Bonito. E funciona
Deus criou o universo, mas são os
designers
que estão repaginando o mundo
Thaís Oyama
Divulgação

Aparentemente sem nenhum parentesco, o Porsche de 230
000 dólares e o vaso sanitário têm,
sim, laços de família: são do estúdio
Bertone |
Divulgação
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Você talvez não tenha percebido, mas o mundo
está sendo redesenhado a toque de caixa. Redesenhado
até em seus aspectos mais comezinhos. Do carrão
esporte ao paliteiro, os objetos ganham curvas, perdem peso,
adquirem formas que facilitam o manuseio e ficam mais bonitos
e divertidos. Os responsáveis por essa transformação
acelerada são aqueles profissionais que podem ser
considerados os artistas da era tecnológica –
os designers. Até pouco tempo atrás, eles
estavam mais preocupados em inventar cadeiras. Designer
que se prezava tinha de inventar ao menos uma, sempre cara,
nem sempre confortável. Cadeira vai, cadeira vem
e, finalmente, eles se viram obrigados a cumprir à
risca a sua função original: a de casar estética
e praticidade em todo e qualquer tipo de produto. Aparelho
de barbear que corta sem arranhar, pano de chão colorido
que não solta do rodo –
nada é tão simples que não valha a
pena ser repaginado. "O design está cada vez mais
utilitário", reconhece a crítica especializada
Maria Helena Estrada. E já se aventura inclusive
pelo banheiro: o último lançamento do estúdio
italiano Bertone, o mesmo que projetou carros como a Ferrari
166 Cabriolet e o Porsche Karisma, é um (aparentemente)
prosaico vaso sanitário.
S.
Soriano
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Lanche com estilo
A mais nova obra de arte do Centro
Georges Pompidou, em Paris, fica no 5º andar
e está em exibição permanente:
é o restaurante projetado pelos arquitetos
e designers Dominique Jakob e Brendan McFarlane. Para
separar o ultramoderno salão da cozinha, eles
ergueram esculturas amarelas em forma de moluscos
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Em forma de cápsula e à prova de entupimento,
o vaso da Bertone não deixa de ser uma súmula
do pensamento do arquiteto alemão Walter Gropius,
fundador da Bauhaus. Nascida em 1919, essa escola de desenho
industrial foi a primeira a colocar em torno de uma prancheta
artistas e engenheiros, de maneira que os objetos produzidos
em série pudessem combinar plasticidade e técnica.
A proposta de Gropius vingou, depois definhou, em seguida
se recuperou e agora atinge seu apogeu. A interatividade
nessa área alcançou um nível impressionante
nos últimos tempos. O que se vê hoje são
escultores desenhando escovas de dente, projetistas de automóveis
fazendo canetas e arquitetos desenvolvendo sapatos. Não
é exagero dizer que alguns produtos só existem
atualmente graças às soluções
encontradas pelos designers.
"Menos é mais" –
Por exemplo: para chegar ao seu mais recente modelo de tênis,
a Nike reuniu nada menos do que 170 pessoas, entre desenhistas,
biomecânicos, engenheiros e atletas. Por um ano e
meio, a equipe trabalhou na tentativa de transformar um
simples calçado numa poderosa máquina de correr
e pular, feita sob medida para jogadores de basquete. Resultado:
o recém-lançado Air Zoom GPII chega ao mercado
com revestimento de couro sintético (que se adapta
perfeitamente ao pé), suporte interno e externo para
calcanhar (que aumenta a estabilidade na quadra) e sem nenhuma
costura (o que garante maior flexibilidade). Esforço
ainda mais árduo mereceu o aparelho de três
lâminas da Gillette, o Mach3, que melhorou tremendamente
a qualidade de vida dos que têm barba cerrada. O Mach3,
que corta melhor e não machuca, consumiu seis anos
de trabalho, quase 1 bilhão de dólares em
pesquisas e virou um exemplo clássico de design a
serviço do conforto. Nos dois produtos, uma constante:
são muito, muito agradáveis aos olhos.
