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Entrevista: Bernard
Devauchelle
A outra face
Pioneiro do transplante que deu
um
novo rosto a uma francesa, o cirurgião
conta como foi a operação

Bel Moherdaui
A cena já foi vista inúmeras
vezes na ficção, com variados graus de fantasia: o
vilão entra na sala de um cirurgião plástico
clandestino e sai com um rosto inteiramente novo. Pois o que parecia
absurdo foi realizado em novembro do ano passado pelo cirurgião
francês Bernard Devauchelle, à frente de uma equipe
de mais de cinqüenta pessoas. O primeiro transplante parcial
de rosto da história da medicina beneficiou Isabelle Dinoire,
que, na descrição do próprio Devauchelle, vivia
uma "vida de monstro", com um buraco onde antes existiam lábios,
queixo e nariz, arrancados por seu cachorro enquanto jazia inconsciente
no chão de sua casa. Hoje, Isabelle, 39 anos, divorciada,
duas filhas adolescentes, já pode trabalhar, fazer esportes
e sair à noite para beber. Do cigarro, está largando,
sob a branda sugestão dos médicos. "De um dia para
outro, nós demos a ela a possibilidade de viver", diz o orgulhoso
cirurgião, chefe do departamento de cirurgia maxilofacial
do Hospital Universitário de Amiens. Do hospital, na França,
Devauchelle falou a VEJA por telefone.
Veja Os leigos são
obcecados pelos problemas de identidade que um transplante de face
poderia trazer. Qual o ponto de vista dos médicos?
Devauchelle O rosto ainda é um componente importante
para identificar um indivíduo, mas acredito que, pouco a
pouco, estamos passando da época da antropometria para a
época da genética. Em outras palavras, temos uma identidade
pela face, mas ao mesmo tempo temos uma verdadeira identidade no
plano genético. No entanto, em termos de transplante essa
questão de identidade não se coloca, porque não
há semelhança com o rosto da doadora nem com o da
receptora.
Veja É um
terceiro rosto?
Devauchelle Não acho que podemos falar de um
terceiro rosto. Existe um episódio descrito por Freud, quando
estava em um trem indo para Viena: ele descobre um rosto na janela
do trem, e era seu próprio rosto. Acho que nós descobrimos
o nosso próprio rosto no decorrer do tempo. No caso da paciente,
ela não tinha mais rosto. Com o transplante, ela reencontrou
um, que hoje é o dela, ainda que um pouco diferente. O rosto
que ela tinha antes não é o elemento importante. O
que importa é ela.
Veja O que o novo
rosto tem de semelhante com o da doadora?
Devauchelle Nada. Se observarmos fotos da doadora,
veremos que não há nada que se assemelhe ao rosto
atual da transplantada.
Veja Se fosse feito
um transplante completo de rosto, e não parcial como esse,
o resultado final seria semelhante ao rosto da doadora?
Devauchelle Há duas equipes nos Estados Unidos
que trabalharam muito sobre esse tema, e o resultado é bastante
interessante. Eles transplantaram rostos inteiros sobre outros esqueletos,
e em todas as vezes ocorreu alguma modificação. Isso
acontece porque o rosto é pele e músculo sobre ossatura,
mas é também uma coisa que está em movimento
permanente. A expressão faz parte do rosto. É ela
que forma a identidade.
Veja Quer dizer
que jamais será possível, por exemplo, transplantar
o rosto de uma beldade do tipo de Gisele Bündchen em outra
pessoa e ela ficar com aparência idêntica?
Devauchelle Não há nenhum risco de identificação
ou de semelhança, e nisso todos os cirurgiões estão
de acordo.
Veja Para que um
transplante de rosto dê certo, o que deve combinar entre o
doador e o receptor?
Devauchelle Há uma série de condições
imunológicas que fazem com que um transplante funcione melhor
do que outro. O tipo sanguíneo e o fator Rh naturalmente
são importantes e são análises feitas antes
do transplante. Além disso, quando se faz transplante de
uma parte do rosto, é preciso que haja semelhança
entre a espessura, a idade, a cor e a granulação da
pele. É por essa razão que, embora tenha sido enviada
uma foto da doadora antes do transplante, a operação
só começou realmente depois que ela foi vista e tocada.
Se houvesse algum elemento de incompatibilidade, não teríamos
feito o transplante. É essencial que o médico não
só veja como também toque tanto o receptor quanto
o doador.
