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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Por
onde andará
Alysson Paulinelli?
Ou:
os enganos
e desenganos caboclos
decorrentes da má interpretação
das
coisas americanas
O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva insinuou, num encontro com deputados,
na quarta-feira, que a reportagem do New York Times sobre
seus supostos exageros na bebida pode estar ligada a sua política
externa. "As pessoas pensaram que o Brasil ficaria submisso diante
da geografia comercial existente", disse. O ministro Guido Mantega
bateu em tecla semelhante: "O presidente passou a incomodar muita
gente, com sua política externa mais autônoma". Já
o ministro Luiz Gushiken elaborou mais, e sapecou uma frase de cientista
político. Para ele, a reportagem está "a serviço
de posturas de governos centrais que desprezam a soberania alheia,
buscam interferir em questões internas e tentam impor visão
unilateral sobre questões que, num mundo cada vez mais complexo,
exigem outra ótica de solução para os conflitos".
Nada
como uma boa teoria conspiratória. Em certas horas, elas
confortam o espírito. Talvez nenhuma dessas manifestações
reflita o que realmente pensam seus formuladores. Seriam manobras
diversionistas. Mas, se refletirem, indicam algo significativo:
um estado de confusão nas relações mentais
com os Estados Unidos. Se há algo ainda a comentar, em todo
esse caso Lula-New York Times-Larry Rohter, é esse
aspecto da questão. Ele revela deformações,
no modo de se relacionar com as coisas americanas, piores do que
as causadas pela bebida. Para começar, a própria reação
extremada à reportagem só se explica por uma visão
inflada dos efeitos que ela poderia produzir. Claro, a reportagem
era em inglês. Claro, foi publicada nos EUA. E, claro, saiu
no New York Times. A reação foi de choque e
pasmo. Um pouco de moderação, no entanto, não
no consumo de bebidas, mas no de fantasias caboclas, teria reconduzido
à constatação de que reportagens isoladas e
inconsistentes, mesmo quando escritas em inglês e publicadas
no New York Times, têm vida curta. São como
mariposas que nascem desesperadas em busca da luz e, tão
logo a encontram, morrem.
Outra
deformação é confundir o governo dos EUA com
o New York Times. Por "geografia comercial existente" Lula,
ao que tudo indica, quis se referir aos termos injustos do comércio
mundial. Mais especificamente, parecia ter em mente a recente vitória
do Brasil na Organização Mundial do Comércio
contra os subsídios americanos aos produtores de algodão.
Quem é o Brasil para desafiar nossos interesses?, teriam
raciocinado os americanos. Em resposta, o New York Times
xingou o presidente brasileiro. Deu para entender? Daria, não
fosse o detalhe de que o New York Times é contra os
subsídios à agricultura americana, e a favor da luta
dos países pobres para derrubá-los. Quando da decisão
da OMC, publicou editorial afirmando que o governo de Washington,
em vez de recorrer dela, deveria obedecer-lhe de imediato.
Gushiken
viaja mais longe. Naquele seu linguajar atormentado, em que, a pretexto
de honrar a erudição, acaba por vitimar a clareza,
o que parece fazer é comparar os casos do Iraque e do Brasil.
A "visão unilateral" é provável alusão
ao "unilateralismo" americano, tão criticado desde que o
governo Bush embarcou em sua aventura-solo contra Saddam Hussein.
Refere-se ainda o ministro ao "desprezo à soberania alheia"
e a métodos condenáveis de "solução
dos conflitos". Era o Iraque, agora dá quase para apostar,
que lhe amparava o raciocínio. Assim como no Iraque o unilateralismo
e o desrespeito à soberania conduziram à guerra, no
Brasil tomaram a forma, igualmente insidiosa, ainda que menos letal,
de injúria ao presidente. Resta que não foi o governo
Bush, mas o New York Times que falou mal de Lula. De novo,
confundem-se as duas entidades. E ocorre que o New York Times,
flor mais vistosa da tendência que nos EUA chamam de "liberal",
o que lá é quase sinônimo de esquerdismo, não
só se opõe, nos editoriais, à guerra de Bush
como abriga entre os colunistas alguns de seus críticos mais
ferozes.
O
que vem dos EUA tanto ofende quanto deslumbra do mesmo modo desarrazoado.
Foi muito lembrado o fato de a revista Time, recentemente,
ter incluído Lula entre as 100 pessoas mais influentes do
mundo. Sim, senhor, um dos 100! Como pode agora o New York Times
dizer o que disse dele? O próprio embaixador do Brasil em
Washington, Roberto Abdenur, mencionou o fato numa carta de protesto
que enviou ao jornal. Ora, para se ter idéia da consistência
de semelhantes listas, lembremo-nos de outra, divulgada há
trinta anos pela mesma revista Time, que pretendia elencar
150 futuros líderes mundiais. Dois brasileiros nela figuravam:
o então deputado Célio Borja e o então ministro
da Agricultura Alysson Paulinelli. Célio Borja até
que fez carreira, de político e jurista, embora sempre longe
de uma posição da qual pudesse comandar o mundo. Já
Alysson Paulinelli... por onde andará Paulinelli? A reportagem
da Time não foi suficiente para alavancar-lhe uma
carreira de alcance planetário. Da mesma forma, a reportagem
do New York Times dificilmente seria capaz de abalar a reputação
de Lula, tivesse sido deixada em sossego.
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