Fotos: Alfredo Franco

Dietas
radicais entram na moda e saem como os cortes de cabelo
ou o comprimento das saias. Mas nunca se viu um esquema
alimentar causar tanto furor quanto a dieta proposta pelo
americano Robert Atkins. O que receita esse cardiologista
americano de 69 anos, saudável e magro como um triatleta,
contraria tudo o que gordinhos e gordinhas ouviram de seus
médicos nos últimos anos. Esqueça os chás, as pílulas de
ervas, a irritante contagem de calorias ou as refeições
insatisfatórias à base de vegetais, peixes e carnes magras.
O doutor Atkins está conquistando milhões de seguidores
fervorosos nos Estados Unidos (e ao mesmo tempo colecionando
inimigos poderosos na comunidade científica) advogando uma
dieta com alta dose de comidas antes proibidas. Atkins sustenta
que, para emagrecer rapidamente e continuar magros, os obesos
podem comer gorduras e proteínas à vontade carne
vermelha, ovos e manteiga. Ao mesmo tempo, devem evitar
a ingestão de carboidratos ou seja, pães, farinha
e macarrão. Açúcar, doces, chocolates, pudins, então, não
podem nem passar perto da mesa.
Quem
luta contra o excesso de peso há mais tempo deve lembrar-se
da dieta de Atkins. Proposta pela primeira vez nos anos
70, foi um sucesso avassalador de público, mas sumiu rapidamente
quando o medo do colesterol e de outras gorduras do sangue
associadas a doenças cardíacas afastou muitas pessoas das
comidas suculentas. Agora a pregação do doutor Atkins está
sendo de novo ouvida com enorme interesse. "Quem evitou
carnes e ovos e se submeteu a dietas à base de leite magro,
aveia e verdurinhas foi vítima de um engodo. Ninguém disse
a essas pessoas que uma dieta sem gorduras as obriga a comer
carboidratos, justamente o ingrediente que as torna gordas",
diz o doutor Atkins, no tom profético que todo proponente
de dietas populares assume ao defender suas idéias. Atkins
é o nome mais quente do momento em sua área de atuação.
Além de quase 30.000 clientes tratados diretamente por ele e sua equipe
na clínica de Nova York, Atkins está ajudando a criar uma
verdadeira indústria da dieta de baixo consumo de carboidratos.
Novos especialistas no assunto brotam todos os dias nos
talk-shows da televisão americana e seu livro recente, Dr.
Atkins New Diet Revolution (A Nova Dieta Revolucionária
do Dr. Atkins), ainda sem tradução em português, já vendeu
6 milhões de exemplares.
Tamanho sucesso não poderia passar em branco na comunidade
dos cientistas dedicados a ajudar as pessoas a emagrecer.
Os médicos dessa especialidade formam uma patota mais apaixonada
por uma discussão e uma boa briga que fãs de futebol. A
polêmica gerada pela dieta do doutor Atkins atingiu o auge
há algumas semanas, quando a questão foi parar na Casa Branca.
E não foi na cozinha. Dan Glickmann, secretário de Agricultura
do governo Bill Clinton, teve a idéia de promover um debate
nacional sobre o tema em Washington depois de uma conversa,
durante um jantar na sede do governo americano, com o maior
opositor de Atkins, o também cardiologista californiano
Dean Ornish, autor de cinco livros. Dois deles, A Dieta
de Salvando o Seu Coração e Salvando o Seu Coração
(Editora Relume-Dumará), já foram publicados no Brasil.
Três obras suas ficaram meses na lista de best-sellers do
New York Times. Guru do casal Clinton, de atores
de Hollywood como Michael Douglas e Dustin Hoffman e de
toda a geração milionária hi-tech-zen do Vale do Silício,
Ornish é uma espécie de Mahatma Gandhi da medicina. Ele
sustenta ter conseguido não apenas evitar doenças cardíacas
mas reverter lesões coronarianas com orações, meditação
e uma dieta riquíssima em frutas, grãos integrais e totalmente
destituída de qualquer alimento de origem animal: nada de
leite, carnes brancas nem peixes. Na dieta de Ornish todas
as gorduras somadas não podem passar de 10% dos ingredientes
ingeridos no decorrer de um dia.
