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Ponto
de vista: Lya Luft
Bondades e obrigações
"Um governo não
age por 'bondade':
tem obrigação de proporcionar
dignidade
e oportunidades aos cidadãos,
do
mais simples ao mais privilegiado"
Um fio de esperança, uma luz na sombra:
muitos dos falsos colonos que criminosamente invadiram e devastaram
propriedades privadas no Rio Grande do Sul estão sendo indiciados.
Espero que isso tenha um resultado real, que seja tratado com enorme
rigor e levado às últimas conseqüências.
Que atinja os outros milhares deles, que continuam
cometendo crimes pelo resto do país. Isso é uma "inclusão"
necessária.
E poderemos começar a respirar melhor.
Minha amiga anda com uma criança pela
mão, numa rua movimentada de uma não muito grande
cidade. Um adolescente a aborda, agressivo, pedindo dinheiro. Olhos
injetados, meio descoordenado, ele está evidentemente sob
efeito de drogas.
Ela se mantém calma, diz que não
tem. Ele levanta a mão, arranha o rosto dela e se vai
tranqüilo como um deputado que acabasse de ser vergonhosamente
absolvido de culpas óbvias.
Saiu-se bem, a minha amiga. Foi só
um arranhão: podia ter sido um tiro ou uma navalhada.
Fiquei pensando nos inúmeros e intricados
motivos, pessoais e sociais, que levam tantos meninos e meninas
a cometer crimes nas nossas ruas, e a destruir suas vidas.
De uma coisa não se duvide: se dependesse
do modelo de algumas de nossas figuras públicas, a maioria
dos jovens não teria estímulo para ser honesto, trabalhar
duro, agüentar horários, disciplina e patrão,
ajudar sua família, ter vida digna e ser uma presença
positiva na comunidade.
Para que todo dia, ao chegar em casa e fechar
a porta, a gente não tivesse de pensar: "Hoje tive sorte.
Não fui assassinado, roubado, estuprado nesta guerra civil
que nos assola".
Me perdoem, mas detestei: baixaram um pacote
de benefícios para aposentados, parte de um programa maior
que chamaram de... "pacote das bondades".
Primeiro, não pude acreditar. Quem
teria batizado a pobre criança sob tão lamentável
inspiração? Mas era verdade. Eu me espantei com esse
nome de mau gosto, quase um insulto.
Um governo não age por "bondade": tem
obrigação de desempenhar otimamente seu papel
de cuidar, administrar, proporcionar dignidade e oportunidades aos
cidadãos, do mais simples ao mais privilegiado. São
eles que lhe pagam salário e outras benesses.
É dever de todo governo liberar de
impostos os medicamentos, mais onerados do que automóveis.
É seu dever investir na manutenção e melhoria
de escolas e universidades e cuidar para que seu nível seja
elevadíssimo; é seu dever eliminar as filas humilhantes
ou assassinas do INSS; é seu dever combater de verdade o
narcotráfico; é seu dever promover a paz nas cidades
e no campo, assegurando aos que ali vivem e trabalham o necessário
apoio para que se sintam dignos e protegidos.
É altíssimo dever de quem conseguiu
qualquer posto num governo, sabendo que seria onerado com sérios
compromissos, fazer de seu grupo de trabalho, de seus colaboradores,
exemplos de dignidade e honradez, estimulando a punição
dos transgressores.
Se algum nome devesse ter o tal pacote, haveria
de ser: "cumprimento das graves obrigações do governo".
Enfim, no embate entre homens honrados que
o queriam efetivar e outros que o queriam avacalhar, o relatório
da CPI dos Correios foi parar no Ministério Público.
O Ministério Público é um dos poucos redutos
de dignidade pública no país nesta fase: os ainda
insubornáveis, os não acovardados ou não cooptados,
os não farsantes.
Aos membros desse ministério, junto
com os deputados e senadores que lutaram e lutam bravamente por
trazer à tona a verdade, prová-la e obter justiça,
a esses eu respeito cada dia mais. São fonte de confiança,
na confusão em que fomos lançados, perplexos e assustados,
quase descrentes.
Lya Luft é escritora
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