Edição 1 645 -19/4/2000

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Fotos: Alfredo Franco

Dietas radicais entram na moda e saem como os cortes de cabelo ou o comprimento das saias. Mas nunca se viu um esquema alimentar causar tanto furor quanto a dieta proposta pelo americano Robert Atkins. O que receita esse cardiologista americano de 69 anos, saudável e magro como um triatleta, contraria tudo o que gordinhos e gordinhas ouviram de seus médicos nos últimos anos. Esqueça os chás, as pílulas de ervas, a irritante contagem de calorias ou as refeições insatisfatórias à base de vegetais, peixes e carnes magras. O doutor Atkins está conquistando milhões de seguidores fervorosos nos Estados Unidos (e ao mesmo tempo colecionando inimigos poderosos na comunidade científica) advogando uma dieta com alta dose de comidas antes proibidas. Atkins sustenta que, para emagrecer rapidamente e continuar magros, os obesos podem comer gorduras e proteínas à vontade – carne vermelha, ovos e manteiga. Ao mesmo tempo, devem evitar a ingestão de carboidratos – ou seja, pães, farinha e macarrão. Açúcar, doces, chocolates, pudins, então, não podem nem passar perto da mesa.

Quem luta contra o excesso de peso há mais tempo deve lembrar-se da dieta de Atkins. Proposta pela primeira vez nos anos 70, foi um sucesso avassalador de público, mas sumiu rapidamente quando o medo do colesterol e de outras gorduras do sangue associadas a doenças cardíacas afastou muitas pessoas das comidas suculentas. Agora a pregação do doutor Atkins está sendo de novo ouvida com enorme interesse. "Quem evitou carnes e ovos e se submeteu a dietas à base de leite magro, aveia e verdurinhas foi vítima de um engodo. Ninguém disse a essas pessoas que uma dieta sem gorduras as obriga a comer carboidratos, justamente o ingrediente que as torna gordas", diz o doutor Atkins, no tom profético que todo proponente de dietas populares assume ao defender suas idéias. Atkins é o nome mais quente do momento em sua área de atuação. Além de quase 30.000 clientes tratados diretamente por ele e sua equipe na clínica de Nova York, Atkins está ajudando a criar uma verdadeira indústria da dieta de baixo consumo de carboidratos. Novos especialistas no assunto brotam todos os dias nos talk-shows da televisão americana e seu livro recente, Dr. Atkins New Diet Revolution (A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins), ainda sem tradução em português, já vendeu 6 milhões de exemplares.

Tamanho sucesso não poderia passar em branco na comunidade dos cientistas dedicados a ajudar as pessoas a emagrecer. Os médicos dessa especialidade formam uma patota mais apaixonada por uma discussão e uma boa briga que fãs de futebol. A polêmica gerada pela dieta do doutor Atkins atingiu o auge há algumas semanas, quando a questão foi parar na Casa Branca. E não foi na cozinha. Dan Glickmann, secretário de Agricultura do governo Bill Clinton, teve a idéia de promover um debate nacional sobre o tema em Washington depois de uma conversa, durante um jantar na sede do governo americano, com o maior opositor de Atkins, o também cardiologista californiano Dean Ornish, autor de cinco livros. Dois deles, A Dieta de Salvando o Seu Coração e Salvando o Seu Coração (Editora Relume-Dumará), já foram publicados no Brasil. Três obras suas ficaram meses na lista de best-sellers do New York Times. Guru do casal Clinton, de atores de Hollywood como Michael Douglas e Dustin Hoffman e de toda a geração milionária hi-tech-zen do Vale do Silício, Ornish é uma espécie de Mahatma Gandhi da medicina. Ele sustenta ter conseguido não apenas evitar doenças cardíacas mas reverter lesões coronarianas com orações, meditação e uma dieta riquíssima em frutas, grãos integrais e totalmente destituída de qualquer alimento de origem animal: nada de leite, carnes brancas nem peixes. Na dieta de Ornish todas as gorduras somadas não podem passar de 10% dos ingredientes ingeridos no decorrer de um dia.

