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Edição
1 645 -19/4/2000
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A cena, inexplicável por alguns microssegundos, revelou seu significado cruel quando o atleta rolou e urrou de dor no gramado. O técnico da Inter, Marcello Lippi, ficou a distância, petrificado. O lateral Panucci, desesperado, levou as mãos à cabeça. O argentino Simeone, da Lazio, tentou confortar Ronaldinho já saindo de campo na maca. O atacante chileno Zamorano beijou a testa do brasileiro. Ao chegar ao vestiário chorando como uma criança, Ronaldinho desabou nos braços de Nilton Petrone, o fisioterapeuta que cuidara de sua recuperação depois da cirurgia anterior. No dia seguinte, foi levado ao Hospital de La Pitié Salpêtrière, em Paris, onde se submeteu a uma operação de duas horas para reconstruir o ligamento da patela do joelho direito. O futuro do craque de 23 anos depende, agora, tanto da reabilitação do joelho doente quanto da capacidade de sua cabeça ainda jovem de enfrentar o drama de uma longa e penosa recuperação, longe dos gramados, da bola e da torcida.
As câmaras flagraram o exato momento de colapso do joelho de Ronaldinho. Por instantes, abriu-se um buraco na pele. É o efeito do brusco deslocamento da patela, que sai do lugar quando ocorre o rompimento total do ligamento de sustentação do osso (veja animação). Com semelhante carga dramática, só existe um registro no futebol brasileiro, quando Mirandinha, atacante do São Paulo na década de 70, disputa uma bola com o zagueiro Baldini, do América de São José do Rio Preto. A foto mostra o instante em que a perna do jogador se dobra sobre a do adversário e se parte. As perspectivas da volta de Ronaldinho aos gramados são altamente favoráveis. Em mais de 90% dos casos, a cirurgia a que o jogador se submeteu produz resultados positivos. "Se ele não puder mais jogar, rasgo meu diploma", disse o médico francês Gerard Saillant, que o operou. Saillant calcula entre sete e oito meses o tempo necessário para sua reabilitação. Mais difícil é prever em que condições ele voltará. Ronaldinho destacou-se no futebol mundial por uma rara combinação de força, velocidade e habilidade. Sua principal jogada é o arranque vertiginoso em direção à meta adversária, com mudanças bruscas de direção para desnortear os zagueiros. Essa combinação de balé com rolo compressor exige explosão muscular e uma coordenação ajustada de movimentos dos joelhos. A ruptura que sofreu na semana passada deixará seqüelas que podem prejudicar sua força e agilidade. "Ronaldinho vai voltar a jogar, mas dificilmente será o mesmo jogador que conhecemos", opina o ortopedista Moisés Cohen, chefe do Centro de Traumatologia do Esporte da Universidade Federal de São Paulo. O responsável pelo longo calvário de Ronaldinho é o ligamento patelar de seu joelho direito. Com 6 centímetros de comprimento, esse tecido fibroso une dois ossos, a patela, como passou a ser denominada a rótula, e a tíbia. Por um defeito congênito, o ligamento do atacante tem uma resistência abaixo do normal, que conseqüentemente afeta a estabilidade do joelho e o torna mais sujeito a acidentes. "Ele também desenvolveu muita massa muscular, o que pode ter sobrecarregado ainda mais o joelho", diz Cohen. Em 1996, quando jogava no PSV, da Holanda, Ronaldinho foi levado a fazer a primeira cirurgia para tentar acabar com as dores que sentia no joelho direito. No ano seguinte, já no Barcelona, da Espanha, aparentemente livre de complicações físicas, viveu a melhor fase de sua carreira e ganhou pela primeira vez o título de melhor jogador do mundo. Depois, transferiu-se para a Internazionale de Milão e o joelho voltou a castigá-lo.
