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Em
foco: Sérgio Abranches
Limites
imprecisos
"O
ataque pessoal injurioso não
pode
servir de pretexto para
o exercício
atrabiliário do
poder presidencial"
Era
uma reportagem malfeita, tecnicamente falha, atacando a pessoa do
presidente Luiz Inácio. Gerou indignação, por
ser frágil e gratuita. O presidente recebeu a solidariedade
geral. Mas, por causa dos limites imprecisos entre o particular
e o público, entre o pessoal e o institucional, ele transformou-a
num caso de abuso de poder.
Para
se defender de um ataque primário, o presidente Luiz Inácio
agrediu as instituições democráticas, abusou
das prerrogativas do cargo de presidente da República e feriu
a Constituição. Fez uso de uma invenção
jurídica do regime autoritário. Tratou o jornalista
Larry Rother como os militares trataram Chico Pinto, do PT da Bahia,
por ter ofendido o ditador chileno Augusto Pinochet.
Os
impulsos do governo são autoritários e seu compromisso
institucional, difuso. Contrariado, o impulso é proibir,
intervir, expulsar. Há sempre, subjacente às atitudes
do governo, uma disjuntiva perigosa entre a "legalidade" e a "legitimidade"
da regra. Isso porque está sempre indeciso entre ser movimento
social e ser autoridade constituída.
Ilustração Ale Setti
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Proíbe o bingo, num rompante, como resposta ao caso Waldomiro
Diniz. Não como resultado de uma análise dos efeitos
colaterais da proliferação e sofisticação
do jogo, originalmente imaginado como fonte de financiamento para
os esportes. Quando o Congresso cria uma comissão especial
para examinar o salário mínimo, por omissão
das lideranças governistas, inclina-se a atropelar a comissão
regimental e levar a questão para o plenário, onde
se julga mais forte para aprovar o que quer. O ministro das Cidades
título que revela certo desconcerto jurisdicional
assiste impassível, se não anuente, a uma assembléia
decidir pela ocupação de prédios públicos.
O chanceler justifica a expulsão do jornalista dizendo que
ele feriu a "honra nacional", e soma a imprecisão conceitual
aos limites incertos entre o público e o privado. O próprio
presidente disse que o artigo atingiu a "instituição
da Presidência da República". Não. Atacou a
pessoa do presidente. A instituição passou ao largo,
nos dois casos: do artigo e da reação governamental.
O ataque foi à pessoa, não à Presidência.
A resposta foi uma retaliação pessoal, usando os poderes
institucionais do governo.
O
porta-voz da Presidência, André Singer, escreveu na
Folha de S.Paulo que "a liberdade de imprensa não
pode servir de pretexto para ser leniente com quem difama, injuria
e calunia". Tem toda a razão. Por isso todo país democrático
tem leis que permitem à vítima de ataque injurioso
buscar reparação. Um bom jurista dos EUA saberia correlacionar
as falhas técnicas do artigo com os preceitos jurídicos
que permitiriam um processo por danos morais. Mas o dano moral é
uma agressão à pessoa, não às instituições.
Instituições são impessoais. Lesões
institucionais não são moralmente reparáveis.
O estrago institucional já foi feito e não será
corrigido com a anulação da cassação
do visto. Uma retratação do jornal repararia a ofensa
moral.
O
ataque pessoal injurioso não pode servir de pretexto para
o exercício atrabiliário do poder presidencial nem
para violar o princípio da liberdade de imprensa, não
apenas com a expulsão arbitrária do jornalista mas,
sobretudo, com a ameaça aos demais jornalistas, para que
"não pensem que podem fazer igual, sem se preocupar com punições".
Não estão nas atribuições constitucionais
da Presidência o direito e a autoridade de vigiar e punir.
Nas
ditaduras, as autoridades têm mais liberdade e mais prerrogativas
pessoais que os cidadãos. Nas democracias, o cidadão
eleito para exercer o cargo de presidente da República deve
abrir mão de uma série de liberdades, porque investido
de poderes e deveres inerentes ao cargo. É uma investidura
institucional. A Presidência da República a
autoridade pública sofre constrangimentos maiores
que o cidadão comum. Essas limitações são
indissociáveis das prerrogativas institucionais. O presidente
nunca encarna as instituições, ele se torna o seu
máximo servidor. Um ataque moral ao presidente é sempre
pessoal ou político. Nunca institucional. Uma tentativa de
assassinato ou golpe é um ato contra as instituições,
porque tenta anular, pela força, uma decisão da maioria
da sociedade.
A
democracia se define pelas liberdades que assegura aos cidadãos
e pelos limites que impõe aos que exercem o poder de Estado.
Se esses limites se tornam imprecisos, torna-se precária
a garantia de que esses poderes não serão usados por
capricho pessoal contra os cidadãos.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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