O confronto dos opostos não podia deixar de ser memorável. Foi. Os dois já vinham trocando ofensas e acusações mútuas, e a desavença é tratada como "a guerra das dietas" na imprensa americana, mais dependente de um epíteto que os gordos de muita comida. O assunto foi capa da revista Time, ocupou páginas e mais páginas de matérias nas revistas semanais Newsweek e US News & World Report. Reunidos por Glickmann em Washington há dois meses, Atkins e Ornish deram um espetáculo. O confronto de teses tão opostas foi enriquecido por um punhado de médicos com propostas intermediárias – especialistas que aconselham apenas moderação à mesa e exercícios físicos, sem nenhum radicalismo. A parte mais esperada do debate foi a exposição de Atkins, que ocupou o palco do alto de sua popularidade atual na condição de candidato que lidera as pesquisas. Ele apresentou os resultados preliminares dos dois únicos estudos científicos feitos com seus seguidores. Sua explanação inicial foi um bom resumo de por que a dieta de baixos teores de carboidrato espocou no começo dos anos 70 e sumiu em seguida, para ressurgir agora com força total.

Atkins, em síntese, disse que sua dieta voltou à moda porque, apesar de ter aderido em massa às comidas com pouca gordura no final dos anos 70 e durante toda a década de 80, a população americana continuou ganhando peso e tendo complicações fatais por causa do entupimento das artérias do coração. Os números lhe dão razão. Mesmo com as prateleiras dos supermercados abarrotadas de produtos dietéticos, os Estados Unidos têm 55% da população acima do peso. E o ataque cardíaco figura como a principal causa de morte súbita não violenta do país. No fundo as pessoas estão se alimentando muito pior do que antes. O processo de engorda não está restrito aos Estados Unidos, embora seja um exagero naquele país. Quem já foi à Disney World percebe com clareza que se os americanos não viajassem para fora do país poderiam pensar que pesar 120 quilos é normal. É uma constante entre os moradores de países ocidentais desenvolvidos e daqueles em desenvolvimento que copiam o modo de vida americano. Na população brasileira, 40% encontram-se acima do peso. Desses, 11% são obesos, ou seja, gordos para quem carregar quilos a mais gera prejuízos à saúde. Com a proliferação dos produtos industrializados nos supermercados, a população está ingerindo mais alimentos processados, mais açúcar e mais calorias. Por quê? A resposta surgiu na reunião de Washington, realizada na sede do Ministério da Agricultura. Ela é simples. Na tentativa de tornar mais palatáveis seus produtos fabricados com pouca gordura, a indústria carregou no açúcar. Resultado: os americanos comem hoje 7% mais calorias do que há vinte anos. E como a indústria alimentícia americana influencia diretamente todo o mundo ocidental, milhões e milhões de pessoas passaram também a ingerir mais calorias do que as contidas na dieta de seus pais e avós.

Quando o debate esquentou, a precisão científica foi eclipsada pela retórica do convencimento:

Atkins – Minha dieta é a primeira com efeito de longo prazo. Ela é fácil de seguir. O paciente nunca se sente faminto. Você pode ir a restaurantes e pedir os pratos mais saborosos. Você come mais calorias e ainda assim perde peso.

Ornish – Quando ouço esse tipo de coisa tenho vontade de arrancar os últimos cabelos que me restam. Falar que bacon e salsicha fazem bem é um ótimo jeito de vender livros, mas é uma atitude irresponsável e coloca a saúde daqueles que seguem a dieta em risco.

Atkins – O baixo teor de gordura da dieta proposta por Ornish dificulta a absorção das vitaminas lipossolúveis A, D, E e K, além de provocar alterações hormonais.

Ornish – As dietas ricas em gorduras enchem os pacientes de substâncias que sabidamente provocam doenças e os privam de outras que também sabidamente as evitam.

Atkins – As alegações de que minha dieta provoca lesões nos rins e no fígado devem ser recusadas imediatamente, pois não passam de invenções. Os carboidratos, sim, estão na base de muitos males à saúde.

