Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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CINEMA

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De Corpo e Alma: a visão de Robert Altman sobre o mundo da dança


De Corpo e Alma
(The Company,
Estados Unidos/Alemanha, 2003. Estréia nesta sexta-feira) – Neve Campbell, a atriz da série de terror Pânico, foi quem procurou o diretor Robert Altman com esta história de um ano na vida do Joffrey Ballet, de Chicago – e ouviu um categórico "não". Segundo explicou o diretor, ele não tem o mínimo interesse pelo mundo da dança. Se Altman voltou atrás na negativa e resolveu orquestrar essa narrativa solta, contada por múltiplos pontos de vista – sua marca registrada –, é porque ela contém, sim, muito que o interessa. Por exemplo, a hierarquia implícita que governa a rotina da companhia, a forma astuciosamente política como seu diretor artístico (Malcolm McDowell, num de seus melhores papéis dos últimos tempos) a conduz e, acima de tudo, o contraste entre a perfeição e a ilusão de leveza que se produz no palco e o trabalho quase operário que se desenrola nos bastidores. Neve (que foi bailarina) é Ry, uma integrante menos graduada da trupe que ganha a chance de um papel importante numa montagem que está em preparação. Como sempre, Altman está falando mesmo é de cinema: tantos sacrifícios se fazem pelo novo espetáculo, e ele resulta medonho. O público, porém, adora.
Trailer.

 

LIVROS

A Fragrância da Enseada, de John Lanchester (tradução de Therezinha Monteiro Deutsch; Best Seller; 400 páginas; 39,90 reais) – Editor, escritor e crítico gastronômico, o celebrado autor de Gula volta à cidade onde passou sua juventude, Hong Kong. O título original deste livro, Fragrant Harbour (algo como "porto cheiroso"), é uma tradução literal das palavras chinesas "Hong Kong" para o inglês. A história começa em 1935, quando um jovem aventureiro inglês a caminho da China conhece, no navio, uma freira chinesa que o ensina a falar cantonês. Os dois personagens são o centro de uma narrativa que atravessa três gerações. A ficção de Lanchester revela os meandros mais obscuros de Hong Kong durante o boom econômico do pós-guerra.

O Estranho Caso do Cachorro Morto, de Mark Haddon (tradução de Luiz Antonio Aguiar e Marisa Reis Sobral; Record; 288 páginas; 34,90 reais) – O autor inglês já escreveu quinze livros para crianças, mas esta é sua primeira obra traduzida no Brasil. Originalmente destinado ao público juvenil, o livro também fez sucesso entre os adultos. Conta, com muito humor, a singela história de Cristopher, um rapaz autista de 15 anos. Obcecado por padrões matemáticos e avesso a todo contato humano, Cristopher é acusado pela morte do cachorro de uma vizinha – e decide investigar o caso para se inocentar. O detalhe mais interessante e ousado do livro é que o narrador da história é o próprio Cristopher. Haddon foi elogiado pelo neurologista Oliver Sacks, autor de Tempo de Despertar, por seu retrato plausível de uma mente autista.

Cantiga de Ninar, de Chuck Palahniuk (tradução de Paulo Reis; Rocco; 278 páginas; 36,50 reais) – Depois de ter seu livro Clube da Luta adaptado para o cinema, o ex-mecânico Chuck Palahniuk se tornou a nova estrela pop da literatura americana. O novo livro é ainda mais desvairado do que o vagamente subversivo Clube da Luta. A história é narrada por um jornalista que descobre uma cantiga de ninar africana capaz de matar. Ao memorizá-la, Carl torna-se um assassino serial involuntário. E decide partir em um tour pelos Estados Unidos, para destruir todas as cópias do livro que traz a canção letal. Na viagem, é acompanhado por uma corretora imobiliária especializada em casas mal-assombradas. E isso é só parte da história, na qual também participam um terrorista e um necrófilo.

 

DISCOS

 
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Os White: mais que reciclagem pop  

The American Adventure, The Electric Soft Parade (BMG) – O álbum do grupo liderado pelos ingleses Alex White e Tim White – que têm ambos 19 anos – pertence à categoria dos trabalhos que crescem a cada nova audição. A princípio, o Electric Soft Parade soa como uma banda empenhada tão-somente em reciclar idéias de ícones do pop britânico como o Oasis. Mas eles vão além disso. The American Adventure (o título foi tirado de uma viagem da dupla a um parque temático europeu) tem arranjos extremamente inventivos, repletos de violoncelos, violinos e teclados Hammond. Bruxellisation e a faixa-título são os principais destaques.

A caixa de Clara: uma cantora singular

Clara, Clara Nunes (EMI) – Uma das principais intérpretes da música popular brasileira em todos os tempos, a mineira Clara Nunes (1943-1983) tem sua discografia completa relançada numa caixa especial. São oito CDs duplos e um CD simples contendo músicas inéditas (entre elas uma versão arrepiante de Insensatez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Clara teve uma carreira singular. Começou como intérprete de cançonetas românticas, mas a partir de seu quarto álbum, lançado em 1971, ampliou seu repertório para sambas e outros gêneros de tradição afro-brasileira. Um dos incentivadores da mudança foi o cantor Jair Rodrigues, que não se conformava em vê-la derramar sua voz num repertório menor. As versões dela para músicas de Nelson Cavaquinho (Juízo Final), Candeia (O Mar Serenou) e Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho (Alvorecer) são irretocáveis.

 

DVD

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Juliette e Reno: realismo à francesa


Fuso Horário do Amor
(Décalage Horaire,
França/Inglaterra, 2003. Europa) – Num saguão lotado de aeroporto, Juliette Binoche, vestida e maquiada com exagero, vai fazer um café na máquina à disposição dos passageiros. Sem jeito, ela trai o medo dos botões, não sabe onde pôr a xícara, hesita sobre pegar ou não um bolinho. Sem dizer palavra, a atriz expõe a patética fragilidade e, não obstante, a determinação de sua personagem, Rose – que, em fuga de um mau relacionamento, passa uma noite com Félix (Jean Reno), que está viajando para reatar um mau casamento. É um filme de fórmula: homem e mulher percebem que a soma de suas infelicidades resulta não em desgraça em dobro, mas em alegria. O que o torna atraente é um certo realismo à francesa, a simpatia de Reno e a atuação soberba de Juliette.

 

 

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