O
confronto dos opostos não podia deixar de ser memorável.
Foi. Os dois já vinham trocando ofensas e acusações mútuas,
e a desavença é tratada como "a guerra das dietas"
na imprensa americana, mais dependente de um epíteto que
os gordos de muita comida. O assunto foi capa da revista
Time, ocupou páginas e mais páginas de matérias nas
revistas semanais Newsweek e US News & World
Report. Reunidos por Glickmann em Washington há dois
meses, Atkins
e Ornish deram um espetáculo. O confronto de teses tão
opostas foi enriquecido por um punhado de médicos com propostas
intermediárias especialistas que aconselham apenas
moderação à mesa e exercícios físicos, sem nenhum radicalismo.
A parte mais esperada do debate foi a exposição de Atkins,
que ocupou o palco do alto de sua popularidade atual na
condição de candidato que lidera as pesquisas. Ele apresentou
os resultados preliminares dos dois únicos estudos científicos
feitos com seus seguidores. Sua explanação inicial foi um
bom resumo de por que a dieta de baixos teores de carboidrato
espocou no começo dos anos 70 e sumiu em seguida, para ressurgir
agora com força total.
Atkins, em síntese, disse que sua dieta voltou à moda porque,
apesar de ter aderido em massa às comidas com pouca gordura
no final dos anos 70 e durante toda a década de 80, a população
americana continuou ganhando peso e tendo complicações fatais
por causa do entupimento das artérias do coração. Os números
lhe dão razão. Mesmo com as prateleiras dos supermercados
abarrotadas de produtos dietéticos, os Estados Unidos têm
55% da população acima do peso. E o ataque cardíaco figura
como a principal causa de morte súbita não violenta do país.
No fundo as pessoas estão se alimentando muito pior do que
antes. O processo de engorda não está restrito aos Estados
Unidos, embora seja um exagero naquele país. Quem já foi
à Disney World percebe com clareza que se os americanos
não viajassem para fora do país poderiam pensar que pesar
120 quilos é normal. É uma constante entre os moradores
de países ocidentais desenvolvidos e daqueles em desenvolvimento
que copiam o modo de vida americano. Na população brasileira,
40% encontram-se acima do peso. Desses, 11% são obesos,
ou seja, gordos para quem carregar quilos a mais gera prejuízos
à saúde. Com a proliferação dos produtos industrializados
nos supermercados, a população está ingerindo mais alimentos
processados, mais açúcar e mais calorias. Por quê? A resposta
surgiu na reunião de Washington, realizada na sede do Ministério
da Agricultura. Ela é simples. Na tentativa de tornar mais
palatáveis seus produtos fabricados com pouca gordura, a
indústria carregou no açúcar. Resultado: os americanos comem
hoje 7% mais calorias do que há vinte anos. E como a indústria
alimentícia americana influencia diretamente todo o mundo
ocidental, milhões e milhões de pessoas passaram também
a ingerir
mais calorias do que as contidas na dieta
de seus pais e avós.
Quando o debate esquentou, a precisão científica foi eclipsada
pela retórica do convencimento:
Atkins Minha dieta é a primeira com efeito de
longo prazo. Ela é fácil de seguir. O paciente nunca se
sente faminto. Você pode ir a restaurantes e pedir os pratos
mais saborosos. Você come mais calorias e ainda assim perde
peso.
Ornish Quando ouço esse tipo de coisa tenho vontade
de arrancar os últimos cabelos que me restam. Falar que
bacon e salsicha fazem bem é um ótimo jeito de vender livros,
mas é uma atitude irresponsável e coloca a saúde daqueles
que seguem a dieta em risco.
Atkins O baixo teor de gordura da dieta proposta
por Ornish dificulta a absorção das vitaminas lipossolúveis
A, D, E e K, além de provocar alterações hormonais.
Ornish As dietas ricas em gorduras enchem os
pacientes de substâncias que sabidamente provocam doenças
e os privam de outras que também sabidamente as evitam.
Atkins As alegações de que minha dieta provoca
lesões nos rins e no fígado devem ser recusadas imediatamente,
pois não passam de invenções. Os carboidratos, sim, estão
na base de muitos males à saúde.
