Edição 1952 . 19 de abril de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Sem vergonha
de dizer quem é

A Daspu é a marca de pessoas que
não escondem
nem sua condição nem
o melhor nome
da atividade que abraçaram

A mais simpática grife surgida nos últimos tempos no Brasil é a Daspu. Para quem andou muito distraído nestes últimos meses, em hibernação como os ursos, ou em viagem a outros planetas, em companhia do astronauta brasileiro, a Daspu é uma linha de roupas criada por uma ONG do Rio de Janeiro dedicada à promoção das prostitutas, a Davida. A grife é um caso exemplar do que um nome é capaz. "Daspu" é um achado. Não apenas porque faz um contraponto à Daslu, loja chique de São Paulo, mas também porque anuncia, na última sílaba, toda a carga imensa de uma das palavras mais sonoras, vigorosas, ultrajantes, estigmatizantes, malditas e belas (sim, belas) da língua, palavra que não vai se escrever aqui por inteiro mas que todos sabem qual é, e que, apesar de sua rica corte de sinônimos – 127 ao todo, no dicionário Houaiss, de "alcouceira" a "zorra" –, reina com autoridade única para expressar o que expressa.

A Daspu realizou na segunda-feira um desfile de suas criações em São Paulo. "De suas criações" é modo de dizer. A grife, por enquanto, só fabrica camisetas. Algumas delas eram exibidas pelas modelos, mas no resto elas vestiam disparatadas peças de brechó, chapéus, botas, tudo muito colorido, muito p... – no bom, no ótimo sentido da palavra. "Desfile" também é modo de dizer. O que fizeram as dez modelos – três vindas do Rio, militantes da ONG Davida, as outras recrutadas ali pelas redondezas – foi ensaiar algumas evoluções na Rua Augusta, no trecho onde se concentram as boates e os hotéis de curta permanência. As moças, pelo que se intui das fotos publicadas no dia seguinte pelos jornais, estavam exuberantes (o que já era de esperar) e felizes (o que não seria necessariamente de esperar). Em vez de "desfile" e de exibição de "suas criações", o que a Daspu estava fazendo mesmo era mostrar sua cara à cidade, como já fez no Rio. Ou, talvez mais propriamente, estivesse jogando sua petulante altivez na cara da cidade.

Uma das "daspusetes" que vieram do Rio era Valquíria, a Val, de 22 anos, que dobra a profissão de prostituta com a de faxineira. Ela contou à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, que ganha 50 reais por programa e 40 reais por faxina. A faxina "demora mais e cansa mais". Val é um exemplar da categoria que a senadora Heloísa Helena chama de "exploradas filhas da classe trabalhadora". Mas, na filosofia que inspira a Daspu, tal classificação seria repudiada. Não a comiseração, mas o orgulho de ser prostituta e a busca da dignidade possível para a profissão – esta a bandeira que rege a ONG Davida. "Sonho com a p... inteira, grandiosa e fundamental", escreveu Gabriela Silva Leite, a Gabi, fundadora e líder da Davida, no último número do Beijo da Rua, o jornal da associação. O título do artigo de Gabriela é "Caminho aberto para a p... cidadã", com a particularidade de que ali não existe isso de "p" e três pontinhos – a palavra aparece na sua crua e eloqüente inteireza.

Gabriela, paulistana radicada no Rio, generosa, inteligente e articulada, foi prostituta até 1992. Desde sempre teve a intenção de criar uma associação que reunisse e defendesse a categoria. Em 1992, fundou a Davida, com um grupo de companheiras e o apoio de amigos homens. A idéia de criar uma grife que pudesse representar uma fonte de recursos para a associação já lhe ocupava a mente havia algum tempo quando, numa conversa com o designer Sylvio de Oliveira, em julho do ano passado, este teve o estalo: Daspu! O nome imaginado pelo amigo e colaborador era o impulso que faltava para fazer deslanchar o projeto. A Daslu reagiu contra a concorrente nanica com uma ameaça de processo. Menos deselegante teria sido convidar a Daspu a expor em suas dependências. Para a grife das prostitutas, o fato rendeu imediata notoriedade.

A Davida, em articulação com outras associações de prostitutas de várias partes do Brasil, promove campanhas como a de prevenção da aids. Gabriela, que aos 55 anos é mãe de dois filhos e avó de uma neta, além de mãe substituta do filho de seu companheiro, contabiliza como vitória da classe o fato de, desde 2005, o Ministério do Trabalho ter incluído a prostituição entre as ocupações reconhecidas oficialmente no país. Com isso, entre outras vantagens, criou-se a condição para que nos próximos censos o IBGE possa apurar algo que hoje é uma incógnita – quantas são as prostitutas no Brasil. Uma causa em que a Davida vem trabalhando é o apoio ao projeto do deputado Fernando Gabeira que regulamenta a profissão de prostituta.

O nome Davida remete a "mulher da vida", uma estranha maneira de dizer. Por que "da vida"? A intenção de quem, em tempos imemoriais, cunhou a expressão certamente não foi boa, mas, considerando-se que a alternativa é "da morte", resulta que é melhor, muito melhor, ser "da vida". Já Daspu é um nome que tem a marca do atrevimento. É a grife de pessoas que não têm vergonha de esconder nem sua condição nem, no abusado "pu" final, a mais precisa e cortante denominação da atividade que abraçaram.

 
 
 
 
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