O debate promovido pelo ministro americano terminou sem que Atkins e Ornish conseguissem demover um ao outro de suas posições. Atkins levou dados segundo os quais 85% dos pacientes com problemas cardíacos que o procuraram – afinal ele é cardiologista – e seguiram sua dieta da forma que ele recomendou obtiveram melhoras dos sintomas. Ornish tinha dados ainda mais relevantes. De acordo com ele, 91% dos pacientes que cortaram o consumo de gordura radicalmente e passaram a meditar e a orar regularmente tiveram bloqueios coronarianos removidos. Ambos os estudos são vistos com ceticismo pelos melhores especialistas. São considerados radicais demais à luz do pouco que a ciência tem de certeza sobre como funciona o metabolismo humano. A própria existência de dois luminares como Dean Ornish e Robert Atkins defendendo posições tão antagônicas é uma prova de que se sabe muito pouco sobre o assunto. Afinal, gordura em excesso sem carboidrato emagrece e evita doenças, como propõe Atkins? Ou Dean Ornish é quem tem razão, e o ideal é evitar gorduras e buscar quase toda a energia de que se necessita em comidas à base de carboidrato? Bem, a medicina não consegue esconder suas dúvidas a respeito do tema. É uma indecisão que no campo da física equivaleria aos sábios estarem ainda debatendo se o Sol é mesmo o centro do sistema de planetas a que pertence a Terra.

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Enquanto os médicos não se decidem sobre suas opiniões extremadas, sobra, felizmente, uma grande área intermediária com algumas certezas, de certa forma, tranqüilizadoras. Existem providências consensualmente saudáveis em relação aos hábitos alimentares. Entre elas:

Coma menos açúcar – A quantidade de açúcar que a maioria das pessoas ingere atualmente é muito maior que a capacidade do fígado de metabolizá-la. A razão disso está na história evolutiva da linhagem humana. O fígado, assim como todos os outros órgãos, tomou sua forma final numa época em que o ser humano não havia ainda criado as técnicas de refinar o açúcar, que se tornou abundante e barato só por volta de 1900. O resultado disso é que temos um fígado perfeito para lidar com a dieta de 400.000 anos atrás, incomparavelmente mais pobre em açúcar que a atual. O doutor Atkins acha que o abuso do açúcar nos últimos 100 anos explica a maioria dos casos de obesidade e ataques cardíacos precoces que abreviam a vida de milhões de pessoas a cada ano.

Modere-se – Coma menos: diminua a quantidade dos alimentos que coloca no prato. Coma melhor: escolha sempre o pedaço de carne menos gorduroso. Evite farinhas, bolachas e biscoitos.

Exercite-se – Caminhar em passo acelerado durante uma hora, pelo menos três vezes por semana, ajuda o metabolismo corporal de modo eficaz. O exercício torna mais eficiente o trabalho da insulina no organismo. Isso é decisivo. Uma descoberta recente da ciência dá conta de que a capacidade de produção de insulina no organismo não pode ser estendida. As pessoas nascem com um estoque determinado da substância. Uma vez esgotada, só pode ser reposta artificialmente. É o que ocorre com os pacientes de tipos mais agressivos de diabete tardio. Nessas pessoas, o organismo simplesmente não consegue produzir mais insulina. Nos diabéticos juvenis, em geral, o que ocorre é que, mesmo o organismo produzindo a substância, as células corporais, por um defeito genético, não sabem como utilizá-la.

A favor de Robert Atkins diga-se que toda a ciência que embasa sua dieta tem a ver com o papel da insulina no organismo. Atkins sustenta, nesse ponto com toda a boa ciência do lado dele, que carboidratos são transformados em açúcar no sangue. Quem come um pão ou um prato de macarrão pode não saber mas está comendo, em última análise, açúcar. Também nenhum médico discorda do processo que se segue: o açúcar circulante sinaliza ao pâncreas para produzir insulina, justamente a substância que funciona como uma chave na superfície das células. Esse hormônio abre caminho para as moléculas de açúcar ultrapassarem a membrana celular para que possam ser utilizadas como combustível. Com insulina suficiente no sangue, o açúcar se transforma em energia, o que é vital para todos os seres vivos. Ocorre que, quando há excesso de açúcar circulante, o pâncreas inunda a corrente sanguínea de insulina e o sistema entra em pane. As células não conseguem entender os sinais da insulina para deixar o açúcar entrar. Resultado: o corpo é obrigado a estocar o açúcar excedente para uso futuro. O oganismo faz isso transformando o açúcar em gordura. Este é o ciclo que o doutor Atkins acredita poder quebrar com sua dieta hiperprotéica.

