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Elas venceram
As mulheres superam o preconceito, cultivam
músculos robustos, corpos
bem definidos e ameaçam a supremacia
dos homens no esporte
Maurício Cardoso
Fotos de Claudio Edinger
Pela primeira vez na história, a delegação
brasileira que viaja em setembro para as Olimpíadas
de Sydney terá quase tantas mulheres quanto homens.
Em que pese algum contratempo até o dia do embarque,
o time verde-amarelo deverá contar com noventa mulheres
e 110 homens. A porção feminina do esporte
brasileiro já supera as médias de participação
das últimas Olimpíadas, realizadas em Atlanta.
Naquela época o contingente feminino já havia
sido recorde. De cada três brasileiros que vestiram
o uniforme nacional em Atlanta, um era mulher. Agora, o
time feminino representa 45% do total. E não é
só uma questão de números, mas também
de qualidade. Os jogadores de basquete masculino, por exemplo,
nem vão a Sydney, enquanto as mulheres têm
potencial para chegar ao pódio. As chances femininas
no vôlei são melhores do que as masculinas.
No vôlei de praia nem se fala –
elas podem repetir a façanha de Atlanta,
quando conquistaram duas medalhas.
Interessante fenômeno este das atletas olímpicas.
Ele é a manifestação de vanguarda de
uma situação que as mulheres de hoje vivem
com intensidade em outras esferas. Nesse particular, as
brasileiras não são uma exceção
nem como mulheres, nem como esportistas. Os 3 bilhões
de mulheres do planeta estão gradativamente aumentando
sua participação na vida social, política
e econômica. Há mulheres governando países,
dirigindo grandes empresas, fazendo pesquisas, pilotando
aviões. Elas já são maioria nas universidades,
ocupam cada vez mais postos de trabalho e são as
responsáveis pelas compras da família. O Brasil
tem mais mulheres com 2º grau completo do que homens.
De cada dez trabalhadores de todos os níveis, quatro
vestem saias. O esporte, conseqüentemente, faz parte
dessa revolução. Até uma década
atrás, mulheres esportistas eram olhadas de soslaio.
Afinal, julgavam os preconceituosos de sempre, como conciliar
atributos tão distintos quanto a condição
feminina e a força atlética? A emancipação
feminina mudou essa perspectiva. "Musculosas e suadas, as
mulheres são aceitas como mulheres hoje em dia. É
uma coisa natural. Há alguns anos era inaceitável",
diz a americana Lindsay Davenport, a número 1 do
ranking mundial de tênis. Para ilustrar essa transformação,
VEJA encomendou um ensaio ao fotógrafo Claudio Edinger
com seis das mais destacadas atletas olímpicas brasileiras.
O resultado, surpreendente, pode ser apreciado nesta reportagem.
As campeãs que estão entrando em campo hoje
fazem parte da primeira geração das filhas
de pais que valorizam o esporte e os cuidados com o corpo.
A paulista Carla Moreno, uma das integrantes da equipe olímpica
de triatlo, por exemplo, começou a fazer esporte
com 5 anos, acompanhando a mãe na academia de ginástica.
Aos 23 anos, Carla é uma profissional bem-sucedida
e ajuda os pais nas despesas de casa, em São Carlos,
no interior de São Paulo. "Sou de uma família
moderna, pratico um esporte moderno e não tive de
enfrentar grandes resistências para me impor no esporte
por ser mulher", diz ela.
Não faz muito tempo que o mundo passou a encarar
a mulher esportista com naturalidade. Agora, com o ocaso
das modelos de fisionomia famélica e a súbita
valorização na moda de rostos e corpos que
parecem vender saúde, o visual esportivo passou a
ser quase um pré-requisito da mulher bem-sucedida.
A indústria de material esportivo começa a
acusar essa valorização. "O material esportivo
destinado ao público feminino no passado tinha duas
características: era de baixa qualidade e cor-de-rosa.
Hoje é inadmissível vender artigos esportivos
femininos que não visem o desempenho de alto nível",
diz Anne Flannery, gerente da divisão feminina da
Spalding, fabricante de material esportivo dos Estados Unidos.
