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Cinema
Guerra de fronteiras
Em Três Enterros, Tommy Lee Jones
abraça a idéia de um Texas meio
americano, meio mexicano

Isabela Boscov
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| Jones, com Pepper: o dia de o caçador virar
caça |
No oeste do Texas, junto à
fronteira com o México, o vaqueiro e imigrante ilegal Melquiades
Estrada é encontrado morto, com uma marca de bala e já
meio devorado pelos animais. Como nenhuma das autoridades locais
demonstra empenho em solucionar o caso, o rancheiro Pete Perkins,
com quem Melquiades trabalhava, vai sendo tomado por uma espécie
de fúria divina. No momento em que identifica o assassino
o guarda de fronteira Mike Norton (Barry Pepper), que respondeu
distraidamente a um tiro, sem nem averiguar que o alvo era um coiote
, ele decide pôr os pingos nos is. A cavalo, transportando
o corpo cada vez mais nauseante de Melquiades e arrastando Mike
como um bicho, ele atravessa o território inóspito
à volta do Rio Grande, que separa os dois países,
rumo ao lugar de onde o mexicano veio, para enterrá-lo do
jeito certo. No decorrer dessa odisséia que é Três
Enterros (The Three Burials of Melquiades Estrada, Estados
Unidos/França, 2005), em cartaz no país a partir de
sexta-feira, o protagonista e diretor Tommy Lee Jones oferece um
dos mais íntimos e dolorosos retratos da vida na fronteira
"tex-mex": o de uma única cultura dividida entre vencedores
e vencidos e regida pela incompreensão.
Jones é texano de oitava
geração e, em certa medida, faz jus ao estereótipo:
cria cavalos, gosta de caçar e é curto e grosso. De
outra parte, ele é a negação dessa imagem
formou-se com honras em literatura pela Universidade Harvard, é
amigo de longa data do democrata Al Gore (o Texas é majoritariamente
republicano), fala um espanhol fluente e opõe-se de forma
aberta ao policiamento truculento e persecutório que se pratica
na fronteira com o México. Não é, enfim, do
tipo que se vangloria a troco de nada de ter arrancado seu estado
dos mexicanos. Jones, ao contrário, abraça e admira
a confluência cultural que resultou no Texas e Três
Enterros, belissimamente dirigido e escrito em parceria com
o mexicano Guillermo Arriaga, de Amores Brutos e 21 Gramas,
é seu manifesto em favor dessa crença. À semelhança
de seu autor, é um filme severo, inteligente, algo irascível
e, acima de tudo, profundamente íntegro.
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