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• Cultura: Como a arte e a cultura estão ajudando a reerguer Nova OrleansEntrevista: Simon Murray"É preciso viver aventuras"Na
adolescência, Simon Murray realizou um sonho de sua geração:
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Laílson Santos![]() |
"Quando eu era pequeno, Londres começou
a ser bombardeada, e aí teve início
a minha peregrinação por casas
de parentes e internatos. Tornei-me muito independente desde cedo" |
Aos
19 anos, depois de sofrer uma desilusão amorosa, o inglês Simon Murray
fez algo com que muitos jovens de sua geração sonhavam, mas jamais
ousariam pôr em prática: alistou-se na Legião Estrangeira,
a célebre unidade militar francesa que combatia sobretudo nos desertos
do norte da África. De 1960 a 1965, o rapaz saído de um internato
inglês para meninos de boa estirpe lutou em condições duríssimas,
em particular contra os insurgentes argelinos que tentavam se libertar do colonialismo
francês. A experiência, que Murray descreve no livro Legionário, lançado agora no Brasil pela BEĨ Editora, foi o início de uma vida
repleta de riscos. Alguns deles, calculados, como as diversas empreitadas empresariais
que Murray conduz para grandes corporações multinacionais na Ásia
desde a década de 70, em ramos que vão do petróleo e das
finanças à telefonia. Outros, de audácia notável,
como a caminhada de 1 200 quilômetros que, seis anos atrás,
fez dele o homem mais velho a atingir o Polo Sul a pé, sem apoio logístico.
Aos 70 anos, Murray, um cavalheiro encantador, continua a fazer anualmente algo
inusitado, como participar de corridas de barcos: um pouco de aventura
ou até de perigo ajuda as pessoas a se conhecer melhor e a se manter
jovens, disse ele nesta entrevista a VEJA, de Londres.
Por
que, aos 19 anos, o senhor praticamente fugiu da Inglaterra e se alistou na Legião
Estrangeira?
Fui criado em um mundo muito diferente daquele em que os jovens
crescem hoje. Nasci logo depois do início da II Guerra. Quando eu não
tinha nem 2 anos, Londres estava sob o bombardeio dos alemães, e aí
começou minha peregrinação pelas casas de parentes
e depois por internatos. A partir dos 4 anos, na prática, eu não
vivia mais com minha mãe. Tornei-me muito independente desde cedo. Por
exemplo: pouco antes de fazer os exames finais do ensino médio, estava
na Holanda, passeando pelas docas de Roterdã, quando vi uma longa fila
de homens tentando empregar-se nos navios. Juntei-me à fila e passei um
ano no mar, em um navio mercante. É claro que perdi meus exames e, com
eles, a chance de ingressar na universidade. Fui então trabalhar numa fundição
em Manchester, na zona industrial da Inglaterra, e odiei cada dia do ano que passei
ali. A única coisa boa naquele lugar era uma garota, a filha do diretor
da fundição, chamada Jennifer que, no entanto, achava que
eu não era lá muito bom partido, por causa dessa minha mania de
aventuras. Num gesto romântico, então, tentei entrar no Exército
britânico, que me recusou ao constatar que eu era daltônico. Decidi
curtir minha fossa em Paris. E, no dia seguinte à minha chegada ali, impulsivamente
me alistei na Legião Estrangeira.
Se o senhor é
daltônico, como foi aceito na Legião?
Parte do teste de admissão
se destinava justamente a detectar eventuais dificuldades de distinguir as cores.
Foi-me mostrado um cartaz em que eu deveria enxergar uma galinha não
vi galinha nenhuma, porque misturo as cores, mas o oficial achou que a resposta
não vinha porque eu não sabia dizer "galinha" em francês.
Ele se pôs a cacarejar, para me ajudar. Passei no teste, e ninguém
nunca desconfiou do meu daltonismo.
Qual foi sua impressão
inicial da Legião?