O debate promovido pelo ministro americano terminou sem
que Atkins e Ornish conseguissem demover um ao outro de
suas posições. Atkins levou dados segundo os quais 85% dos
pacientes com problemas cardíacos que o procuraram afinal
ele é cardiologista e seguiram sua dieta da forma que
ele recomendou obtiveram melhoras dos sintomas. Ornish tinha
dados ainda mais relevantes. De acordo com ele, 91% dos
pacientes que cortaram o consumo de gordura radicalmente
e passaram a meditar e a orar regularmente tiveram bloqueios
coronarianos removidos. Ambos os estudos são vistos com
ceticismo pelos melhores especialistas. São considerados
radicais demais à luz do pouco que a ciência tem de certeza
sobre como funciona o metabolismo humano. A própria existência
de dois luminares como Dean Ornish e Robert Atkins defendendo
posições tão antagônicas é uma prova de que se sabe muito
pouco sobre o assunto. Afinal, gordura em excesso sem carboidrato
emagrece e evita doenças, como propõe Atkins? Ou Dean Ornish
é quem tem razão, e o ideal é evitar gorduras e buscar quase
toda a energia de que se necessita em comidas à base de
carboidrato? Bem, a medicina não consegue esconder suas
dúvidas a respeito do tema. É uma indecisão que no campo
da física equivaleria aos sábios estarem ainda debatendo
se o Sol é mesmo o centro do sistema de planetas a que pertence
a Terra.
Enquanto os médicos não se decidem sobre suas opiniões
extremadas, sobra, felizmente, uma grande área intermediária
com algumas certezas, de certa forma, tranqüilizadoras.
Existem providências consensualmente saudáveis em relação
aos hábitos alimentares. Entre elas:
Coma menos açúcar A quantidade de açúcar que
a maioria das pessoas ingere atualmente é muito maior que
a capacidade do fígado de metabolizá-la. A razão disso está
na história evolutiva da linhagem humana. O fígado, assim
como todos os outros órgãos, tomou sua forma final numa
época em que o ser humano não havia ainda criado as técnicas
de refinar o açúcar, que se tornou abundante e barato só
por volta de 1900. O resultado disso é que temos um fígado
perfeito para lidar com a dieta de 400.000 anos atrás, incomparavelmente mais pobre em açúcar
que a atual. O doutor Atkins acha que o abuso do açúcar
nos últimos 100 anos explica a maioria dos casos de obesidade
e ataques cardíacos precoces que abreviam a vida de milhões
de pessoas a cada ano.
Modere-se Coma menos: diminua a quantidade
dos alimentos que coloca no prato. Coma melhor: escolha
sempre o pedaço de carne menos gorduroso. Evite farinhas,
bolachas e biscoitos.
Exercite-se Caminhar em passo acelerado durante
uma hora, pelo menos três vezes por semana, ajuda o metabolismo
corporal de modo eficaz. O exercício torna mais eficiente
o trabalho da insulina no organismo. Isso é decisivo. Uma
descoberta recente da ciência dá conta de que a capacidade
de produção de insulina no organismo não pode ser estendida.
As pessoas nascem com um estoque determinado da substância.
Uma vez esgotada, só pode ser reposta artificialmente. É
o que ocorre com os pacientes de tipos mais agressivos de
diabete tardio. Nessas pessoas, o organismo simplesmente
não consegue produzir mais insulina. Nos diabéticos juvenis,
em geral, o que ocorre é que, mesmo o organismo produzindo
a substância, as células corporais, por um defeito genético,
não sabem como utilizá-la.
A favor de Robert Atkins diga-se que toda a ciência que
embasa sua dieta tem a ver com o papel da insulina no organismo.
Atkins sustenta, nesse ponto com toda a boa ciência do lado
dele, que carboidratos são transformados em açúcar no sangue.
Quem come um pão ou um prato de macarrão pode não saber
mas está comendo, em última análise, açúcar. Também nenhum
médico discorda do processo que se segue: o açúcar circulante
sinaliza ao pâncreas para produzir insulina, justamente
a substância que funciona como uma chave na superfície das
células. Esse hormônio abre caminho para as moléculas de
açúcar ultrapassarem a membrana celular para que possam
ser utilizadas como combustível. Com insulina suficiente
no sangue, o açúcar se transforma em energia, o que é vital
para todos os seres vivos. Ocorre que, quando há excesso
de açúcar circulante, o pâncreas inunda a corrente sanguínea
de insulina e o sistema entra em pane. As células não conseguem
entender os sinais da insulina para deixar o açúcar entrar.
