Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Por onde andará
Alysson Paulinelli?

Ou: os enganos e desenganos caboclos
decorrentes da má interpretação das
coisas
americanas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva insinuou, num encontro com deputados, na quarta-feira, que a reportagem do New York Times sobre seus supostos exageros na bebida pode estar ligada a sua política externa. "As pessoas pensaram que o Brasil ficaria submisso diante da geografia comercial existente", disse. O ministro Guido Mantega bateu em tecla semelhante: "O presidente passou a incomodar muita gente, com sua política externa mais autônoma". Já o ministro Luiz Gushiken elaborou mais, e sapecou uma frase de cientista político. Para ele, a reportagem está "a serviço de posturas de governos centrais que desprezam a soberania alheia, buscam interferir em questões internas e tentam impor visão unilateral sobre questões que, num mundo cada vez mais complexo, exigem outra ótica de solução para os conflitos".

Nada como uma boa teoria conspiratória. Em certas horas, elas confortam o espírito. Talvez nenhuma dessas manifestações reflita o que realmente pensam seus formuladores. Seriam manobras diversionistas. Mas, se refletirem, indicam algo significativo: um estado de confusão nas relações mentais com os Estados Unidos. Se há algo ainda a comentar, em todo esse caso Lula-New York Times-Larry Rohter, é esse aspecto da questão. Ele revela deformações, no modo de se relacionar com as coisas americanas, piores do que as causadas pela bebida. Para começar, a própria reação extremada à reportagem só se explica por uma visão inflada dos efeitos que ela poderia produzir. Claro, a reportagem era em inglês. Claro, foi publicada nos EUA. E, claro, saiu no New York Times. A reação foi de choque e pasmo. Um pouco de moderação, no entanto, não no consumo de bebidas, mas no de fantasias caboclas, teria reconduzido à constatação de que reportagens isoladas e inconsistentes, mesmo quando escritas em inglês e publicadas no New York Times, têm vida curta. São como mariposas que nascem desesperadas em busca da luz e, tão logo a encontram, morrem.

Outra deformação é confundir o governo dos EUA com o New York Times. Por "geografia comercial existente" Lula, ao que tudo indica, quis se referir aos termos injustos do comércio mundial. Mais especificamente, parecia ter em mente a recente vitória do Brasil na Organização Mundial do Comércio contra os subsídios americanos aos produtores de algodão. Quem é o Brasil para desafiar nossos interesses?, teriam raciocinado os americanos. Em resposta, o New York Times xingou o presidente brasileiro. Deu para entender? Daria, não fosse o detalhe de que o New York Times é contra os subsídios à agricultura americana, e a favor da luta dos países pobres para derrubá-los. Quando da decisão da OMC, publicou editorial afirmando que o governo de Washington, em vez de recorrer dela, deveria obedecer-lhe de imediato.

Gushiken viaja mais longe. Naquele seu linguajar atormentado, em que, a pretexto de honrar a erudição, acaba por vitimar a clareza, o que parece fazer é comparar os casos do Iraque e do Brasil. A "visão unilateral" é provável alusão ao "unilateralismo" americano, tão criticado desde que o governo Bush embarcou em sua aventura-solo contra Saddam Hussein. Refere-se ainda o ministro ao "desprezo à soberania alheia" e a métodos condenáveis de "solução dos conflitos". Era o Iraque, agora dá quase para apostar, que lhe amparava o raciocínio. Assim como no Iraque o unilateralismo e o desrespeito à soberania conduziram à guerra, no Brasil tomaram a forma, igualmente insidiosa, ainda que menos letal, de injúria ao presidente. Resta que não foi o governo Bush, mas o New York Times que falou mal de Lula. De novo, confundem-se as duas entidades. E ocorre que o New York Times, flor mais vistosa da tendência que nos EUA chamam de "liberal", o que lá é quase sinônimo de esquerdismo, não só se opõe, nos editoriais, à guerra de Bush como abriga entre os colunistas alguns de seus críticos mais ferozes.

O que vem dos EUA tanto ofende quanto deslumbra do mesmo modo desarrazoado. Foi muito lembrado o fato de a revista Time, recentemente, ter incluído Lula entre as 100 pessoas mais influentes do mundo. Sim, senhor, um dos 100! Como pode agora o New York Times dizer o que disse dele? O próprio embaixador do Brasil em Washington, Roberto Abdenur, mencionou o fato numa carta de protesto que enviou ao jornal. Ora, para se ter idéia da consistência de semelhantes listas, lembremo-nos de outra, divulgada há trinta anos pela mesma revista Time, que pretendia elencar 150 futuros líderes mundiais. Dois brasileiros nela figuravam: o então deputado Célio Borja e o então ministro da Agricultura Alysson Paulinelli. Célio Borja até que fez carreira, de político e jurista, embora sempre longe de uma posição da qual pudesse comandar o mundo. Já Alysson Paulinelli... por onde andará Paulinelli? A reportagem da Time não foi suficiente para alavancar-lhe uma carreira de alcance planetário. Da mesma forma, a reportagem do New York Times dificilmente seria capaz de abalar a reputação de Lula, tivesse sido deixada em sossego.

 
 
 
 
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