Veja Alguns críticos
chegaram a dizer que o senhor e sua equipe se apressaram na escolha
das candidatas para poderem ser os primeiros a realizar esse tipo
de cirurgia. Como o senhor responde a isso?
Devauchelle A maioria das críticas estava ligada
a manifestações de inveja. As pessoas que criticaram
e até os filósofos que têm debatido isso na
França não se deram ao trabalho de discutir o assunto
conosco e certamente não viram a paciente antes do transplante.
Se tivessem visto, tenho certeza de que não teriam feito
esses comentários. Aconteceu um fenômeno curioso na
França: assim que as fotos da paciente apareceram em uma
grande revista, as críticas cessaram.
Veja Por que o senhor
decidiu partir direto para um transplante, sem antes tentar uma
cirurgia reparadora?
Devauchelle Você aceitaria que eu lhe fizesse
quatro ou cinco intervenções cirúrgicas, recolocando
pedaços de carne e osso, para mais tarde remover tudo e fazer
o transplante? Do ponto de vista ético, não sei se
seria aceitável.
Veja Isabelle Dinoire
tinha o rosto destruído. Eventualmente, haverá pacientes
que queiram fazer o transplante simplesmente para ficar mais bonitos.
Seria aceitável?
Devauchelle Em primeiro lugar, a cirurgia requer autorização.
Existem leis aqui na França que dizem se temos ou não
o direito de realizar esse tipo de cirurgia. Para nós, a
autorização só saiu depois de quatro meses
de debates e justificativas. Não há hipótese
de ela ser dada para um caso que não seja extremamente grave.
Veja Quais as novas
técnicas cirúrgicas, ou outras, que não existiam
antes e que passaram a permitir o transplante de face?
Devauchelle Tecnicamente não há nenhuma
inovação cirúrgica há 25 anos. Nós
fazemos microcirurgia reconstrutora há mais de trinta anos.
Os progressos não são de natureza cirúrgica,
mas de ordem organizacional e imunológica. O grande progresso
é a capacidade que temos de fazer esse tipo de cirurgia com
muita segurança.
Veja Qual a maior
dificuldade, do ponto de vista técnico, de um transplante
de rosto?
Devauchelle No caso específico deste, o mais
difícil foi reparar e suturar os vasos que haviam sido danificados
pelas mordidas do cão. No geral, a dificuldade está
ligada à organização de todos os detalhes envolvidos,
à coordenação do tempo de todas as fases. Embora
o ato cirúrgico propriamente dito seja longo e minucioso,
já estamos acostumados com isso.
Veja A doadora estava
em Lille e a receptora em Amiens, a 135 quilômetros de distância.
Como foi a organização do transplante?
Devauchelle As coisas se desenrolaram como nós
tínhamos previsto. Assim que soubemos que tínhamos
uma doadora em potencial, o conjunto das equipes foi chamado; a
decisão de fazer o transplante foi tomada quando eu, pessoalmente,
vi a doadora e a qualidade da pele dela. Naquele momento, começou
a segunda fase do processo, no hospital onde estava a receptora.
Tudo aconteceu entre meia-noite de sábado para domingo e
4 horas da tarde de domingo.
Veja Uma equipe
de mais de cinqüenta pessoas participou da operação.
O que o senhor fez pessoalmente?
Devauchelle É preciso reforçar que entre
essas pessoas havia quatro cirurgiões seniores. Dois fizeram
a coleta (o chefe da clínica e eu mesmo) e outros dois, mais
minha assistente, prepararam a receptora. Eu voltei com a coleta
domingo às 6 horas da manhã. Durante a cirurgia, repartimos
o trabalho: eu fiz as suturas vasculares e os outros dois fizeram
a sutura dos nervos. Nós três terminamos ao mesmo tempo.
É um trabalho de equipe.
Veja O paciente
que passa por um transplante de rosto precisa tomar remédios
para evitar a rejeição durante toda a sua vida e ainda
assim está suscetível a infecções e
câncer. Vale a pena?
Devauchelle Todos os riscos foram muito pesados e
discutidos. Mas é verdade: a paciente pode manifestar sinais
de rejeição daqui a um ano, cinco anos, seis anos;
enfim, não se sabe. O que é preciso dizer é
que cada dia ganho é um dia de felicidade para ela, mesmo
com os remédios que tem de tomar.
Veja Qual é
a avaliação final de todo o processo de transplante?
