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Arquitetura Pirâmide de GarneroEspera-se que o megaedifício
em São Paulo
O empresário Mário Garnero anunciou na semana passada que vai erguer
em São Paulo um megaarranha-céu com 103 andares e 494 metros de altura.
O Brasil que se cuide. Na mesma semana, saiu um estudo curiosíssimo apontando
uma relação entre a construção de arranha-céus gigantescos e o destino
da economia dos países onde eles foram construídos (veja
quadro). É erguer um desses prédios gigantescos e a crise econômica
chega em seguida. Foi assim em Nova York em 1929, ocasião em que se deu
o crash da bolsa que arrasou a economia mundial. Coincidiu com a construção
do Empire State Building. Aconteceu o mesmo em 1996, quando ficaram prontas
na Malásia duas torres com 452 metros de altura. Um ano depois, o Sudeste
Asiático foi à bancarrota. Espera-se que a sorte do país seja outra em
2004, data prometida para a entrega do São Paulo Tower. "O empreendimento
vai virar o marco de São Paulo", diz Garnero. "Atrairá turistas
como o Empire State faz em Nova York."
O projeto tem orçamento proporcional ao tamanho do edifício, 1,6 bilhão de dólares, e um aspecto de assustar. O prédio, que, se for concluído, será o segundo edifício mais alto do mundo, tem a forma de uma pirâmide ou de um templo indiano e cada um de seus quatro lados corresponde a uma torre independente. A razão desse aspecto nada ocidental está ligada à origem do dinheiro da obra: um fundo de investimento controlado pelo guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, que promete dar a cada um de seus seguidores o poder de atravessar paredes, tornar-se invisível e voar – tudo pela meditação transcendental. Ele ficou bilionário após reunir entre seus seguidores artistas como os Beatles e os Rolling Stones. Sua organização fatura 3 bilhões de dólares por ano e estima-se que seu patrimônio pessoal chegue a 1 bilhão de dólares. A idéia de erguer esse colosso partiu do fundo de investimentos de Maharishi, que tinha o projeto pronto e estava indeciso entre erguê-lo em Nova Delhi, Tóquio ou São Paulo. Acabaram decidindo por São Paulo, depois que Garnero se comprometeu a arranjar quase metade do investimento necessário.
O projeto do superarranha-céu brasileiro gerou duas discussões paralelas. Uma, entre os urbanistas. A outra polêmica ocorre no mercado. Poucos são os que acreditam que a obra saia do chão. Há vários exemplos de empreendimentos dessa magnitude que nunca viraram realidade. A Torre sem Fim, de Paris, projetada alguns anos atrás pelo arquiteto Jean Nouvel, consumiu 45 milhões de dólares em estudos e não foi construída. Outro fracasso foi o World Financial Center, em Xangai, na China, que deveria ter 460 metros de altura mas ficou no papel depois das turbulências na economia da Ásia. Garnero começou as negociações com o fundo Maharishi há mais de um ano e agora procura parceiros entre os fundos de investimentos, empresas, construtoras e os fundos de pensão. A Previ, do Banco do Brasil, será um dos primeiros. Pirâmide de Nicolau – Os urbanistas em geral não gostam de torres dessas proporções. Afirmam que reunir tanta gente num espaço único acaba pressionando a demanda por serviços públicos. "Para funcionar, esse prédio requer a abertura de novas ruas e a ampliação da rede de água e esgoto", esclarece Joaquim Guedes, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Além disso, os gastos com a construção podem provocar o aumento das taxas de condomínio e dos aluguéis. Os defensores do megaprojeto dizem que os críticos estão é com inveja. Afinal, se ele for concluído, o autor da obra terá seu nome eternizado. Para o bem ou para o mal. Outro argumento que usam para defendê-lo está ligado ao local escolhido para a construção: uma região decadente no centro da capital paulista conhecida como "cracolândia". É lá que meninos de rua assaltam à mão armada, dormem na calçada e fumam crack ao meio-dia. "Quando a obra estiver pronta, a região em torno do edifício será completamente revitalizada", declara Garnero. A obra é tão gigantesca que o terreno necessário para sediá-la equivale a uma área de setenta quarteirões. Para um prédio dessas proporções, está prevista a construção de alguns prédios-garagem, com espaço para 25.000 automóveis. Estima-se que pelo menos 50.000 pessoas vão circular pelo local diariamente. Em função de seu gigantismo, o edifício de Garnero terá um preço assombroso por metro quadrado: 2 100 reais. É o dobro do custo de construção de um edifício de alto padrão. Detalhe: a nova pirâmide da cidade não conseguiu bater o recorde de outra obra faraônica, que já ganhou fama nacional. O novo prédio do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, assinado pelo juiz Nicolau dos Santos Neto. Para ficar inacabada, oca e correndo o risco de desabar, a pirâmide de dom Nicolau custou 2.500 reais por metro quadrado.
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