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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Sem vergonha
de dizer quem é
A Daspu é a
marca de pessoas que
não escondem nem sua condição
nem
o melhor nome da atividade que abraçaram
A mais simpática grife surgida nos últimos
tempos no Brasil é a Daspu. Para quem andou muito distraído
nestes últimos meses, em hibernação como os
ursos, ou em viagem a outros planetas, em companhia do astronauta
brasileiro, a Daspu é uma linha de roupas criada por uma
ONG do Rio de Janeiro dedicada à promoção das
prostitutas, a Davida. A grife é um caso exemplar do que
um nome é capaz. "Daspu" é um achado. Não apenas
porque faz um contraponto à Daslu, loja chique de São
Paulo, mas também porque anuncia, na última sílaba,
toda a carga imensa de uma das palavras mais sonoras, vigorosas,
ultrajantes, estigmatizantes, malditas e belas (sim, belas) da língua,
palavra que não vai se escrever aqui por inteiro mas que
todos sabem qual é, e que, apesar de sua rica corte de sinônimos
– 127 ao todo, no dicionário Houaiss, de "alcouceira"
a "zorra" –, reina com autoridade única para expressar o
que expressa.
A Daspu realizou na segunda-feira um desfile de
suas criações em São Paulo. "De suas criações"
é modo de dizer. A grife, por enquanto, só fabrica
camisetas. Algumas delas eram exibidas pelas modelos, mas no resto
elas vestiam disparatadas peças de brechó, chapéus,
botas, tudo muito colorido, muito p... – no bom, no ótimo
sentido da palavra. "Desfile" também é modo de dizer.
O que fizeram as dez modelos – três vindas do Rio, militantes
da ONG Davida, as outras recrutadas ali pelas redondezas – foi ensaiar
algumas evoluções na Rua Augusta, no trecho onde se
concentram as boates e os hotéis de curta permanência.
As moças, pelo que se intui das fotos publicadas no dia seguinte
pelos jornais, estavam exuberantes (o que já era de esperar)
e felizes (o que não seria necessariamente de esperar). Em
vez de "desfile" e de exibição de "suas criações",
o que a Daspu estava fazendo mesmo era mostrar sua cara à
cidade, como já fez no Rio. Ou, talvez mais propriamente,
estivesse jogando sua petulante altivez na cara da cidade.
Uma das "daspusetes" que vieram do Rio era Valquíria,
a Val, de 22 anos, que dobra a profissão de prostituta com
a de faxineira. Ela contou à coluna de Mônica Bergamo,
na Folha de S.Paulo, que ganha 50 reais por programa e 40
reais por faxina. A faxina "demora mais e cansa mais". Val é
um exemplar da categoria que a senadora Heloísa Helena chama
de "exploradas filhas da classe trabalhadora". Mas, na filosofia
que inspira a Daspu, tal classificação seria repudiada.
Não a comiseração, mas o orgulho de ser prostituta
e a busca da dignidade possível para a profissão –
esta a bandeira que rege a ONG Davida. "Sonho com a p... inteira,
grandiosa e fundamental", escreveu Gabriela Silva Leite, a Gabi,
fundadora e líder da Davida, no último número
do Beijo da Rua, o jornal da associação. O
título do artigo de Gabriela é "Caminho aberto para
a p... cidadã", com a particularidade de que ali não
existe isso de "p" e três pontinhos – a palavra aparece na
sua crua e eloqüente inteireza.
Gabriela, paulistana radicada no Rio, generosa,
inteligente e articulada, foi prostituta até 1992. Desde
sempre teve a intenção de criar uma associação
que reunisse e defendesse a categoria. Em 1992, fundou a Davida,
com um grupo de companheiras e o apoio de amigos homens. A idéia
de criar uma grife que pudesse representar uma fonte de recursos
para a associação já lhe ocupava a mente havia
algum tempo quando, numa conversa com o designer Sylvio de Oliveira,
em julho do ano passado, este teve o estalo: Daspu! O nome imaginado
pelo amigo e colaborador era o impulso que faltava para fazer deslanchar
o projeto. A Daslu reagiu contra a concorrente nanica com uma ameaça
de processo. Menos deselegante teria sido convidar a Daspu a expor
em suas dependências. Para a grife das prostitutas, o fato
rendeu imediata notoriedade.
A Davida, em articulação com outras
associações de prostitutas de várias partes
do Brasil, promove campanhas como a de prevenção da
aids. Gabriela, que aos 55 anos é mãe de dois filhos
e avó de uma neta, além de mãe substituta do
filho de seu companheiro, contabiliza como vitória da classe
o fato de, desde 2005, o Ministério do Trabalho ter incluído
a prostituição entre as ocupações reconhecidas
oficialmente no país. Com isso, entre outras vantagens, criou-se
a condição para que nos próximos censos o IBGE
possa apurar algo que hoje é uma incógnita – quantas
são as prostitutas no Brasil. Uma causa em que a Davida vem
trabalhando é o apoio ao projeto do deputado Fernando Gabeira
que regulamenta a profissão de prostituta.
O nome Davida remete a "mulher da vida", uma estranha
maneira de dizer. Por que "da vida"? A intenção de
quem, em tempos imemoriais, cunhou a expressão certamente
não foi boa, mas, considerando-se que a alternativa é
"da morte", resulta que é melhor, muito melhor, ser "da vida".
Já Daspu é um nome que tem a marca do atrevimento.
É a grife de pessoas que não têm vergonha de
esconder nem sua condição nem, no abusado "pu" final,
a mais precisa e cortante denominação da atividade
que abraçaram.
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