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Ponto
de vista: Lya Luft
Anjos
montados
em porcos
"Embora
sejamos tantas vezes bons,
magníficos, altruístas, generosos, capazes
do belo, até do
extraordinário, algo espreita
em nós, pronto para o salto, a mordida, o gosto
de sangue na
boca e o brilho demente no olhar"
Nem
é original dizer que somos feras mal domesticadas: homens
e mulheres das cavernas, com um mísero verniz que a qualquer
contato mais direto pode estalar, revelando dentes prontos para
dilacerar carnes indefesas. O Velho, isto é, Freud, desvendou-nos,
ao estudar essa estranha essência chamada alma humana, com
suas paixões, sua morbidez e seus encantos, tudo brotando
da sombra com flores de magia ou monstruosidade.
Nos
sonhos, revelam-se algumas coisas. "Sonhos são espumas"
esse era um dos ditados ouvidos na minha infância. Naquele
tempo, avós sentenciosas previam chuva, vento, morte, nascimento,
com uma sabedoria feminina atávica tantas vezes confirmada
que eu acabava acreditando mais nela do que em tudo que estava nos
livros da biblioteca de meu erudito pai.
Espumas
subindo à superfície da nossa trevosa personalidade
oculta ou à flor das águas do sono. Pensei nisso lendo
sobre as atrocidades cometidas pelos soldados americanos contra
prisioneiros no remoto Iraque. Não hão de ser piores
do que as que se cometem em prisões pelo mundo afora. Foram
apenas mais noticiadas. Não hão de ser mais cruéis,
ainda, do que a secreta violência exercida contra crianças,
adolescentes ou mulheres em muitos lares.
A
violência familiar ocupa páginas de jornais, teses
de psicologia, sites de internet. Minha alma se arrepia: quem somos
no fundo, quem nos habita, que monstro é esse, muito mais
antigo do que a mais antiga memória de nosso inconsciente?
Ilustração Ale Setti
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Não sei. Mas sei que ele mora em todos nós. Morava
em mim quando, criança de 5 ou 6 anos, eu puxava uma pobre
minhoca pelas duas pontas (qual a cabeça, qual o rabo?),
até ela rebentar soltando uma gosma amarelada. Prendia um
pedaço ainda vivo e trêmulo no anzol de alfinete e
pescava tranqüilamente ao lado de meu pai no minúsculo
lago no fundo de nossa propriedade. Por cima de nossa cabeça,
o céu calmo de cidade do interior. Ao nosso lado, o pomar
com aroma de flor de laranjeira. Mais acima, o roseiral de minha
mãe e, mais adiante ainda, a casa com o terraço de
onde eu sonhava na rede, vendo os morros azuis que rodeavam a cidade.
Ali moravam os seres de contos de fadas: o unicórnio, as
princesas, os anões, a Branca de Neve. Mas também
Joãozinho e Maria abandonados pelo pai e pela mãe
porque havia pouca comida. E assim começava o terror.
Tudo
muito esquisito.
Não
é preciso ser um serial killer. Pode ser o profissional que
trai o amigo por ambicionar seu cargo; a mulher que calunia outra
por mero ressentimento; ou simplesmente alguém querendo ver
o circo pegar fogo. Embora sejamos tantas vezes bons, magníficos,
altruístas, generosos, capazes do belo, até do extraordinário,
algo espreita em nós, pronto para o salto, a mordida, o gosto
de sangue na boca e o brilho demente no olhar. Algo que quer o sofrimento
da vítima, aprecia seus gritos, tem prazer com sua humilhação:
é o monstruoso que também somos. E que precisamos,
a cada hora de cada dia, domesticar, controlar, sublimar.
O
homem é um anjo montado num porco, disse Tomás de
Aquino. O problema é que, de vez em quando, esse precário
equilíbrio desanda, e aí salve-se quem puder.
Salvemo-nos.
Lya Luft é escritora
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