Brasil na sexta-feira. A Colômbia, com sua guerrilha e plantações de coca, estava com 566 pontos. Isso significa que, à fria percepção dos rapazes do mercado financeiro internacional, aplicar dinheiro no caldeirão colombiano é duas vezes mais seguro que investir no gigante eternamente deitado em berço esplêndido. Do ponto de vista prático, o resultado de um risco país em torno de 1.200 pontos é muito pesado. Nesse patamar, empréstimos e rolagens de dívidas em dólar de empresas brasileiras passaram a custar 12% mais, o que inviabiliza um grande número de negócios.

Uma espécie de "derrotismo irracional" instalou-se sobre o Brasil. Esse sentimento é uma versão maligna da bolha de euforia que dominou os mercados no período de ouro da internet. Nesses períodos, os investidores esquecem os fundamentos da economia e confiam apenas em seus instintos. Comportam-se como as manadas. Baixam a cabeça e seguem o rebanho. Na euforia, eles se recusam a enxergar riscos. No derrotismo, o medo toma conta e o desastre parece iminente. Ninguém presta atenção em números ou em notícias positivas. "A turbulência no Brasil tem suas causas nas incertezas políticas em relação à eleição de outubro", disse John Taylor, subsecretário do Tesouro dos Estados Unidos. O FMI manifestou a mesmíssima opinião. Nem um nem outro chegou a apontar claramente Lula como o fator gerador de incerteza. Esse papel coube ao megainvestidor George Soros, cujo nome e as crises parecem andar juntos. "O mercado vai impor José Serra", disse Soros ao jornal Folha de S.Paulo. O que ele quis dizer é simples. A eleição de Lula, segundo Soros, estrangularia os investimentos externos e levaria o Brasil à moratória antes da posse do novo presidente. "O mercado está nervoso? Toma um calmante que passa", ironizou FHC. O presidente lembrou que, mesmo com a economia muito mais enfraquecida no passado, o Brasil enfrentou e derrotou crises muito mais sérias que a atual. É verdade. Também o é que os tempos eram outros. Os países ricos, em especial os Estados Unidos, viviam um período de prosperidade sem precedentes. Agora, em contraste, o mundo vive um tempo de desconfiança e de discórdia geradas principalmente pelo ataque terrorista de 11 de setembro do ano passado aos Estados Unidos e pela reação americana que se seguiu. A economia dos EUA, embora oficialmente não esteja em recessão, ainda é uma pálida sombra dos anos de ouro do governo Bill Clinton. "As dúvidas sobre o ritmo de recuperação são um fator importante com reflexos no Brasil", diz José Alexandre Scheinkman, economista e professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

O que vai pesar mesmo é a percepção dos rumos do país. Foi isso que liquidou a Argentina. O país vizinho teve um crescimento médio na década passada que foi quase o dobro do brasileiro. A um ano da quebra, a Argentina esbanjava saúde. O economista Rudy Dornbusch, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dizia que a Argentina tinha um único problema, o Brasil. Deu no que deu. Com uma dívida interna alta e incapaz politicamente de domar as províncias gastadoras, a fleuma dos pampas foi aos poucos cedendo espaço à desconfiança. Primeiro fugiram os investidores privados. Depois os bancos privados viraram as costas ao país. Logo os próprios organismos internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, seguiram-lhes a trilha. Quando secou a última fonte de dólar de fora, a Argentina começou a agonizar. Em três meses estava quebrada. "O cálculo é que, se o Brasil chegar a esse ponto, o que pouca gente acredita, o país teria fôlego para quatro ou cinco meses antes de quebrar", diz um banqueiro americano. As chamadas condições materiais dos dois países são bem diferentes. Isso é motivo de tranqüilidade, pelo menos temporária. "O risco de o Brasil se argentinizar é baixo", afirma Sérgio Werlang, ex-diretor do Banco Central e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Entre as variáveis que nos separam da triste sina do vizinho, Werlang cita o fato de que a dívida interna brasileira está em mãos de brasileiros – os milhões de investidores que compram títulos do governo. "Além disso, o câmbio flexível permite que o Brasil absorva melhor os choques externos."

Como observação geral, os economistas citam seis diferenças básicas entre as duas economias:

a dívida pública da Argentina está quase toda dolarizada;

ao contrário da Argentina, o Brasil tem estabilidade política. É uma democracia estável com razoável entendimento entre o governo federal e os Estados. A Argentina vive uma constante crise de governabilidade, com tensões fortes entre Buenos Aires e as províncias;

a Argentina perdeu o controle da inflação, que pode chegar a 60% neste ano, enquanto a previsão para o Brasil é de 5,5%;

a Argentina não tem parque industrial e depende do preço de suas exportações de produtos primários, como o petróleo e a agricultura;

o comprometimento da dívida pública é de 55% do PIB no Brasil e de mais de 100% na Argentina;

o Brasil tem uma Lei de Responsabilidade Fiscal e bancos saneados, que são duas das maiores fragilidades dos vizinhos.

