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André
Petry
Tudo desigual
"Leitores de VEJA escrevem
para a
revista perplexos, achando impossível
que o ministro tenha escrito tamanha
barbaridade. Ele escreveu, sim"
A Justiça brasileira, instituição
que zela pela igualdade de todos os brasileiros perante a lei, decidiu
quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, aquele
que derrubou o ministro Palocci. Parece piada, mas não é.
A juíza Maria de Fátima Pessoa Costa, da 10ª
Vara da Justiça Federal, entendeu que a polícia deve
investigar a fundo a suspeita de que, ao receber 25 000 reais em
sua conta bancária, o caseiro pode estar envolvido em "lavagem
de dinheiro". O caseiro disse que o dinheiro veio de seu pai biológico,
o pai biológico confirma e o rastreamento do dinheiro comprova
que o trajeto foi esse mesmo. Mas façamos de conta que há
uma montanha de dúvidas aí. Afinal, 25.000 reais na
conta de quem ganha 700 reais, assim de repente, dá para
soar o alarme.
Agora, a Justiça, por força
da igualdade de todos diante da lei, deveria tomar algumas providências
importantes.
Uma delas seria atender ao primeiro
pedido que surgisse de quebra do sigilo bancário de Fábio
Luiz Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Afinal, Lulinha
é formado em biologia, não exerce a profissão
nem era filho de pai rico. Mas, bastou o pai virar presidente, a
empresa de Lulinha recebeu 15 milhões de reais da Telemar,
uma concessionária de serviço público. Lulinha,
assim de repente, ficou milionário, recebeu rios de dinheiro
em sua conta. Será que pode estar lavando dinheiro para a
Telemar? Era o caso de investigar.
Outra boa providência seria autorizar
a quebra do sigilo bancário de Paulo Okamotto, o amigo do
presidente. Entre 2002 e 2004, ele conseguiu 24.800 reais para ajudar
na campanha de Vicentinho, mais 26.000 reais para pagar uma dívida
de Lurian, filha de Lula, e ainda 29.400 reais para saldar uma dívida
do próprio presidente. De onde Okamotto tirou esse dinheiro,
assim de repente? Será que pode estar lavando dinheiro de
alguém? Seria da velha cúpula do PT, agora chamado
de "organização criminosa"?
A Justiça já foi acionada
duas vezes para quebrar o sigilo bancário de Okamotto. Negou
ambas. Na última, quem assina o despacho é o ministro
Cezar Peluso. Ele diz que a CPI dos Bingos, antes de pedir a quebra
do sigilo bancário do amigo do presidente, deveria ter-lhe
dado um prazo para explicar a origem do dinheiro. Será que,
caso o pedido de quebra do sigilo do caseiro caísse nas mãos
do ministro, ele recorreria ao mesmo argumento do prazo para se
explicar? Cezar Peluso é o ministro que não deixou
o caseiro se explicar para nada. É dele a decisão
que impediu Francenildo de depor na CPI. E um dos argumentos do
ministro apoiou-se na "condição cultural" do caseiro.
O ministro achou que, devido à sua "condição
cultural", o caseiro jamais poderia dizer se o dinheiro que circulava
na mansão, aquela que Palocci nunca visitou, provinha de
casas de bingo.
Desde que isso foi divulgado, leitores
de VEJA escrevem para a revista perplexos, achando impossível
que o ministro tenha escrito tamanha barbaridade. Aos perplexos,
aqui vai o trecho literal: "Noutras palavras, seu depoimento (o
do caseiro) em nada ajudaria a esclarecer ou a provar a suposição
de que seria dinheiro oriundo de casas de jogo! E é o que
se presume à condição cultural e ao próprio
trabalho que a testemunha desempenharia no local apontado".
A Justiça é assim. Uma
aqui, outra acolá.
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