A etiqueta do celular
"Por
que, no país do 'homem cordial', somos tão
atabalhoados na etiqueta do celular? A
mesma
pessoa que faz gentilezas e rapapés palra no aparelho
diante de um grupo de amigos ou clientes"
Ilustração
Ale Setti
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Quatro pessoas do segundo escalão de um ministério
todas inteligentes e simpáticas sentavam-se
comigo à mesa, informalmente. Impaciente, pesquei
uma revista na pasta e comecei a ler. Isso porque cada uma
daquelas pessoas estava ao celular resolvendo problemas
inadiáveis da República.
Há incontáveis exemplos na mesma direção.
Em conferência com um ministro centro-americano, o
celular pousado em sua mesa tocava com freqüência
e era atendido. Outro exemplo: uma pessoa apresentou-se
para uma entrevista, em que pedia alguma coisa importante.
Mas toca o seu celular e segue-se uma longa e animada conversa.
Contam-me também que há escolas onde alunos
e professores, em plena aula, usam abundantemente os celulares.
E nos concertos, então?
As exceções são
à força. Em reuniões ministeriais,
cria-se um berçário para celulares à
porta da sala e fica uma secretária tomando conta.
Antes de entrar o presidente da República em alguma
cerimônia, o arauto do protocolo manda desligar os
celulares.
Ou muito me engano, ou há
um equívoco na etiqueta do celular abaixo do Equador.
Dos americanos considerados pelos europeus como no
limiar da barbárie não nos veio esse
mau hábito. O celular é usado com circunspeção.
É proibido usá-lo no Clube Cosmos, o quintessencial
esconderijo da classe dominante americana. Amy Vanderbilt
é taxativa: (1) executivos não devem deixar
ligados seus celulares quando se encontram com outras pessoas
e (2) restaurante não é cabine telefônica,
é para comer.
Recuperemos a história da
etiqueta. Segundo S.L. Carter, a civilidade é a soma
dos muitos sacrifícios que somos levados a fazer
para facilitar a vida em comum. Portanto, as regras de civilidade
são também as regras da moralidade, têm
a ver com respeito pelo próximo. Historicamente,
a etiqueta se desenvolveu nos últimos séculos,
guindando a Europa da barbárie, no processo de disciplinar
nossos desejos, permitindo o funcionamento harmônico
e eficiente da sociedade. A etiqueta é a ética
para tranqüilizar os estranhos, mostrando que somos
civilizados. Para o suíço Elias, tem a ver
com a eliminação de aspectos desagradáveis
dos processos sociais. Os chineses comem de pauzinhos, pois
consideram grosseiro levar à mesa "armas"
como garfo e faca.
Por que, em nosso país do
"homem cordial", somos tão atabalhoados na etiqueta
do celular? A mesma pessoa faz gentilezas e rapapés,
abre portas para as mulheres, usa corretamente os talheres,
não arrota, pede licença para se retirar,
não interrompe a conversa dos outros mas, alegremente,
palra no celular diante de um grupo de amigos ou clientes.
Uma explicação possível:
por décadas os telefones eram precários e
as ligações difíceis, havia que ser
rápido antes que caísse. Conseguir falar era
uma vitória. No início dos 70, existia um
amplificador para o ruído de linha. A secretária
pela manhã punha o fone no aparelho e ia fazer o
seu trabalho até que o telefone desse linha. Nesta
situação, criou-se uma norma pragmática:
diante de tão fugaz chance de falar com alguém
longe, a ligação teria precedência sobre
quem está perto. Mas a trabalheira e o preço
eram tão altos que só coisa importante justificava
a chamada.
Hoje, os telefones dão linha
e falam, a praga de gafanhotos do celular invadiu o país.
Tudo funciona demais, com excessiva freqüência.
Mas a mudança foi muito rápida, a antietiqueta
do "telefone/emergência" sobreviveu e invadiu o período
do "telefone/tagarelice". Será que não seria
o caso de exumar a velha etiqueta de dar preferência
ao nosso interlocutor já estabelecido e não
interrompê-lo sei lá quantas vezes com a zoada
do celular e a conversa que se segue? Por que um povo de
trato doce não abandona essas interrupções
tão pouco civilizadas?
Claudio de Moura Castro
é economista (claudiomc@attglobal.net)