Sacrifício e ansiedade – Jogou o Mundial da França, em 1998, na base do sacrifício, prejudicado por uma tendinite, sempre no joelho direito. Além da pressão para justificar a fama de número 1 e conduzir o Brasil ao título, as dores no joelho contribuíram para aumentar seu stress, que explodiu no colapso nervoso antes da partida final. Seguiram-se meses de agonia e um interminável entra-e-sai do gramado que durou até março de 1999. No final do ano sofreu outra contusão, que o levou a fazer a segunda cirurgia e a mais quatro meses de retiro forçado. A decisão da Copa da Itália, na semana passada, estava programada para ser o marco de seu retorno definitivo aos campos. "Achávamos que o inferno astral tinha terminado, mas nos enganamos", diz Reinaldo Pitta, um dos empresários de Ronaldinho, que embarcou na quinta-feira passada para ficar ao lado do jogador na França. A contusão grave ocorre num momento em que o atacante parecia ter dado adeus a todos os problemas físicos e pessoais. No começo do mês, comemorou junto com a mulher, Milene Domingues, o nascimento do filho, Ronald. "Ele ficou bobo com a criança e queria muito fazer um gol na reestréia para oferecê-lo ao filho", conta Alexandre Martins, o outro empresário que cuida dos interesses do atleta. Durante quatro meses ele se dedicou de corpo e alma aos exercícios e à rotina do trabalho de recuperação. O retorno aos jogos oficiais estava programado para ocorrer de forma gradativa. Por isso, entrou apenas no segundo tempo do jogo contra a Lazio. Parecia tudo bem, pois já tinha participado de alguns amistosos. Num deles, contra uma equipe amadora de Milão, marcou quatro gols. "Mandei um e-mail parabenizando-o pelo feito e ele respondeu: 'Foi só um treino, vamos ver no jogo'", diz o ator Bruno de Lucca, um dos amigos mais próximos do craque. "O Ronaldo estava muito ansioso para voltar, queria muito ter uma boa atuação." O desafio de Ronaldinho não é apenas a cura física, mas também superar outra barreira, a psicológica. Ele começou a carreira profissional em 1993. Desde então, já passou quase um ano inativo, somando-se todo o tempo empregado na luta contra os problemas físicos. O que tem pela frente é outro longo período de recuperação. Muitos não resistiram a provações similares, mas os gramados estão cheios de histórias animadoras de bons jogadores que voltaram a brilhar depois de longa estada no estaleiro. "Ronaldinho tem uma ótima capacidade de adaptação a novas situações e acredito que não terá problemas em encarar essa fatalidade", afirma Suzy Fleury, psicóloga da Seleção Brasileira de Futebol. A nova contusão do craque mexeu com a indústria milionária que foi criada em torno de seu nome. Desde que ele começou a se destacar, com 17 anos de idade, muita gente apostou pesado em seu futuro. A começar pelos próprios empresários do jogador, que ajudaram a criar a grife de roupas R9, com vendas anuais em torno de 10 milhões de dólares. Em torno da marca Ronaldinho giram pelo menos 24 milhões de dólares por ano, entre salários (4 milhões de dólares anuais), contratos publicitários e licenciamento da imagem. A lógica de todo o investimento foi de que se tratava de um negócio que prometia retorno elevado por um longo período, tendo em vista a juventude e a qualidade do craque. Na semana passada, algumas contas já começaram a ser refeitas. É inegável que a cotação do atacante vai passar por uma profunda revisão nos próximos meses. "Eu acredito que ele vai dar a volta por cima e, um dia, seu passe custará 100 milhões de dólares", afirma o empresário Alexandre Martins. "Hoje, porém, ele vale zero." O acordo com a americana Nike é um exemplo de como todos apostavam numa longa carreira. O jogador recebe 1,5 milhão de dólares por ano para fazer o papel de garoto-propaganda da fábrica de material esportivo, e o contrato vale por toda sua vida. Está prevista apenas a redução do valor para 500.000 dólares quando o atacante deixar os campos. A Inter de Milão gastou 34 milhões de dólares para tirá-lo do Barcelona em 1997 e firmou com o atacante um contrato de cinco anos, com vencimento em 2002. Se antes disso o craque, de uma hora para outra, for obrigado a pendurar as chuteiras, o investimento frustra-se. Não se perde dinheiro, contudo. O clube tem duas apólices de seguro no valor total de 100 milhões de dólares registradas com a empresa Lloyds, exatamente para o caso de o atleta pendurar as chuteiras. Mesmo com a grave contusão da semana passada, não passa pela cabeça dos dirigentes da Internazionale bater nas portas da seguradora para reclamar a indenização. A Inter, como todo mundo, aposta que Ronaldinho voltará a brilhar. Com reportagem de Silvia Rogar, do Rio de Janeiro |
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