Edição 1 645 -19/4/2000

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Nova dose de prazer

Droga de ação mais rápida que o Viagra é a
terceira geração de remédios para impotência

Karina Pastore

O Viagra foi apenas o começo. Lançado em 1998, o remédio que exorcizou o fantasma da impotência da vida da maioria dos homens e hoje é consumido ao vertiginoso ritmo de quatro comprimidos por segundo serviu de estopim para uma frenética corrida que não cessa de dar bons prêmios. Com uma dúzia de grandes laboratórios farmacêuticos empenhados nas pesquisas, os avanços foram tão rápidos que, em dois anos, já se chegou a três classes de drogas contra a disfunção erétil. Na semana passada, um novo comprimido o Uprima recebeu o o.k. da comissão de cientistas encarregada de sua análise nos Estados Unidos. O certificado o coloca na reta final para receber a aprovação do FDA, a rigorosa agência americana de controle de medicamentos e alimentos, derradeiro passo antes de chegar às prateleiras das farmácias. Fabricada pela TAP Pharmaceuticals, uma joint venture entre o laboratório americano Abbott e o japonês Takeda, a droga deve ser lançada em julho nos Estados Unidos. Estará no Brasil em outubro.

O Uprima é o primeiro remédio a atuar diretamente no sistema nervoso central. Colocado sob a língua, o comprimidinho se dissolve, rapidamente cai na corrente sanguínea e começa a agir em cerca de vinte minutos, ou até menos, em certos casos. Isso ocorre porque dispensa a passagem pelo estômago e pelo intestino para ser absorvido pelo organismo. O que a droga faz é aumentar a concentração de uma substância endógena, a dopamina, que facilita a condução dos estímulos sexuais do cérebro até o pênis. O Viagra, cujo princípio ativo é o sildenafil, e os medicamentos à base de fentolamina vendidos no Brasil sob os nomes comerciais de Vasomax, Regitina e Herivyl agem na região peniana. Por mecanismos diferentes, têm por objetivo relaxar a musculatura do pênis, facilitar o aporte de sangue e, assim, promover a ereção. Apesar das diferenças, todas as drogas têm um pré-requisito básico para funcionar, sem o qual nada feito: o desejo sexual.

O Uprima é feito à base de apomorfina, uma substância usada há mais de uma década como indutora de vômito em casos de intoxicação. Mais recentemente se descobriu que a droga tinha o poder de provocar ereções. "O problema é que, administrado sob a forma de injeções subcutâneas ou intramusculares, o remédio provoca efeitos colaterais terríveis", diz o urologista Joaquim Claro, professor da Universidade Federal de São Paulo. Seis de cada dez homens sofrem náuseas, vômitos e desmaios sérios. Sob a forma de pílula sublingual, as reações adversas diminuíram drasticamente. "Dependendo da dosagem, a porcentagem de pacientes que relataram sentir náuseas variou de 1% a 15%", diz o médico Clóvis Sanjar, diretor do Abbott. Calcula-se que três em cada dez homens com algum grau de disfunção erétil não podem usar o Viagra. São vítimas de problemas cardíacos em tratamento com drogas à base de nitratos, como Isocord, Isordil ou Sustrate a combinação da pílula azul com esses medicamentos pode até levar ao infarto.

Além de agir mais rápido, o Uprima tem uma vantagem sobre o Viagra e o Vasomax e similares. A nova pílula pode ser tomada a cada oito horas e não apenas uma vez por dia. Isso porque ela é eliminada mais rapidamente pelo organismo. No que mais importa, a ereção propriamente dita, não se pode falar numa pílula melhor que a outra. De todas, o Viagra é a que, de acordo com os estudos disponíveis, apresenta melhor índice de satisfação entre os pacientes 70%, contra 60% do Uprima e 50% da fentolamina. A comparação deve ser vista com prudência. Ainda não foram realizadas pesquisas comparativas diretas entre as drogas. Muitos especialistas até especulam se alguns pacientes poderiam beneficiar-se da combinação entre elas, visto que cada uma age de maneira distinta. O certo é que a pílula do prazer mudou o comportamento masculino em relação à impotência. Depois do Viagra, o mercado de medicamentos para a disfunção erétil cresceu sete vezes no Brasil. Nos Estados Unidos, dobrou o número de pacientes nos consultórios dos urologistas.

 

A felicidade se compra, e muito

As "drogas de comportamento", os remédios que se destinam primordialmente a melhorar a qualidade de vida das pessoas, têm-se revelado uma mina de ouro para os laboratórios farmacêuticos. Entre elas, o campeão disparado é o Xenical, uma pílula que ajuda a emagrecer diminuindo o nível de absorção de gordura pelo organismo. Apesar de seu mais comum (e desagradável) efeito colateral ser uma tremenda diarréia, o Xenical é um fenômeno de venda praticamente desde o dia de seu lançamento. No Brasil, onde a caixa custa 190 reais, o Xenical rendeu ao seu fabricante, o laboratório Roche, mais de 44 milhões de dólares em 1999. O Viagra, seu maior rival na lista das "drogas de comportamento" mais vendidas, faturou no ano passado 29 milhões de dólares por aqui.

Trata-se de um mercado que aumenta à proporção que a expectativa de vida cresce e a vaidade das pessoas é alimentada para além do razoável. Desde 1992 o laboratório Allergan distribui o Botox, uma substância derivada da toxina causadora do botulismo, doença que paralisa os músculos e pode levar à morte. No começo, ela era usada para tratar tiques nervosos. Em 1997, descobriu-se que o Botox era capaz de atenuar rugas, paralisando os músculos faciais. Deu-se a enxurrada: atualmente, mais de 5.000 médicos brasileiros usam a substância em seu consultório. No Brasil, o produto que nem é vendido no varejo engordou a conta do laboratório Allergan em 17 milhões de dólares só no ano passado. Outra "droga de comportamento" a puxar a fila dos best-sellers é o Propecia (95 reais a caixa), a mais eficaz nos tratamentos contra a calvície. No ano passado, proporcionou a seu fabricante, o laboratório Merck Sharp & Dohme, 6,5 milhões de dólares.

Máquinas de propaganda Com mais tempo de farmácia, dois antidepressivos fecham a lista das estrelas entre as drogas que as pessoas compram na esperança de viver melhor. Um deles é o Prozac, cuja caixa custa 90 reais. Em 1999, a "pílula da felicidade" vendeu 2,6 bilhões de dólares no mundo todo, montante que representa 26% do faturamento total de seu laboratório, o Eli Lilly. O outro, que alcançou, passou e hoje vende quase o dobro do Prozac, é o Aropax (100 reais a caixa), que há dois anos se beneficiou de um notável impulso: pesquisas indicam que ele pode ser utilizado no tratamento da timidez, esse fantasma que deixou de assombrar apenas no terreno afetivo e agora atormenta também no plano profissional. Os laboratórios não gostam de dizer que ainda não sabem quais os efeitos do uso prolongado desses remédios. E suas máquinas de propaganda passam por cima do fato de que eles só funcionam como paliativos para os problemas que pretendem resolver definitivamente. Diante de todas essas cifras, dá para entender por quê.

 
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