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Diogo
Mainardi
Abstinência
da razão
"A
vida pública nacional é uma mistura
de hipocrisia, conchavo e acobertamento.
Pior ainda é essa gente que nos governa"
Não
sei se o desempenho de Lula é afetado pelo consumo de álcool.
Pode ser que sim, pode ser que não. Não descarto inclusive
que tenha um efeito benéfico sobre ele. Se Lula parar de
beber, nada garante que não decrete moratória na mesma
hora. O correspondente do New York Times não disse
que o presidente bebe demais. Não disse que o álcool
afeta seu desempenho. Não disse que essa é uma preocupação
nacional. A única referência nesse sentido está
contida no título da reportagem. Lula só leu a primeira
linha, aquela com letras bem grandes. O que o correspondente do
New York Times disse foi apenas que alguns políticos
e jornalistas começam a se perguntar se o hábito de
beber do presidente não estaria afetando sua capacidade de
governar. Não há nada de errado em se perguntar uma
coisa dessas. Errado seria não se perguntar. Nas rodas de
políticos, nas redações de jornais, em reuniões
de empresários e no cineminha do Alvorada, é comum
ouvir essa preocupação. Pode ser injusta, pode ser
ofensiva, mas está lá, correndo à boca pequena.
Lula
disse que um presidente não tem de responder a sandices como
a do correspondente do New York Times. Claro que tem. Não
é sandice nenhuma. Pelo contrário. Considerando que
a imprensa não se cansa de retratá-lo com um copo
na mão, é perfeitamente legítimo o interesse
em saber quantas doses de uísque ele toma, e se isso pode
prejudicar seu desempenho. Na realidade, não há nenhuma
pergunta que não possa ser feita a um político. E
não há nenhuma pergunta que um político possa
se recusar a responder. Lula não admite isso. Acostumou-se
com uma imprensa que está sempre a seu serviço, domesticada,
oferecendo cumplicidade. O espanto do presidente foi tão
grande que a melhor reação que lhe ocorreu foi anular
o visto do correspondente do New York Times e chutá-lo
para longe do país. É a atitude mais ignóbil
da história do Brasil democrático. Lula agiu como
a rainha de copas de Alice no País das Maravilhas,
que manda cortar a cabeça de quem a contraria.
O
presidente pode deportar quem ele quiser, mas isso não altera
o fato de seu consumo de bebidas alcoólicas ser um tema político
relevante. Em primeiro lugar, o gosto por uma cachacinha foi usado
como peça de propaganda eleitoral, reforçando sua
imagem popular, contraposta à do pedante Fernando Henrique
Cardoso. Ou seja, rendeu-lhe votos. Em segundo lugar, coloca-o na
mão dos políticos. Quem espalha aos jornalistas que
o presidente bebeu nesta ou naquela reunião reservada são
os deputados e senadores dos partidos aliados. Qual o motivo? Não
seria para enfraquecer o governo e, dessa forma, forçar a
liberação de emendas e a nomeação de
seus apadrinhados para órgãos públicos? O copo
de uísque do presidente, nesse caso, teria um preço
elevado para o contribuinte.
O
New York Times feriu o orgulho pátrio. Políticos
e jornalistas saíram em defesa do presidente, condenando
a reportagem. Os mesmos políticos e jornalistas que, em privado,
trocam comentários maliciosos sobre o assunto. A vida pública
nacional é uma mistura de hipocrisia, conchavo e acobertamento.
Pior ainda é essa gente obtusa e truculenta que nos governa.
Guido Mantega disse que o New York Times obedece a interesses
econômicos estrangeiros. Luiz Gushiken alertou contra ameaças
à soberania nacional. José Genoíno sugeriu
expulsar o correspondente do jornal, idéia prontamente acatada
pelo presidente. Como sempre, descambamos para o nacionalismo autoritário.
Como sempre, caímos na bananice. Como sempre, erramos do
começo ao fim.
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