O modelo de Atkins sugere que é possível fazer essa geringonça biológica funcionar ao contrário. Ou seja, em vez de acumular gorduras, seu funcionamento as queimaria. Isso poderia ser conseguido porque sabidamente o pâncreas, na ausência de açúcar circulante, não precisa produzir insulina. Com pouco açúcar na corrente sanguínea, o pâncreas produziria pouca insulina, não sobrecarregaria as células e tudo funcionaria como um motor bem regulado. Melhor ainda: sem ter de onde tirar energia para funcionar, já que as gorduras e proteínas são combustíveis ineficientes, o organismo passa a queimar a gordura estocada de forma a compensar a deficiência. O resultado é um emagrecimento rápido, constante e, mantidas as mesmas condições, livre de recaídas. Robert Atkins sustenta que as recaídas são menos freqüentes entre os seguidores de sua dieta porque, comendo gordura à vontade, eles estão sempre saciados. Não existe aquela sensação constante entre os que fazem dieta de que se está perdendo uma das grandes dimensões da vida que é comer bem. Atkins argumenta também que sua dieta é a mais "natural", pois reproduziria as condições alimentares que acompanharam a humanidade por quase todo o período evolutivo – seguramente até o surgimento das sociedades industriais. "Os vegetarianos têm sugerido que a dieta humana natural é baseada em grãos, já que eles vêm sendo cultivados pelas civilizações há 5.000 anos na forma de trigo, arroz ou milho. Sim. Mas o que se comia nas centenas de milhares de anos que precederam a civilização dos grãos? O que faziam ao lado das fogueiras primitivas os ossos de animais encontrados pelos escavadores? E o que os homens primitivos faziam com aquelas lanças e outras armas de caça? Usavam-nas para abrir cartas?", pergunta Atkins com ironia.

Bom mesmo que ele se arme de ironias e muita disposição para a briga. O ressurgimento do interesse por sua dieta está reavivando na mesma intensidade as críticas que ajudaram a enterrá-la nos anos 70. "A dieta de Atkins remove as fibras da alimentação. Isso provoca constipação, desidratação e, conseqüentemente, fraqueza e náusea entre seus seguidores. Além de forçar demais os rins", diz Keith Ayoob, professora de nutrição na Albert Einstein College, de Nova York. Outros críticos sustentam que qualquer dieta restritiva funciona a curto prazo, quando o objetivo é apenas perder peso. Mas a que preço para o organismo? "As piores dietas são aquelas que reduzem ou privam um grupo inteiro de alimentos, sejam eles carboidratos, proteínas ou gorduras", afirma o brasileiro Alfredo Halpern, vice-presidente da Associação Internacional contra a Obesidade. "Em algum momento, o corpo irá precisar daquilo que lhe foi tirado." Sem contar o fato de que, em geral, elas são monótonas e difíceis de ser seguidas por muito tempo. O resultado é que, invariavelmente, os quilos acabam voltando com a mesma rapidez que foram perdidos. Um estudo realizado pelo governo americano analisou vários tipos de dietas comerciais e constatou que dois terços dos que se submeteram aos regimes voltaram à forma antiga no prazo de um ano. Num período de até cinco anos, 97% recuperaram a velha forma roliça. Isso significa que, independentemente da dieta que se escolha, é preciso saber que o sacrifício tem de ser feito continuamente. Caso contrário, os quilinhos indesejáveis vão voltar a incomodar e não haverá doutores Atkins ou Ornish que dêem jeito.

 
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