Devauchelle Eu fixei um prazo de seis meses para dizer
se o sucesso foi absoluto do ponto de vista cirúrgico. Temos
confiança suficiente para poder declarar, antes mesmo do
fim do prazo, que se trata de um sucesso muito grande.
Veja Quando ela
estará totalmente recuperada e pronta para uma vida normal?
Devauchelle Ela já tem uma vida normal. Faz
tudo o que quer. Pratica esportes, sai, pode trabalhar. Pode fazer
absolutamente tudo o que quiser.
Veja Antes da cirurgia,
Isabelle chegou a pedir alguma melhora no próprio rosto?
Devauchelle Quando você tem um buraco no meio
do rosto, quando você é um monstro, tudo o que quer
é ter um rosto, nada além disso. De qualquer maneira,
no plano estético o resultado é muito bom. Hoje ela
está como você e eu, apenas com algumas cicatrizes
a mais, que são quase invisíveis.
Veja Na mais banal
cirurgia plástica de rosto, os médicos insistem que
o paciente não pode fumar. Aparentemente, o senhor e outros
médicos foram lenientes com o tabagismo de Isabelle. Por
quê?
Devauchelle Houve um trabalho há alguns anos
sobre os efeitos do tabagismo em pacientes com infarto do miocárdio
e ficou decidido que o fumo é muito ruim para o coração.
Houve outro trabalho que disse o contrário: se o tabagismo
diminui o stress e o stress aumenta o risco de infarto, há
um equilíbrio em relação a seus efeitos. Se
você libera o cigarro e a paciente se sente bem, talvez não
seja tão grave. Essa questão do tabaco é uma
polêmica sem conclusão. De toda forma, ela está
parando de fumar. Nós conversamos muito ela só fumava
um cigarro de vez em quando e agora está tentando parar.
Veja Ela alterou
algum outro hábito em decorrência do transplante?
Devauchelle Logo depois da operação
ela disse: novo rosto, novo penteado. Acho que é um excelente
reflexo da cirurgia na vida dela. É preciso entender que
ela não teve uma vida de mulher durante seis meses. Ela teve
uma vida de monstro. De monstro excluído de tudo. E, de um
dia para outro, nós demos a ela a possibilidade de viver.
Isso é extremamente forte e importante.
Veja O paciente
neozelandês que foi submetido ao primeiro transplante de mão
passou por grandes dificuldades psicológicas para aceitar
o membro que já foi de outra pessoa e acabou pedindo que
o amputassem. O que foi feito para evitar que Isabelle vivesse uma
situação parecida?
Devauchelle A preparação psicológica
da paciente foi assegurada por três psiquiatras, entre os
quais uma mulher, que pouco a pouco a viram evoluir. Teve sessões
todos os dias, por seis meses, e também durante todo o período
de internação. Ela passou muito tempo reclusa e reclamava
de seu caso ser tão público, o que é natural.
Nós fomos os primeiros a propor o procedimento, mas passado
um tempo ela pediu que fosse feito. A partir do momento em que há
uma adesão da paciente a um projeto terapêutico como
esse, o risco é nulo. Ela continua a ter acompanhamento psicológico
duas horas, uma vez por semana. Devo dizer que no princípio
o que ela mais temia era o rosto dos jornalistas, e não o
seu próprio.
Veja Antes do ataque
do cachorro que a deixou sem parte do rosto, Isabelle tentou o suicídio,
como foi aventado?
Devauchelle Ela explicou isso muito bem na última
entrevista coletiva. De fato tomou alguns comprimidos, porque tinha
discutido com a filha. Mas os remédios eram para pressão
arterial, betabloqueadores.
Veja E a doadora,
cometeu ou não suicídio?
Devauchelle Não sei. E, se soubesse, não
poderia dizer. A lei francesa é muito severa em relação
ao segredo profissional.
Veja Como é
fazer parte da história da medicina? Alguma coisa mudou na
sua vida?
Devauchelle Não mudou nada. Explico: só
conseguimos fazer esse transplante porque passamos o tempo observando
nossos doentes e andando para a frente, sem voltar para trás.
Não somos nós que vamos julgar se amanhã estaremos
na história da medicina.
Veja Se sofresse
um dano grave, o senhor aceitaria um transplante de face?
Devauchelle Depende muito de quem o faria. Afinal,
seria um pouco complicado eu mesmo me operar. Falando sério,
se por acaso eu estivesse na mesma situação, levando
em consideração os resultados que acabamos de ver,
com certeza eu aceitaria.
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