Mesmo todas essas diferenças não são garantia total de imunidade. Aliás, essa garantia não existe. Quando ocorre a deterioração completa da confiança em um país, nenhum instrumento financeiro dá segurança total. Nem mesmo os chamados títulos cambiais – cujo rendimento é atrelado ao dólar. Como todo título, em caso de calote da dívida por um governo, o papel cambial também não seria honrado. Um poderoso empresário brasileiro contava na semana passada ao banqueiro que cuida de sua fortuna pessoal que sua empresa já estava "fortemente hedgeada" – ou seja, ela comprou dólares em quantidade suficiente para cobrir suas dívidas em moeda americana. Ele próprio tinha parte considerável do patrimônio financeiro pessoal já dolarizada e guardada em bancos estrangeiros. Ainda assim, o empresário insistia em comprar cédulas de dólar com o caixa diário gerado pela companhia. Sua dúvida era assustadora. "De que adianta estar hedgeado se nossa filial na Argentina colocou dólares no banco e quando foi sacá-los não pôde?" Em toda crise sempre haverá os mais cautelosos e os que aceitam correr riscos maiores. O empresário do diálogo acima é do tipo que não quer saber de risco em hipótese nenhuma.

 
José Paulo Lacerda/AE

Armínio Fraga e Pedro Malan relaxados depois do anúncio das medidas para conter o dólar e a especulação

"A situação hoje é de fio de navalha. Manobras desastradas do governo podem fazer do Brasil uma Argentina, sim", diz Reinaldo Gonçalves, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essa não é a opinião da maioria dos analistas (veja quadro), que considera pequeno ou inexistente o risco de argentinização. Mas, enquanto o Brasil depender de dinheiro estrangeiro para fechar as contas, o país estará vulnerável aos humores do mercado. Em ano eleitoral, sempre que houver a possibilidade de ganhar um candidato propenso a quebrar as regras do jogo do antecessor, essa vulnerabilidade vai aumentar. No caso atual, o que fazer? Os tucanos no governo deveriam segurar o jogo eleitoral antes que ele ponha em risco a estabilidade conquistada com sacrifícios. O PT deveria parar de brincar de socialismo do século passado e assumir suas responsabilidades de partido com chances de governar um país complexo como o Brasil. Quanto aos especuladores... Bem, eles vão continuar fazendo o que sempre fazem: procurar fragilidades em busca do lucro fácil.

Nem toda boa vontade do PT ou do Vaticano conseguirá mudar a natureza dos mercados. O componente especulativo faz parte de sua natureza. Existem certas regras sem as quais o capitalismo não funciona de forma apropriada. A principal delas é a previsibilidade do mercado. Os investidores precisam ter condições de calcular o risco e o retorno dos negócios e papéis em que aplicam o dinheiro. Quando isso acontece, o dinheiro aparece naturalmente, brota. Para ser previsível, a economia de um país deve garantir que nada mudará nas regras vigentes e nos contratos assinados. E precisa se comprometer com a estabilização, a austeridade e a responsabilidade fiscal. O princípio da previsibilidade e as bases do capitalismo sadio se evaporam quando surgem documentos como o que o PT produziu falando em "ruptura necessária". Hoje em dia, a diferença entre um governo de "esquerda" e um de "direita" pode ser a que quiserem seus protagonistas, mas nenhum dos dois tem a liberdade de contrariar princípios básicos universalmente aceitos como sadios. Alguns deles: respeito a contratos, responsabilidade fiscal, combate à inflação, superávit nas contas públicas. "Câmbio e taxa de juros não podem ser debatidos ideologicamente", afirma o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros. "A diferença pode surgir no uso do dinheiro do orçamento público", completa o ex-ministro. O governante pode ter prioridades e gastar mais numa área que em outra, enquanto o representante do partido adversário poderia hierarquizar seus gastos de forma diferente. Nenhum deles, porém, desafiará impunemente as leis impessoais do mercado. Para ilustrar essa convicção, Mendonça de Barros costuma contar uma história atribuída ao repertório do ex-primeiro-ministro da França, o socialista Michel Rocard. Como todo bom socialista europeu, uma vez no poder ele estava implementando um programa econômico fortemente conservador. Um jornalista quis saber que diferença havia entre o seu programa e o da direita. "A diferença é que eu faço o que faço com dor no coração", respondeu Rocard. O PT pode ir se preparando.

Com reportagem de Denise Ramiro,
Adriana Carvalho e Silvia Rogar

 
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