Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Ponto de vista: Lya Luft
Anjos montados
em porcos

"Embora sejamos tantas vezes bons,
magníficos, altruístas, generosos, capazes
do belo, até
do extraordinário, algo espreita
em nós, pronto para o salto, a mordida, o gosto
de sangue
na boca e o brilho demente no olhar"

Nem é original dizer que somos feras mal domesticadas: homens e mulheres das cavernas, com um mísero verniz que a qualquer contato mais direto pode estalar, revelando dentes prontos para dilacerar carnes indefesas. O Velho, isto é, Freud, desvendou-nos, ao estudar essa estranha essência chamada alma humana, com suas paixões, sua morbidez e seus encantos, tudo brotando da sombra com flores de magia ou monstruosidade.

Nos sonhos, revelam-se algumas coisas. "Sonhos são espumas" – esse era um dos ditados ouvidos na minha infância. Naquele tempo, avós sentenciosas previam chuva, vento, morte, nascimento, com uma sabedoria feminina atávica tantas vezes confirmada que eu acabava acreditando mais nela do que em tudo que estava nos livros da biblioteca de meu erudito pai.

Espumas subindo à superfície da nossa trevosa personalidade oculta ou à flor das águas do sono. Pensei nisso lendo sobre as atrocidades cometidas pelos soldados americanos contra prisioneiros no remoto Iraque. Não hão de ser piores do que as que se cometem em prisões pelo mundo afora. Foram apenas mais noticiadas. Não hão de ser mais cruéis, ainda, do que a secreta violência exercida contra crianças, adolescentes ou mulheres em muitos lares.

A violência familiar ocupa páginas de jornais, teses de psicologia, sites de internet. Minha alma se arrepia: quem somos no fundo, quem nos habita, que monstro é esse, muito mais antigo do que a mais antiga memória de nosso inconsciente?

Ilustração Ale Setti


Não sei. Mas sei que ele mora em todos nós. Morava em mim quando, criança de 5 ou 6 anos, eu puxava uma pobre minhoca pelas duas pontas (qual a cabeça, qual o rabo?), até ela rebentar soltando uma gosma amarelada. Prendia um pedaço ainda vivo e trêmulo no anzol de alfinete e pescava tranqüilamente ao lado de meu pai no minúsculo lago no fundo de nossa propriedade. Por cima de nossa cabeça, o céu calmo de cidade do interior. Ao nosso lado, o pomar com aroma de flor de laranjeira. Mais acima, o roseiral de minha mãe e, mais adiante ainda, a casa com o terraço de onde eu sonhava na rede, vendo os morros azuis que rodeavam a cidade. Ali moravam os seres de contos de fadas: o unicórnio, as princesas, os anões, a Branca de Neve. Mas também Joãozinho e Maria abandonados pelo pai e pela mãe porque havia pouca comida. E assim começava o terror.

Tudo muito esquisito.

Não é preciso ser um serial killer. Pode ser o profissional que trai o amigo por ambicionar seu cargo; a mulher que calunia outra por mero ressentimento; ou simplesmente alguém querendo ver o circo pegar fogo. Embora sejamos tantas vezes bons, magníficos, altruístas, generosos, capazes do belo, até do extraordinário, algo espreita em nós, pronto para o salto, a mordida, o gosto de sangue na boca e o brilho demente no olhar. Algo que quer o sofrimento da vítima, aprecia seus gritos, tem prazer com sua humilhação: é o monstruoso que também somos. E que precisamos, a cada hora de cada dia, domesticar, controlar, sublimar.

O homem é um anjo montado num porco, disse Tomás de Aquino. O problema é que, de vez em quando, esse precário equilíbrio desanda, e aí salve-se quem puder.

Salvemo-nos.


Lya Luft é escritora

 
 
 
 
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