Edição 1952 . 19 de abril de 2006

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Ponto de vista: Lya Luft
Bondades e obrigações

"Um governo não age por 'bondade':
tem obrigação de proporcionar dignidade
e
oportunidades aos cidadãos, do
mais
simples ao mais privilegiado"

Um fio de esperança, uma luz na sombra: muitos dos falsos colonos que criminosamente invadiram e devastaram propriedades privadas no Rio Grande do Sul estão sendo indiciados. Espero que isso tenha um resultado real, que seja tratado com enorme rigor e levado às últimas conseqüências.

Que atinja os outros milhares deles, que continuam cometendo crimes pelo resto do país. Isso é uma "inclusão" necessária.

E poderemos começar a respirar melhor.

Minha amiga anda com uma criança pela mão, numa rua movimentada de uma não muito grande cidade. Um adolescente a aborda, agressivo, pedindo dinheiro. Olhos injetados, meio descoordenado, ele está evidentemente sob efeito de drogas.

Ela se mantém calma, diz que não tem. Ele levanta a mão, arranha o rosto dela e se vai – tranqüilo como um deputado que acabasse de ser vergonhosamente absolvido de culpas óbvias.

Saiu-se bem, a minha amiga. Foi só um arranhão: podia ter sido um tiro ou uma navalhada.

Fiquei pensando nos inúmeros e intricados motivos, pessoais e sociais, que levam tantos meninos e meninas a cometer crimes nas nossas ruas, e a destruir suas vidas.

De uma coisa não se duvide: se dependesse do modelo de algumas de nossas figuras públicas, a maioria dos jovens não teria estímulo para ser honesto, trabalhar duro, agüentar horários, disciplina e patrão, ajudar sua família, ter vida digna e ser uma presença positiva na comunidade.

Para que todo dia, ao chegar em casa e fechar a porta, a gente não tivesse de pensar: "Hoje tive sorte. Não fui assassinado, roubado, estuprado nesta guerra civil que nos assola".

Me perdoem, mas detestei: baixaram um pacote de benefícios para aposentados, parte de um programa maior que chamaram de... "pacote das bondades".

Primeiro, não pude acreditar. Quem teria batizado a pobre criança sob tão lamentável inspiração? Mas era verdade. Eu me espantei com esse nome de mau gosto, quase um insulto.

Um governo não age por "bondade": tem obrigação de desempenhar otimamente seu papel de cuidar, administrar, proporcionar dignidade e oportunidades aos cidadãos, do mais simples ao mais privilegiado. São eles que lhe pagam salário e outras benesses.

É dever de todo governo liberar de impostos os medicamentos, mais onerados do que automóveis. É seu dever investir na manutenção e melhoria de escolas e universidades e cuidar para que seu nível seja elevadíssimo; é seu dever eliminar as filas humilhantes ou assassinas do INSS; é seu dever combater de verdade o narcotráfico; é seu dever promover a paz nas cidades e no campo, assegurando aos que ali vivem e trabalham o necessário apoio para que se sintam dignos e protegidos.

É altíssimo dever de quem conseguiu qualquer posto num governo, sabendo que seria onerado com sérios compromissos, fazer de seu grupo de trabalho, de seus colaboradores, exemplos de dignidade e honradez, estimulando a punição dos transgressores.

Se algum nome devesse ter o tal pacote, haveria de ser: "cumprimento das graves obrigações do governo".

Enfim, no embate entre homens honrados que o queriam efetivar e outros que o queriam avacalhar, o relatório da CPI dos Correios foi parar no Ministério Público. O Ministério Público é um dos poucos redutos de dignidade pública no país nesta fase: os ainda insubornáveis, os não acovardados ou não cooptados, os não farsantes.

Aos membros desse ministério, junto com os deputados e senadores que lutaram e lutam bravamente por trazer à tona a verdade, prová-la e obter justiça, a esses eu respeito cada dia mais. São fonte de confiança, na confusão em que fomos lançados, perplexos e assustados, quase descrentes.

Lya Luft é escritora

 
 
 
 
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