Edição 1 645 -19/4/2000

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Bonito. E funciona

Deus criou o universo, mas são os designers
que estão repaginando o mundo

Thaís Oyama

 
Divulgação


Aparentemente sem nenhum parentesco, o Porsche de 230 000 dólares e o vaso sanitário têm, sim, laços de família: são do estúdio Bertone
Divulgação

Você talvez não tenha percebido, mas o mundo está sendo redesenhado a toque de caixa. Redesenhado até em seus aspectos mais comezinhos. Do carrão esporte ao paliteiro, os objetos ganham curvas, perdem peso, adquirem formas que facilitam o manuseio e ficam mais bonitos e divertidos. Os responsáveis por essa transformação acelerada são aqueles profissionais que podem ser considerados os artistas da era tecnológica os designers. Até pouco tempo atrás, eles estavam mais preocupados em inventar cadeiras. Designer que se prezava tinha de inventar ao menos uma, sempre cara, nem sempre confortável. Cadeira vai, cadeira vem e, finalmente, eles se viram obrigados a cumprir à risca a sua função original: a de casar estética e praticidade em todo e qualquer tipo de produto. Aparelho de barbear que corta sem arranhar, pano de chão colorido que não solta do rodo nada é tão simples que não valha a pena ser repaginado. "O design está cada vez mais utilitário", reconhece a crítica especializada Maria Helena Estrada. E já se aventura inclusive pelo banheiro: o último lançamento do estúdio italiano Bertone, o mesmo que projetou carros como a Ferrari 166 Cabriolet e o Porsche Karisma, é um (aparentemente) prosaico vaso sanitário.


S. Soriano

Lanche com estilo

A mais nova obra de arte do Centro Georges Pompidou, em Paris, fica no 5º andar e está em exibição permanente: é o restaurante projetado pelos arquitetos e designers Dominique Jakob e Brendan McFarlane. Para separar o ultramoderno salão da cozinha, eles ergueram esculturas amarelas em forma de moluscos

Em forma de cápsula e à prova de entupimento, o vaso da Bertone não deixa de ser uma súmula do pensamento do arquiteto alemão Walter Gropius, fundador da Bauhaus. Nascida em 1919, essa escola de desenho industrial foi a primeira a colocar em torno de uma prancheta artistas e engenheiros, de maneira que os objetos produzidos em série pudessem combinar plasticidade e técnica. A proposta de Gropius vingou, depois definhou, em seguida se recuperou e agora atinge seu apogeu. A interatividade nessa área alcançou um nível impressionante nos últimos tempos. O que se vê hoje são escultores desenhando escovas de dente, projetistas de automóveis fazendo canetas e arquitetos desenvolvendo sapatos. Não é exagero dizer que alguns produtos só existem atualmente graças às soluções encontradas pelos designers.

"Menos é mais" Por exemplo: para chegar ao seu mais recente modelo de tênis, a Nike reuniu nada menos do que 170 pessoas, entre desenhistas, biomecânicos, engenheiros e atletas. Por um ano e meio, a equipe trabalhou na tentativa de transformar um simples calçado numa poderosa máquina de correr e pular, feita sob medida para jogadores de basquete. Resultado: o recém-lançado Air Zoom GPII chega ao mercado com revestimento de couro sintético (que se adapta perfeitamente ao pé), suporte interno e externo para calcanhar (que aumenta a estabilidade na quadra) e sem nenhuma costura (o que garante maior flexibilidade). Esforço ainda mais árduo mereceu o aparelho de três lâminas da Gillette, o Mach3, que melhorou tremendamente a qualidade de vida dos que têm barba cerrada. O Mach3, que corta melhor e não machuca, consumiu seis anos de trabalho, quase 1 bilhão de dólares em pesquisas e virou um exemplo clássico de design a serviço do conforto. Nos dois produtos, uma constante: são muito, muito agradáveis aos olhos.