O primeiro sutiã especialmente desenhado para a prática
de esportes foi produzido em 1977. De lá para cá
a evolução foi tremenda. Hoje, até
o calçado esportivo feminino tem medidas e desenhos
diferenciados. A indústria passou a fabricar produtos
específicos para mulheres, como bicicletas, protetores
de seios para lutar boxe, mochilas de trekking mais estreitas,
raquetes de tênis e varas para salto com medidas e
características específicas. A evolução
foi fundamentalmente impulsionada pelo mercado. A reação
nas vendas veio como conseqüência. Desde 1991,
a indústria vende muito mais tênis para mulheres
do que para homens. Elas compram mais e aposentam o equipamento
antes. Sendo apenas 20% dos golfistas nos Estados Unidos,
as americanas adquirem 50% de todos os produtos destinados
a esse esporte.
A estranheza que a mulher atleta provocava no passado
se transformou em saudável curiosidade. As conquistas
femininas no esporte são recebidas com enorme entusiasmo
pelo público. Ao ganhar a Copa do Mundo de Futebol
Feminino, no ano passado, a seleção dos Estados
Unidos foi capa das revistas Time, Newsweek, People
e Sports Illustrated, algumas das principais publicações
americanas. Ganhou tanto destaque não apenas porque
se tornou campeã mundial num esporte que inflama
as novas gerações dos subúrbios americanos,
mas porque era um time de mulheres. O mesmo fenômeno
pode ser detectado no Brasil. Maurren Higa Maggi, a melhor
atleta brasileira da atualidade e uma das melhores saltadoras
em distância do mundo, reconhece que seu prestígio,
em boa parte, se deve ao fato de ser mulher. Maurren pode
tornar-se em Sydney a primeira praticante brasileira de
atletismo do sexo feminino a ganhar uma medalha olímpica.
Mas antes disso ela já foi sondada para posar para
revistas masculinas. Não aceitou, mas sente-se lisonjeada.
"As pessoas sempre comentam que sou mais bonita pessoalmente
do que na televisão. Eu gosto disso", diz ela.
As mulheres esportistas cada vez despertam mais atenção.
O sociólogo australiano Murray Phillips fez um estudo
sobre a maneira como a imprensa de seu país cobre
o esporte feminino e tirou conclusões muito interessantes.
Como regra geral, os noticiosos dão destaque excessivo
ao estado emocional das mulheres. "Os leitores são
informados dos atributos físicos e das condições
emocionais das atletas com muito mais ênfase do que
sobre seu desempenho esportivo", descobriu Murray. "A sensibilidade
da mulher ao stress nunca escapa a quem escreve sobre esporte."
Martina Navratilova, a maior tenista da história
até se aposentar das quadras há cinco anos,
escreveu um artigo, publicado em 1996, em que demonstrava
sua irritação com a diferença de tratamento.
"Se um grande tenista homem chorar na quadra, será
descrito como histérico ou se dirá que ele
está num de seus maus dias?", perguntou Martina.
"Por que sempre que um jogador atua mal se diz que ele 'jogou
como uma moça'? Por que toda mulher atleta é
vista como homossexual e todo homem atleta é presumidamente
heterossexual?"
"Não gosto desse tipo de comparações.
Homens e mulheres são diferentes dentro e fora das
quadras. Ponto final", diz Janeth Arcain, 31 anos, a tricampeã
da liga americana e melhor jogadora do basquete brasileiro
em atividade. As brasileiras do futebol terminaram a última
Copa do Mundo em terceiro lugar e vão a Sydney sonhando
em ganhar uma medalha. A atacante Sissi, que terminou a
Copa como artilheira, foi eleita a segunda melhor jogadora
do mundo. Mas de volta ao Brasil, continuou tendo de jogar
futebol de salão para completar seu salário
de 4.000 reais por mês.
A maior dificuldade que enfrenta, no entanto, é a
língua de serpente. "A primeira pergunta que me fazem
é se tenho namorado. Para os jogadores essa é
uma questão que aparece depois. Por quê?",
pergunta ela. Sissi prefere ver futebol a assistir novela
na televisão e corta o cabelo curtinho, como homem.
"Sexualidade é coisa íntima sobre a qual não
tenho de dar satisfação."
No Brasil, o futebol ainda é o reduto masculino
por excelência. Isso não é machismo
típico de brasileiro. Como regra geral, o esporte
mais popular de um país é reserva de mercado
dos homens. Nos Estados Unidos, o futebol feminino é
uma febre nacional, mas o basquete das mulheres é
uma diversão que encanta uma parcela muito pequena
da população. Não por outra razão,
o futebol feminino, embora já seja o esporte mais
praticado pelas alunas dos colégios de classe média
das grandes cidades, no Brasil ainda é curiosidade
de minorias. Por outro lado, o basquete de mulheres já
gerou atletas que se tornaram ídolos de alcance nacional.