O regime ali era duríssimo e é
claro que se pode dizer o mesmo dos fuzileiros americanos ou das forças
especiais britânicas. Mas, quando você se junta a um regimento como
esses dois, está no meio de iguais: pessoas com o mesmo tipo de histórico,
vindas de situações sociais semelhantes. Na Legião, ocorria
o oposto. Éramos cerca de 25 000 soldados de dezenas de nacionalidades
e com todo tipo de passado. Era notório, por exemplo, que homens com
problemas com a lei frequentemente escapavam alistando-se na Legião. Durante
meus primeiros dois anos, fui o único inglês em meu regimento. Não
havia ninguém que sequer se parecesse comigo; o sujeito ao seu lado podia
ser russo, ou alemão, ou chinês, e vir de um mundo completamente
diferente do seu. Além disso, durante os três meses de treinamento
básico, o alistado não podia sair, encontrar os amigos ou ligar
para a mãe para matar a saudade. Por cinco anos inteiros, não fiz
um único telefonema. Era como estar na Lua.
Qual foi
a maior lição que o senhor aprendeu?
Abri meus horizontes, acima
de tudo a respeito das pessoas. A Legião é uma grande niveladora.
Seja você um príncipe, um poeta, um operário ou um bandido,
é tratado da mesma maneira que todos à sua volta. Você é
um nome e um número, nada mais, e seu passado deixa de existir. Aprendi,
assim, a circular entre todo tipo de gente e a encontrar um denominador comum
com quem quer que seja. Essa é uma habilidade que me tem sido de grande
valia na vida, sobretudo como empresário que atua em diversas partes do
mundo.
Não causou estranheza entre sua família
e seus amigos o fato de um menino inglês de 19 anos decidir lutar na África
pela França colonial?
Lutar em uma guerra colonial era o de menos, uma
vez que também o império colonial britânico vinha se desfazendo
desde o fim da II Guerra embora com menos violência e fricção,
em geral, do que no caso do francês. O que realmente causou perplexidade
é que todo garoto inglês da minha geração cresceu lendo Beau Geste, um clássico juvenil que descrevia a vida na Legião
como uma fiada de perigos e aventuras. Mas isso era algo para ser desejado e imaginado,
não vivido. Eu, porém, decidi dar o passo que cobria essa distância.
O
senhor alguma vez ponderou se havia mérito na causa da Frente de Libertação
Nacional da Argélia, enquanto lutava contra ela?
Não. Na visão
da França e, obviamente, da Legião Estrangeira, não estávamos
travando uma guerra colonial, e sim lutando contra insurgentes e terroristas.
Em 1962, o então presidente francês Charles de Gaulle negociou a
independência da Argélia, e a guerra praticamente cessou. Mas,
até aí, não era esse o ponto de vista o de uma rebelião
contra a exploração colonial que se tinha sobre as hostilidades
na região.
Ouve-se muito falar de como a Legião
Estrangeira, embora seja uma unidade do Exército francês, era em
grande medida leal apenas a si mesma. O senhor testemunhou algum episódio
que aferisse essa visão?
Sim. Em 1961, parte do Exército
francês se rebelou contra De Gaulle, em um quase prenúncio de uma
guerra civil. O motivo era justamente o fato de que De Gaulle não mostrava
determinação em manter a Argélia como parte da França.
Uma grande porção da Legião Estrangeira aderiu, e meu regimento,
de paraquedistas, estava pronto para se lançar sobre Paris. Mais célebre
ainda, claro, é o fato de que durante a II Guerra a Legião lutou
contra a Alemanha, enquanto a França propriamente dita se rendera. Um único
regimento de legionários conseguiu, sozinho, deter as forças do
marechal alemão Rommel durante dezesseis dias inteiros.
Os
legionários então correspondem ao mito são durões?
Acho que nossa grande qualidade era a capacidade de resistir durante muito tempo,
em situações terríveis, sem quebrar.
E
o treinamento pelo qual o senhor passou, também correspondia à fama
assustadora que tinha?
Sim. Eu e os outros recrutas enfrentamos fome, frio, calor,
sede, sujeira, exaustão, disciplina inflexível e oficiais implacáveis.
Um de nossos companheiros se suicidou por não conseguir suportar essas
condições. Mas, na minha experiência, aquele sofrimento dos
meses de treino foi uma etapa essencial para o que viria a seguir os anos
em combate no deserto. Sem ele, não sei como teríamos resistido
às adversidades da vida no front. O curioso é que, em 1982, voltei
a Marselha, à sede de treinamento da Legião, para fazer um documentário
para a BBC. Vi os recrutas na praia, ao sol, com mulheres por todos os lados,
ou alojados em casernas limpas e confortáveis. Manifestei minha surpresa,
e o comandante do 2º Regimento de Paraquedistas o meu regimento
me explicou que, no correr dos anos, eles haviam constatado que não era
necessário punir um soldado da forma como nós éramos punidos
para torná-lo leal e preparado. Confesso ter minhas dúvidas sobre
a eficácia dessa nova abordagem. Ainda que o mundo em geral fosse muito
mais duro cinquenta anos atrás do que é hoje.
