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Cinema
Atração fatal
Linda, mas esfomeada por atenção, Sharon Stone protagoniza um
desastre com Instinto Selvagem 2 
Isabela Boscov
Fotos divulgação  |  |
| Sharon, destruindo o papel que a construiu,
e Willis em 16 Quadras: o crepúsculo dos deuses |
Embriagada
por sua primeira chance de visibilidade em uma década, Sharon Stone tem
dito em entrevistas que pressionou para que houvesse mais sexo e nudez em Instinto
Selvagem 2 (Basic Instinct 2, Inglaterra/Estados Unidos, 2006)
e que adora, aos 48 anos, ser capaz de excitar os homens. De fato, Sharon está
em excelente forma física. Mas, como alguém que não quer
sair de uma festa que já acabou faz tempo, ela inverteu a regra básica
das divas: implora por atenção e, em vez de atrair, repele. Sharon
foi a mais salutar das grandes estrelas. Admitia sem hipocrisia que havia enfrentado
todo tipo de humilhação até encontrar o pote de ouro no fim
do seu arco-íris – justamente o primeiro Instinto Selvagem, de 1992
– e aceitava como questão de direito as benesses da fama. Mas, sem nenhum
grande papel desde Cassino, de 1995, e esfomeada pelo olhar do público,
ela se meteu num desastre. Instinto Selvagem 2 mostra Sharon no seu pior
como atriz, não tem pé nem cabeça e é tão relutante
em relação à sua vulgaridade que dificilmente vai excitar
alguém além dos mais necessitados. Explica-se: o que tornou Instinto
Selvagem um dos filmes icônicos dos anos 90 foi a rédea solta
que o roteirista Joe Eszterhas e o diretor Paul Verhoeven, dois mestres do vulgar,
deram a esse seu talento especial. O escocês Michael Caton-Jones, que dirige
a continuação que estréia nesta sexta-feira no país,
não tem nada parecido com essa convicção da dupla anterior
– e, ao tentar atenuar o "mau" gosto da história, só faz realçá-lo.
O impasse que faz Sharon escolher um trabalho
como Instinto Selvagem 2 é comum às atrizes acima dos 40
anos, e epidêmico entre as que ficaram conhecidas pela beleza. Mas há
saídas graciosas para ele. No ano passado, a própria Sharon ganhou
elogios merecidos por uma pequena participação em Flores Partidas,
de Jim Jarmusch. Tivesse ela investido com alguma paciência em criar um
novo nicho para si, não estaria nessa situação de desgraça
pública. O curioso, entretanto, é que essa deixou de ser uma "doença"
tipicamente feminina: os astros da primeira geração do cinema de
ação, os que primeiro ficaram conhecidos pelos músculos,
volta e meia apresentam sintomas semelhantes. Em 16 Quadras (16
Blocks, Estados Unidos, 2006), que também estréia nesta sexta-feira,
Bruce Willis se esforça – em vão – para temperar com sabor dramático
o seu tipo exaurido do sujeito duro de matar. Harrison Ford, em cartaz com Firewall,
repete pela enésima vez o salvador da família. No caso mais patético
de todos, Sylvester Stallone anunciou que vai fazer Rocky VI e Rambo
IV. Ninguém sugeriria que um ator de meia-idade está velho demais
para seu trabalho. Mas, em alguns casos, a aposentadoria pode ser, sim, a solução
mais digna. |