Edição 1854 . 19 de maio de 2004

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André Petry
Crimes invisíveis

"Ninguém critica, mas há, neste momento, 33
pessoas presas na China cujo crime foi usar a

internet para fins subversivos, como denunciar
violações de direitos humanos"

Em setembro do ano passado, depois de discursar na tribuna das Nações Unidas em Nova York e dar uma passada no México, o presidente Lula, no trajeto de volta ao Brasil, resolveu fazer uma escala em Cuba, onde se encontrou com seu velho amigo de idéias e charutos, o ditador Fidel Castro. Na época, a visita presidencial a Cuba ganhou críticas rasgadas de meio mundo. Comentou-se que o discurso de Lula na ONU fora certeiro e sua visita ao México fora estratégica, mas a escala em Cuba fora um desastre completo. Afinal, o governo cubano acabara de executar três oposicionistas e encarcerar outros 75 cubanos cujo crime fora discordar de Fidel, uma brutalidade que mereceu repúdio público até do escritor português José Saramago, um amante do regime cubano. As críticas à escala cubana de Lula estavam corretas, na medida em que não convém ao Brasil emitir sinais de alegre convívio com um governo que, como o de Cuba, cerceia direitos políticos, restringe a liberdade de expressão, viola direitos humanos. Enfim, um governo que desrespeita valores que a democracia brasileira faz questão de prezar.

Na semana que vem, o presidente Lula, acompanhado de uma gigantesca comitiva de empresários, desembarcará na China para uma visita de uma semana que vem sendo festejada como um dos mais adequados empreendimentos da diplomacia brasileira. E onde estão as críticas? Afinal, o governo de Pequim cerceia os direitos políticos: há oito partidos políticos legais no país, mas ninguém é tolo de achar que cumprem um papel de oposicionistas ou mesmo que poderão destronar o Partido Comunista, no poder desde a revolução de 1949. Afinal, o governo de Pequim restringe a liberdade de expressão: recentemente, os veículos de comunicação foram convidados a evitar a infiltração da ideologia ocidental na forma de trajes extravagantes e cabelos coloridos. Um chinês está preso por ter escrito artigos pedindo independência política para os sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais. Há, neste momento, 33 pessoas presas na China cujo crime foi usar a internet para fins subversivos, como denunciar violações de direitos humanos. A Anistia Internacional informa que, em 2002, a China fuzilou mais de 1.000 cidadãos – entre eles, opositores do regime.

A diferença do tratamento que se dá a Cuba e à China explica-se em números. A China tem 1,3 bilhão de habitantes, cresce à razão de 9,5% e sua economia tem um peso descomunal no mercado mundial. Cuba, coitada, tem apenas 11 milhões de habitantes, menos do que a região metropolitana de São Paulo. Cuba, coitada, é uma ilhota falida cujo sucesso ou insucesso econômico não mexe com um nervo do mercado mundial. A diferença de tratamento, portanto, é apenas uma expressão da preponderância do consumidor sobre o cidadão. Se é para fazer negócio, não importa se estamos diante de uma ditadura ou de uma democracia. Não há nenhuma novidade nisso. É um comportamento anterior mesmo ao processo de mundialização da economia. Só seria recomendável que quem gosta de criticar a relação brasileira com Cuba, mas gosta de elogiar a aproximação com a China, tivesse a honestidade de esclarecer sem pejo que o real problema não está na ditadura cubana, nas prisões, nas execuções, na censura, nas violações de direitos humanos. Está na sua pobreza e insignificância comercial.

 
 
 
 
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