Qual
foi o seu melhor momento na Legião Estrangeira?
Meu último
dia. Recebi um certificado de boa conduta, atravessei os portões do quartel
de Marselha, saudei a sentinela e fui embora. Foi o melhor adeus da minha
vida.
Se tivesse de novo 19 anos, mas sabendo o que sabe hoje,
o senhor se alistaria novamente?
Provavelmente não. É uma dessas
coisas de que é bom lembrar, bem depois, mas um inferno fazer.
Em
2004, aos 63 anos, o senhor se tornou o homem mais velho a chegar ao Polo Sul a pé e sem apoio logístico. Foi também um inferno?
Sem dúvida. As pessoas querem saber se gostei de caminhar até o
Polo Sul. Mas não há como gostar de andar 1.200 quilômetros
carregando 150 quilos de equipamento, em um frio indescritível. Perdi 23
quilos em 58 dias. Na volta, uma repórter do jornal The Times, de
Londres, me perguntou como eu estava me sentindo e publicou minha resposta,
no dia seguinte, palavra por palavra: "Juro que nunca mais quero ver uma
**** de um floco de neve na minha vida!", desabafei. Enfim, não é
prazeroso passar por esses testes. Mas é uma sensação invariavelmente
positiva a de se ter testado até o limite e descobrir aquilo que se pode
suportar ou simplesmente conhecer-se. Há um ditado que diz que um
homem que não tem medo da morte está livre para viver. Adicionar
um pouquinho de perigo à vida é salutar.
Chegar
ao Polo Sul não é apenas um pouquinho perigoso. Muitos já
morreram na tentativa. Por que o senhor decidiu arriscar-se assim?
Minha mulher
foi a primeira a dar a volta ao mundo, no sentido Leste-Oeste, pilotando um helicóptero,
e estava planejando voar também do Polo Sul até o Polo Norte. Ela
queria que eu colaborasse no financiamento da expedição, como fizera
em outras ocasiões, mas eu estava relutante. Para me envolver no projeto,
então, ela convidou para jantar um explorador, Pen Hadow. Ela argumentou
que poderia me deixar a 60 quilômetros do polo, de helicóptero, e
Hadow me acompanharia então nesse pequeno trecho de marcha. Hadow nunca
chegara até o Polo Sul, mas, entre uma garrafa de vinho e outra, combinamos
os dois que tentaríamos fazer o impossível. E, miraculosamente,
fizemos.
De que outras aventuras o senhor participou?
Tenho
um grupo de amigos muito bem dispostos, e todos os anos fazemos algo especial.
Já subimos o Monte Kilimanjaro, na África, fomos até o campo-base
do Everest, participamos de uma corrida de barcos no Mar da China e de uma maratona
no Deserto do Marrocos. Soa imponente, mas a verdade é que são coisas
pequenas e perfeitamente factíveis, nas quais nos lançamos para
nos manter jovens.
Como o senhor mantém a forma?
Não
frequento academias. Caminho muito, pelo menos uma hora por dia, e no verão
ando de bicicleta o mais que posso. Não pego elevadores nem escadas rolantes
sempre corro escadaria acima. Também tento me alimentar de maneira
saudável. Se me oferecem um filé, aceito. Mas não tomo a
iniciativa de comer carne vermelha. E bebo vinho todos os dias. Saúde e
boa forma, a meu ver, são questão de atitude.
O
que foi feito de Jennifer, a filha do diretor da fundição de Manchester,
por causa de quem toda essa história começou?
No meu tempo, a aura
romântica da Legião Estrangeira realmente funcionava com as garotas.
Quando ganhei baixa, Jennifer rompeu seu noivado com outro sujeito e foi me encontrar
em Paris. Estamos casados há 45 anos e temos três filhos. Nenhum
deles é chegado a aventuras.