O consumidor agradece, penhorado, a preocupação dos designers com a comodidade, uma reação ao radicalismo dos anos 80, quando o grupo Memphis, de Milão, alardeou que funcionalidade era o de menos e "liberdade de criação" era tudo. Para a turma do Memphis, importante era a forma, e, quanto mais extravagante ela fosse, melhor. Enquanto os seguidores da Bauhaus apregoavam que o "menos é mais", os pós-modernos italianos rebatiam que menos era, sobretudo, uma grande chatice. Os barroquismos do Memphis tiveram vida curta, mas alguns conceitos seus permaneceram. Um exemplo é o uso de cores fortes nos móveis e utensílios. À revolução da cor seguiu-se outra: a do plástico. Também pelas mãos dos italianos, o material, até então sem graça nenhuma e francamente desdenhado pelos chiques, ganhou formas originais e ar refinado. O uso do plástico contribuiu para baratear, pelo menos um pouco, o design. Uma poltrona Barcelona, da escola Bauhaus, feita de couro e aço, ainda não sai por menos de 3.500 reais. Já uma mesa-banqueta de plástico assinada pelo francês Philippe Starck, vedete do estúdio italiano Alessi, custa em média 180 reais. Starck é uma das estrelas do mundo novo do design aliado à funcionalidade. Ele desenha de tudo, de móveis e ambientes a pia, chaleira, colher e escova de dente. Ao redor do planeta não há designer mais imitado (para não dizer copiado descaradamente).

Na linha do bonitinho, não muito caro e outro sinal dos novos tempos engraçadinho, a Alessi tem paliteiro, porta-ovos, saca-rolhas e grampeador. Também conta com uma cafeteira belíssima, obra de Aldo Rossi, cuja tampa arredondada foi inspirada na cúpula da Basílica de São Pedro. Em alguns casos, a ênfase no design teve o efeito contrário: transformou o que era baratinho em não tão baratinho assim. Para uma faixa mais exclusiva de consumidor, outro estúdio italiano, o Magis, está lançando no Brasil uma linha de objetos de plástico do outro mundo. O escorredor de pratos, bicolor, custa 130 reais. A vassoura (isso mesmo, vassoura, daquelas de varrer o chão), assinada pelo artista Stefano Giovannoni, não sai por menos de 70 reais. Verdade seja dita: é linda. Mas não é mais eficiente do que o modelo básico de piaçava e cabo de madeira vagabunda. A funcionalidade é a palavra de ordem, mas a tentação do supérfluo, do puramente decorativo, continua a atrair os designers. "A beleza também é uma função", argumenta Maria Helena Estrada. Bem, se há gente disposta a pagar caro por uma vassoura, por que não?

 

O de sempre ontem e hoje

Eduardo Pozella
  Divulgação

Cadeira Luís XV (à esq.) e o modelo Wassily, ícone da Bauhaus: vão-se as madeiras entalhadas e os pés com volteios. A versão modernista, em aço e couro, introduziu a leveza das linhas e a possibilidade da produção em série

 

Divulgação
  Jorge Butsuem
O modelo da Nike para basquete foi projetado por 170 profissionais e não tem costura: entre um par de doze anos atrás (à dir.) e os lançamentos recentes, os tênis avançaram léguas

 

Chico Guerrise

Feios, pesados e beges, os aspiradores de pó do passado não são páreo para o modelo vertical da Polti (à dir.): colorido e com 3,5 quilos (contra 5 quilos dos antigos), o novo aparelho promete causar menos dores nas costas

 

 

Sergio Pagano

  Divulgação
Porta-guarda-chuvas do início do século XX (à esq.) e seu colega chique e moderno: nas mãos do finlandês Alvar Aalto, um dos maiores designers dos anos 30, o objeto virou quase uma obra de arte

 

 

 

Quando o mínimo é o máximo

Reprodução Rev.Arc Design
Markus Richter
Divulgação

Paliteiros com cara de coelho, garrafas térmicas coloridas, porta-ovos engraçadinho e talheres que riem: antes, os designers só levavam a sério os móveis da sala. Agora se divertem na cozinha