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Nova dose de prazer
Droga de ação mais rápida
que o Viagra é a
terceira geração de remédios para impotência
Karina Pastore
O Viagra foi apenas o começo. Lançado
em 1998, o remédio que exorcizou o fantasma da impotência
da vida da maioria dos homens e hoje é consumido
ao vertiginoso ritmo de quatro comprimidos por segundo serviu
de estopim para uma frenética corrida que não
cessa de dar bons prêmios. Com uma dúzia de
grandes laboratórios farmacêuticos empenhados
nas pesquisas, os avanços foram tão rápidos
que, em dois anos, já se chegou a três classes
de drogas contra a disfunção erétil.
Na semana passada, um novo comprimido –
o Uprima – recebeu
o o.k. da comissão de cientistas encarregada de sua
análise nos Estados Unidos. O certificado o coloca
na reta final para receber a aprovação do
FDA, a rigorosa agência americana de controle de medicamentos
e alimentos, derradeiro passo antes de chegar às
prateleiras das farmácias. Fabricada pela TAP Pharmaceuticals,
uma joint venture entre o laboratório americano Abbott
e o japonês Takeda, a droga deve ser lançada
em julho nos Estados Unidos. Estará no Brasil em
outubro.
O Uprima é o primeiro remédio a atuar diretamente
no sistema nervoso central. Colocado sob a língua,
o comprimidinho se dissolve, rapidamente cai na corrente
sanguínea e começa a agir em cerca de vinte
minutos, ou até menos, em certos casos. Isso ocorre
porque dispensa a passagem pelo estômago e pelo intestino
para ser absorvido pelo organismo. O que a droga faz é
aumentar a concentração de uma substância
endógena, a dopamina, que facilita a condução
dos estímulos sexuais do cérebro até
o pênis. O Viagra, cujo princípio ativo é
o sildenafil, e os medicamentos à base de fentolamina
– vendidos no Brasil sob os
nomes comerciais de Vasomax, Regitina e Herivyl –
agem na região peniana. Por mecanismos diferentes,
têm por objetivo relaxar a musculatura do pênis,
facilitar o aporte de sangue e, assim, promover a ereção.
Apesar das diferenças, todas as drogas têm
um pré-requisito básico para funcionar, sem
o qual nada feito: o desejo sexual.
O Uprima é feito à base de apomorfina, uma
substância usada há mais de uma década
como indutora de vômito em casos de intoxicação.
Mais recentemente se descobriu que a droga tinha o poder
de provocar ereções. "O problema é
que, administrado sob a forma de injeções
subcutâneas ou intramusculares, o remédio provoca
efeitos colaterais terríveis", diz o urologista Joaquim
Claro, professor da Universidade Federal de São Paulo.
Seis de cada dez homens sofrem náuseas, vômitos
e desmaios sérios. Sob a forma de pílula sublingual,
as reações adversas diminuíram drasticamente.
"Dependendo da dosagem, a porcentagem de pacientes que relataram
sentir náuseas variou de 1% a 15%", diz o médico
Clóvis Sanjar, diretor do Abbott. Calcula-se que
três em cada dez homens com algum grau de disfunção
erétil não podem usar o Viagra. São
vítimas de problemas cardíacos em tratamento
com drogas à base de nitratos, como Isocord, Isordil
ou Sustrate – a combinação
da pílula azul com esses medicamentos pode até
levar ao infarto.
Além de agir mais rápido, o Uprima tem uma
vantagem sobre o Viagra e o Vasomax e similares. A nova
pílula pode ser tomada a cada oito horas e não
apenas uma vez por dia. Isso porque ela é eliminada
mais rapidamente pelo organismo. No que mais importa, a
ereção propriamente dita, não se pode
falar numa pílula melhor que a outra. De todas, o
Viagra é a que, de acordo com os estudos disponíveis,
apresenta melhor índice de satisfação
entre os pacientes – 70%,
contra 60% do Uprima e 50% da fentolamina. A comparação
deve ser vista com prudência. Ainda não foram
realizadas pesquisas comparativas diretas entre as drogas.
Muitos especialistas até especulam se alguns pacientes
poderiam beneficiar-se da combinação entre
elas, visto que cada uma age de maneira distinta. O certo
é que a pílula do prazer mudou o comportamento
masculino em relação à impotência.
Depois do Viagra, o mercado de medicamentos para a disfunção
erétil cresceu sete vezes no Brasil. Nos Estados
Unidos, dobrou o número de pacientes nos consultórios
dos urologistas.
A felicidade se compra,
e muito

As "drogas de comportamento", os remédios
que se destinam primordialmente a melhorar a
qualidade de vida das pessoas, têm-se
revelado uma mina de ouro para os laboratórios
farmacêuticos. Entre elas, o campeão
disparado é o Xenical, uma pílula
que ajuda a emagrecer diminuindo o nível
de absorção de gordura pelo organismo.
Apesar de seu mais comum (e desagradável)
efeito colateral ser uma tremenda diarréia,
o Xenical é um fenômeno de venda
praticamente desde o dia de seu lançamento.
No Brasil, onde a caixa custa 190 reais, o Xenical
rendeu ao seu fabricante, o laboratório
Roche, mais de 44 milhões de dólares
em 1999. O Viagra, seu maior rival na lista
das "drogas de comportamento" mais vendidas,
faturou no ano passado 29 milhões de
dólares por aqui.
Trata-se de um mercado que aumenta à
proporção que a expectativa de
vida cresce e a vaidade das pessoas é
alimentada para além do razoável.
Desde 1992 o laboratório Allergan distribui
o Botox, uma substância derivada da toxina
causadora do botulismo, doença que paralisa
os músculos e pode levar à morte.
No começo, ela era usada para tratar
tiques nervosos. Em 1997, descobriu-se que o
Botox era capaz de atenuar rugas, paralisando
os músculos faciais. Deu-se a enxurrada:
atualmente, mais de 5.000
médicos brasileiros usam a substância
em seu consultório. No Brasil, o produto
– que nem é
vendido no varejo –
engordou a conta do laboratório Allergan
em 17 milhões de dólares só
no ano passado. Outra "droga de comportamento"
a puxar a fila dos best-sellers é o Propecia
(95 reais a caixa), a mais eficaz nos tratamentos
contra a calvície. No ano passado, proporcionou
a seu fabricante, o laboratório Merck
Sharp & Dohme, 6,5 milhões de dólares.
Máquinas de propaganda –
Com mais tempo de farmácia, dois antidepressivos
fecham a lista das estrelas entre as drogas
que as pessoas compram na esperança de
viver melhor. Um deles é o Prozac, cuja
caixa custa 90 reais. Em 1999, a "pílula
da felicidade" vendeu 2,6 bilhões de
dólares no mundo todo, montante que representa
26% do faturamento total de seu laboratório,
o Eli Lilly. O outro, que alcançou, passou
e hoje vende quase o dobro do Prozac, é
o Aropax (100 reais a caixa), que há
dois anos se beneficiou de um notável
impulso: pesquisas indicam que ele pode ser
utilizado no tratamento da timidez, esse fantasma
que deixou de assombrar apenas no terreno afetivo
e agora atormenta também no plano profissional.
Os laboratórios não gostam de
dizer que ainda não sabem quais os efeitos
do uso prolongado desses remédios. E
suas máquinas de propaganda passam por
cima do fato de que eles só funcionam
como paliativos para os problemas que pretendem
resolver definitivamente. Diante de todas essas
cifras, dá para entender por quê.
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