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Carta
ao leitor
O triunfo do erro
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| O
inglês John Milton: o contrário do que escreveu o porta-voz
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O episódio
da cassação do visto do correspondente do jornal The
New York Times no Brasil, Larry Rohter, representou um golpe
contra um dos pilares da democracia: a liberdade de imprensa. Ao
contrário do que escreveu na Folha de S. Paulo o porta-voz
da Presidência da República, o André Singer,
um dos idealizadores da funesta decisão do governo, trata-se
de um princípio que garante, sim, a possibilidade de que
um jornal ou revista publique notícias ou opiniões
cujos atingidos considerem irresponsáveis. Para dar conta
das eventuais ofensas, existe o recurso à Justiça
comum, à qual cabe julgar se houve dano, determinar sua extensão
e estabelecer a reparação correspondente. Expulsar
o jornalista americano usando uma lei do tempo da ditadura militar
significa desembainhar uma espada sobre a cabeça de todos
os correspondentes estrangeiros baseados no Brasil e, no limite,
o cerceamento à própria atividade profissional dos
jornalistas brasileiros. Ao fazer isso, o governo avoca a si o direito
de dizer quais são os assuntos que podem ser abordados e
quais não. Sob esse ponto de vista, a cassação
do visto de Larry Rohter nada mais é do que uma forma de
censura.
A
liberdade de expressão e de imprensa é assegurada
pela Constituição brasileira promulgada em 1988. Ela
ganhou pela primeira vez a moldura de um imprescindível instituto
democrático em 1791, com a Primeira Emenda à Constituição
dos Estados Unidos. Não surgiu por favor dos poderosos, e
sim por obra dos que se entregaram à luta pelo direito de
opinião e de informação. Um dos primeiros foi
o poeta inglês John Milton. Em sua Areopagítica,
de 1644, ele defendeu a idéia de que um autor podia ser processado
criminalmente. Mas Milton deixou claro que eles não podiam
ser cerceados ou seus escritos censurados, pois, nas sociedades
civilizadas, a verdade sempre triunfaria sobre o erro. Se o presidente
Lula sentiu-se atingido pela reportagem de Larry Rohter, que tomasse
as medidas judiciais ao alcance de qualquer cidadão. Ao cassar
o visto do jornalista, Lula confundiu sua pessoa com o Estado brasileiro,
como se a figura do presidente fosse um dos elementos desse Estado.
Como bem lembrou o advogado Sergio Bermudes, não é.
Elementos do Estado são o povo, a soberania e o território
e nenhum deles foi ameaçado pela reportagem do correspondente
do New York Times. A decisão do governo é,
assim, o triunfo do erro sobre a liberdade de expressão.
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