Resultado: o corpo é obrigado a estocar o açúcar excedente
para uso futuro. O oganismo faz isso transformando o açúcar
em gordura. Este é o ciclo que o doutor Atkins acredita
poder quebrar com sua dieta hiperprotéica.
O modelo de Atkins sugere que é possível fazer essa geringonça
biológica funcionar ao contrário. Ou seja, em vez de acumular
gorduras, seu funcionamento as queimaria. Isso poderia ser
conseguido porque sabidamente o pâncreas, na ausência de
açúcar circulante, não precisa produzir insulina. Com pouco
açúcar na corrente sanguínea, o pâncreas produziria pouca
insulina, não sobrecarregaria as células e tudo funcionaria
como um motor bem regulado. Melhor ainda: sem ter de onde
tirar energia para funcionar, já que as gorduras e proteínas
são combustíveis ineficientes, o organismo passa a queimar
a gordura estocada de forma a compensar a deficiência. O
resultado é um emagrecimento rápido, constante e, mantidas
as mesmas condições, livre de recaídas. Robert Atkins sustenta
que as recaídas são menos freqüentes entre os seguidores
de sua dieta porque, comendo gordura à vontade, eles estão
sempre saciados. Não existe aquela sensação constante entre
os que fazem dieta de que se está perdendo uma das grandes
dimensões da vida que é comer bem. Atkins argumenta também
que sua dieta é a mais "natural", pois reproduziria
as condições alimentares que acompanharam a humanidade por
quase todo o período evolutivo seguramente até o surgimento
das sociedades industriais. "Os vegetarianos têm sugerido
que a dieta humana natural é baseada em grãos, já que eles
vêm sendo cultivados pelas civilizações há 5.000 anos na forma de trigo, arroz ou milho. Sim. Mas o
que se comia nas centenas de milhares de anos que precederam
a civilização dos grãos? O que faziam ao lado das fogueiras
primitivas os ossos de animais encontrados pelos escavadores?
E o que os homens primitivos faziam com aquelas lanças e
outras armas de caça? Usavam-nas para abrir cartas?",
pergunta Atkins com ironia.
Bom mesmo que ele se arme de ironias e muita disposição
para a briga. O ressurgimento do interesse por sua dieta
está reavivando na mesma intensidade as críticas que ajudaram
a enterrá-la nos anos 70. "A dieta de Atkins remove
as fibras da alimentação. Isso provoca constipação, desidratação
e, conseqüentemente, fraqueza e náusea entre seus seguidores.
Além de forçar demais os rins", diz Keith Ayoob, professora
de nutrição na Albert Einstein College, de Nova York. Outros
críticos sustentam que qualquer dieta restritiva funciona
a curto prazo, quando o objetivo é apenas perder peso. Mas
a que preço para o organismo? "As piores dietas são
aquelas que reduzem ou privam um grupo inteiro de alimentos,
sejam eles carboidratos, proteínas ou gorduras", afirma
o brasileiro Alfredo Halpern, vice-presidente da Associação
Internacional contra a Obesidade. "Em algum momento,
o corpo irá precisar daquilo que lhe foi tirado." Sem
contar o fato de que, em geral, elas são monótonas e difíceis
de ser seguidas por muito tempo. O resultado é que, invariavelmente,
os quilos acabam voltando com a mesma rapidez que foram
perdidos. Um estudo realizado pelo governo americano analisou
vários tipos de dietas comerciais e constatou que dois terços
dos que se submeteram aos regimes voltaram à forma antiga
no prazo de um ano. Num período de até cinco anos, 97% recuperaram
a velha forma roliça. Isso significa que, independentemente
da dieta que se escolha, é preciso saber que o sacrifício
tem de ser feito continuamente. Caso contrário, os quilinhos
indesejáveis vão voltar a incomodar e não haverá doutores
Atkins ou Ornish que dêem jeito.
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