Copa
Dunga fez a coisa
certa
O treinador foi contra o clamor popular não porque
seja teimoso - mas
porque tem uma ideia claríssima
da seleção
que terá em campo

Fábio Altman
Luiz Mello/Ag. O Dia/AE
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Marco Antonio Cavalcanti
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CONVICTO
O treinador, no anúncio dos selecionados, no Rio: lista construída
durante três anos e meio |
PIADA
Zé da Galera, de Jô Soares, que pedia "bota ponta, Telê",
em 1982 |
Dunga é turrão. Dunga, ao erguer a taça em
1994, como capitão do tetra, xingou jornalistas e quem mais lhe passasse
à frente, revide por ter sido duramente criticado. Dunga, filho de uma
professora de história e geografia, afirmou, ao anunciar os 23 da África
do Sul, na semana passada, que não saberia dizer se a escravidão
ou a ditadura foram boas ou ruins, porque "só quem as viveu pode
nos dar a resposta". Ele retrucava um comentário, pura provocação
e já antigo, de que seria a favor do apartheid. Dunga é assim
mesmo, boquirroto por profissão (e preparemo-nos, porque vem mais por
aí). Mas fez a coisa certa ao convocar a seleção para a
Copa do Mundo, deixando fora da lista principal os três grandes clamores
populares: Neymar e Paulo Henrique Ganso, do Santos, e Ronaldinho Gaúcho,
do Milan, este em menor grau.
"Dunga
foi coerente com todo o seu trabalho, convicto do caminho que escolheu",
diz o comentarista esportivo Ruy Carlos Ostermann. O treinador tem uma ideia de
time na cabeça - forte na marcação, construído
por atletas com experiência no exterior e formado apenas por homens de cega
confiança. Foram três anos e meio na mesmíssima tecla. O último
a cair - Adriano, do Flamengo - foi cortado não pelo que fez
nos gramados recentemente, mas pelo comportamento fora dele. "Dunga é
assim, conservador, surdo a tudo aquilo que não combine com o que planejou",
diz Ostermann. Trata-se de um elogio.
O sucesso passado não
desculpa erros futuros, mas convém prestar atenção nos resultados
do treinador gaúcho na seleção: 53 jogos, 37 vitórias,
onze empates e apenas cinco derrotas. No meio do caminho, ele venceu a Copa América
e a Copa das Confederações, a Argentina e a Itália e ainda
goleou Portugal por 6 a 2. Fechado o primeiro ciclo vitorioso, Dunga definiu essa
seleção como a correta para a Copa - salvo surpresas de última
hora, como a que excluiu Adriano. Não haveria motivos, portanto, para tirar
quem foi bem. Há coerência no acerto - e não no erro.
De fevereiro para cá, na entressafra da seleção,
os dois jogadores do Santos, Neymar e Ganso, explodiram, fizeram mágica
no Campeonato Paulista e na Copa do Brasil, deram espetáculo - e como
foi bonito vê-los jogar. "São dois grandes talentos e, certamente,
terão um grande futuro na seleção, mas infelizmente apareceram
tarde demais", diz Dunga. Os críticos do treinador costumam lembrar
de Pelé, que foi para a Copa de 1958 com apenas 17 anos de idade. O próprio
Pelé trata de rechaçar a indevida comparação. "Quando
me chamaram, apesar de muito jovem, já tinha algum destaque na seleção",
recorda. Aos números: antes de entrar em campo contra a União Soviética,
em 1958, Pelé fez cinco jogos pela seleção, com cinco gols
marcados. Mas e Grafite (convocado no lugar de Adriano), que jogou apenas 46 minutos
na seleção, não lhe falta experiência? No caso dele,
Dunga simplesmente escolheu um jogador de características semelhantes às
do que saiu - Neymar, ressalve-se, não é centroavante.
Evidentemente,
todo mundo que é experiente já foi inexperiente um dia, e teve uma
primeira chance. Nem sempre, contudo, as oportunidades oferecidas são bem
aproveitadas. Edu (16 anos, do Santos) e Tostão (19, do Cruzeiro) foram
levados por Feola para a fracassada e caó-tica Copa de 1966. Em 1970, Tostão
entraria para o rol dos maiores de todos os tempos - e nunca se soube que
a derrota de quatro anos antes tenha sido boa para sua formação
profissional. Zagallo não levou o magnífico meia Dirceu Lopes,
do Cruzeiro, para a campanha do tri em 1970, na contramão do que pedia
o país inteiro. Felipão deixou Romário em casa em 2002 -
e o baixinho não fez falta alguma no time campeão de Ronaldo, Rivaldo
e Ronaldinho Gaúcho.
No futebol, a memória costuma
ser seletiva e fraca. A cada quatro anos, lembre-se, é sempre a mesma coisa
- e o treinador, ei-lo acuado no canto do ringue, seja zangado como Dunga,
seja pacífico como Parreira. A seleção de 1982, de Zico,
Sócrates, Júnior e Falcão, entrou para as enciclopédias
pelo belo toque de bola - belo mas incapaz de segurar a Itália de
Paolo Rossi. Hoje, aquela derrota por 3 a 2 é sempre esquecida quando se
trata de ressaltar a beleza dos bailarinos de Telê Santana, realmente soberbos.
Mas Telê, antes da Copa, foi alvo de uma campanha mais forte até
do que a dos atuais defensores de Neymar e Ganso. "Bota ponta, Telê",
dizia o personagem Zé da Galera, criado por Jô Soares, cujo bordão
contaminou o país. E Telê - ranzinza como Dunga, mas com outro
estilo - não pôs ponta. Perdeu, mas teve uma segunda chance
em 1986. Defendia-se, às vésperas da convocação, com
uma frase que parece ter saído da boca de Dunga: "O ponta que não
arma, que não dá combate, não volta para marcar foi banido
dos melhores times do mundo".
Dunga, em caso de derrota,
certamente não terá a segunda chance de Telê. Muito se disse,
na semana passada, que ele teve medo de convocar Neymar e Ganso. É improvável.
Nada mais corajoso que levar quem levará. "Se o Brasil ganhar, haverá
um silêncio cerimonioso em relação a Dunga", diz Ostermann.
"Se perder, ele será condenado." E, ressalve-se, seria condenado,
na derrota, mesmo se tivesse listado Neymar, Ganso e Ronaldinho.
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