O consumidor agradece, penhorado, a preocupação
dos designers com a comodidade, uma reação
ao radicalismo dos anos 80, quando o grupo Memphis, de Milão,
alardeou que funcionalidade era o de menos e "liberdade
de criação" era tudo. Para a turma do Memphis,
importante era a forma, e, quanto mais extravagante ela
fosse, melhor. Enquanto os seguidores da Bauhaus apregoavam
que o "menos é mais", os pós-modernos italianos
rebatiam que menos era, sobretudo, uma grande chatice. Os
barroquismos do Memphis tiveram vida curta, mas alguns conceitos
seus permaneceram. Um exemplo é o uso de cores fortes
nos móveis e utensílios. À revolução
da cor seguiu-se outra: a do plástico. Também
pelas mãos dos italianos, o material, até
então sem graça nenhuma e francamente desdenhado
pelos chiques, ganhou formas originais e ar refinado. O
uso do plástico contribuiu para baratear, pelo menos
um pouco, o design. Uma poltrona Barcelona, da escola Bauhaus,
feita de couro e aço, ainda não sai por menos
de 3.500 reais. Já uma
mesa-banqueta de plástico assinada pelo francês
Philippe Starck, vedete do estúdio italiano Alessi,
custa em média 180 reais. Starck é uma das
estrelas do mundo novo do design aliado à funcionalidade.
Ele desenha de tudo, de móveis e ambientes a pia,
chaleira, colher e escova de dente. Ao redor do planeta
não há designer mais imitado (para não
dizer copiado descaradamente).
Na linha do bonitinho, não muito caro e –
outro sinal dos novos tempos –
engraçadinho, a Alessi tem paliteiro, porta-ovos,
saca-rolhas e grampeador. Também conta com uma cafeteira
belíssima, obra de Aldo Rossi, cuja tampa arredondada
foi inspirada na cúpula da Basílica de São
Pedro. Em alguns casos, a ênfase no design teve o
efeito contrário: transformou o que era baratinho
em não tão baratinho assim. Para uma faixa
mais exclusiva de consumidor, outro estúdio italiano,
o Magis, está lançando no Brasil uma linha
de objetos de plástico do outro mundo. O escorredor
de pratos, bicolor, custa 130 reais. A vassoura (isso mesmo,
vassoura, daquelas de varrer o chão), assinada pelo
artista Stefano Giovannoni, não sai por menos de
70 reais. Verdade seja dita: é linda. Mas não
é mais eficiente do que o modelo básico de
piaçava e cabo de madeira vagabunda. A funcionalidade
é a palavra de ordem, mas a tentação
do supérfluo, do puramente decorativo, continua a
atrair os designers. "A beleza também é uma
função", argumenta Maria Helena Estrada. Bem,
se há gente disposta a pagar caro por uma vassoura,
por que não?
O de sempre –
ontem e hoje
Eduardo Pozella
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Divulgação
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Cadeira Luís
XV (à esq.) e o modelo Wassily, ícone
da Bauhaus: vão-se as madeiras entalhadas
e os pés com volteios. A versão modernista,
em aço e couro, introduziu a leveza das linhas
e a possibilidade da produção em série
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Jorge
Butsuem
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| O modelo da Nike para basquete
foi projetado por 170 profissionais e não
tem costura: entre um par de doze anos
atrás (à dir.) e
os lançamentos recentes, os tênis
avançaram léguas |
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Chico Guerrise

Feios,
pesados e beges, os aspiradores de pó
do passado não são páreo
para o modelo vertical da Polti (à
dir.): colorido e com 3,5 quilos (contra
5 quilos dos antigos), o novo aparelho promete
causar menos dores nas costas
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Sergio Pagano

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| Porta-guarda-chuvas do início
do século XX (à esq.) e
seu colega chique e moderno: nas mãos
do finlandês Alvar Aalto, um dos maiores
designers dos anos 30, o objeto virou quase
uma obra de arte |
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