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André
Petry
Crimes invisíveis
"Ninguém
critica, mas há, neste momento, 33
pessoas presas na China cujo crime foi usar a
internet
para fins subversivos, como denunciar
violações de direitos humanos"
Em
setembro do ano passado, depois de discursar na tribuna das Nações
Unidas em Nova York e dar uma passada no México, o presidente
Lula, no trajeto de volta ao Brasil, resolveu fazer uma escala em
Cuba, onde se encontrou com seu velho amigo de idéias e charutos,
o ditador Fidel Castro. Na época, a visita presidencial a
Cuba ganhou críticas rasgadas de meio mundo. Comentou-se
que o discurso de Lula na ONU fora certeiro e sua visita ao México
fora estratégica, mas a escala em Cuba fora um desastre completo.
Afinal, o governo cubano acabara de executar três oposicionistas
e encarcerar outros 75 cubanos cujo crime fora discordar de Fidel,
uma brutalidade que mereceu repúdio público até
do escritor português José Saramago, um amante do regime
cubano. As críticas à escala cubana de Lula estavam
corretas, na medida em que não convém ao Brasil emitir
sinais de alegre convívio com um governo que, como o de Cuba,
cerceia direitos políticos, restringe a liberdade de expressão,
viola direitos humanos. Enfim, um governo que desrespeita valores
que a democracia brasileira faz questão de prezar.
Na
semana que vem, o presidente Lula, acompanhado de uma gigantesca
comitiva de empresários, desembarcará na China para
uma visita de uma semana que vem sendo festejada como um dos mais
adequados empreendimentos da diplomacia brasileira. E onde estão
as críticas? Afinal, o governo de Pequim cerceia os direitos
políticos: há oito partidos políticos legais
no país, mas ninguém é tolo de achar que cumprem
um papel de oposicionistas ou mesmo que poderão destronar
o Partido Comunista, no poder desde a revolução de
1949. Afinal, o governo de Pequim restringe a liberdade de expressão:
recentemente, os veículos de comunicação foram
convidados a evitar a infiltração da ideologia ocidental
na forma de trajes extravagantes e cabelos coloridos. Um chinês
está preso por ter escrito artigos pedindo independência
política para os sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais.
Há, neste momento, 33 pessoas presas na China cujo crime
foi usar a internet para fins subversivos, como denunciar violações
de direitos humanos. A Anistia Internacional informa que, em 2002,
a China fuzilou mais de 1.000 cidadãos
entre eles, opositores do regime.
A
diferença do tratamento que se dá a Cuba e à
China explica-se em números. A China tem 1,3 bilhão
de habitantes, cresce à razão de 9,5% e sua economia
tem um peso descomunal no mercado mundial. Cuba, coitada, tem apenas
11 milhões de habitantes, menos do que a região metropolitana
de São Paulo. Cuba, coitada, é uma ilhota falida cujo
sucesso ou insucesso econômico não mexe com um nervo
do mercado mundial. A diferença de tratamento, portanto,
é apenas uma expressão da preponderância do
consumidor sobre o cidadão. Se é para fazer negócio,
não importa se estamos diante de uma ditadura ou de uma democracia.
Não há nenhuma novidade nisso. É um comportamento
anterior mesmo ao processo de mundialização da economia.
Só seria recomendável que quem gosta de criticar a
relação brasileira com Cuba, mas gosta de elogiar
a aproximação com a China, tivesse a honestidade de
esclarecer sem pejo que o real problema não está na
ditadura cubana, nas prisões, nas execuções,
na censura, nas violações de direitos humanos. Está
na sua pobreza e insignificância comercial.
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