Edição 1 645 -19/4/2000

VEJA esta semana

Brasil
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Desmatamento na Amazônia ainda em patamar elevado
Empresas plantam árvores para compensar a poluição
Mulheres ameaçam a supremacia do homem no esporte
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Elas venceram

As mulheres superam o preconceito, cultivam músculos robustos, corpos
bem definidos e ameaçam a supremacia
dos homens no esporte

Maurício Cardoso
Fotos de Claudio Edinger

Pela primeira vez na história, a delegação brasileira que viaja em setembro para as Olimpíadas de Sydney terá quase tantas mulheres quanto homens. Em que pese algum contratempo até o dia do embarque, o time verde-amarelo deverá contar com noventa mulheres e 110 homens. A porção feminina do esporte brasileiro já supera as médias de participação das últimas Olimpíadas, realizadas em Atlanta. Naquela época o contingente feminino já havia sido recorde. De cada três brasileiros que vestiram o uniforme nacional em Atlanta, um era mulher. Agora, o time feminino representa 45% do total. E não é só uma questão de números, mas também de qualidade. Os jogadores de basquete masculino, por exemplo, nem vão a Sydney, enquanto as mulheres têm potencial para chegar ao pódio. As chances femininas no vôlei são melhores do que as masculinas. No vôlei de praia nem se fala elas podem repetir a façanha de Atlanta, quando conquistaram duas medalhas.

Interessante fenômeno este das atletas olímpicas. Ele é a manifestação de vanguarda de uma situação que as mulheres de hoje vivem com intensidade em outras esferas. Nesse particular, as brasileiras não são uma exceção nem como mulheres, nem como esportistas. Os 3 bilhões de mulheres do planeta estão gradativamente aumentando sua participação na vida social, política e econômica. Há mulheres governando países, dirigindo grandes empresas, fazendo pesquisas, pilotando aviões. Elas já são maioria nas universidades, ocupam cada vez mais postos de trabalho e são as responsáveis pelas compras da família. O Brasil tem mais mulheres com 2º grau completo do que homens. De cada dez trabalhadores de todos os níveis, quatro vestem saias. O esporte, conseqüentemente, faz parte dessa revolução. Até uma década atrás, mulheres esportistas eram olhadas de soslaio. Afinal, julgavam os preconceituosos de sempre, como conciliar atributos tão distintos quanto a condição feminina e a força atlética? A emancipação feminina mudou essa perspectiva. "Musculosas e suadas, as mulheres são aceitas como mulheres hoje em dia. É uma coisa natural. Há alguns anos era inaceitável", diz a americana Lindsay Davenport, a número 1 do ranking mundial de tênis. Para ilustrar essa transformação, VEJA encomendou um ensaio ao fotógrafo Claudio Edinger com seis das mais destacadas atletas olímpicas brasileiras. O resultado, surpreendente, pode ser apreciado nesta reportagem.

As campeãs que estão entrando em campo hoje fazem parte da primeira geração das filhas de pais que valorizam o esporte e os cuidados com o corpo. A paulista Carla Moreno, uma das integrantes da equipe olímpica de triatlo, por exemplo, começou a fazer esporte com 5 anos, acompanhando a mãe na academia de ginástica. Aos 23 anos, Carla é uma profissional bem-sucedida e ajuda os pais nas despesas de casa, em São Carlos, no interior de São Paulo. "Sou de uma família moderna, pratico um esporte moderno e não tive de enfrentar grandes resistências para me impor no esporte por ser mulher", diz ela.

Não faz muito tempo que o mundo passou a encarar a mulher esportista com naturalidade. Agora, com o ocaso das modelos de fisionomia famélica e a súbita valorização na moda de rostos e corpos que parecem vender saúde, o visual esportivo passou a ser quase um pré-requisito da mulher bem-sucedida. A indústria de material esportivo começa a acusar essa valorização. "O material esportivo destinado ao público feminino no passado tinha duas características: era de baixa qualidade e cor-de-rosa. Hoje é inadmissível vender artigos esportivos femininos que não visem o desempenho de alto nível", diz Anne Flannery, gerente da divisão feminina da Spalding, fabricante de material esportivo dos Estados Unidos. O primeiro sutiã especialmente desenhado para a prática de esportes foi produzido em 1977. De lá para cá a evolução foi tremenda. Hoje, até o calçado esportivo feminino tem medidas e desenhos diferenciados. A indústria passou a fabricar produtos específicos para mulheres, como bicicletas, protetores de seios para lutar boxe, mochilas de trekking mais estreitas, raquetes de tênis e varas para salto com medidas e características específicas. A evolução foi fundamentalmente impulsionada pelo mercado. A reação nas vendas veio como conseqüência. Desde 1991, a indústria vende muito mais tênis para mulheres do que para homens. Elas compram mais e aposentam o equipamento antes. Sendo apenas 20% dos golfistas nos Estados Unidos, as americanas adquirem 50% de todos os produtos destinados a esse esporte.

A estranheza que a mulher atleta provocava no passado se transformou em saudável curiosidade. As conquistas femininas no esporte são recebidas com enorme entusiasmo pelo público. Ao ganhar a Copa do Mundo de Futebol Feminino, no ano passado, a seleção dos Estados Unidos foi capa das revistas Time, Newsweek, People e Sports Illustrated, algumas das principais publicações americanas. Ganhou tanto destaque não apenas porque se tornou campeã mundial num esporte que inflama as novas gerações dos subúrbios americanos, mas porque era um time de mulheres. O mesmo fenômeno pode ser detectado no Brasil. Maurren Higa Maggi, a melhor atleta brasileira da atualidade e uma das melhores saltadoras em distância do mundo, reconhece que seu prestígio, em boa parte, se deve ao fato de ser mulher. Maurren pode tornar-se em Sydney a primeira praticante brasileira de atletismo do sexo feminino a ganhar uma medalha olímpica. Mas antes disso ela já foi sondada para posar para revistas masculinas. Não aceitou, mas sente-se lisonjeada. "As pessoas sempre comentam que sou mais bonita pessoalmente do que na televisão. Eu gosto disso", diz ela.

As mulheres esportistas cada vez despertam mais atenção. O sociólogo australiano Murray Phillips fez um estudo sobre a maneira como a imprensa de seu país cobre o esporte feminino e tirou conclusões muito interessantes. Como regra geral, os noticiosos dão destaque excessivo ao estado emocional das mulheres. "Os leitores são informados dos atributos físicos e das condições emocionais das atletas com muito mais ênfase do que sobre seu desempenho esportivo", descobriu Murray. "A sensibilidade da mulher ao stress nunca escapa a quem escreve sobre esporte." Martina Navratilova, a maior tenista da história até se aposentar das quadras há cinco anos, escreveu um artigo, publicado em 1996, em que demonstrava sua irritação com a diferença de tratamento. "Se um grande tenista homem chorar na quadra, será descrito como histérico ou se dirá que ele está num de seus maus dias?", perguntou Martina. "Por que sempre que um jogador atua mal se diz que ele 'jogou como uma moça'? Por que toda mulher atleta é vista como homossexual e todo homem atleta é presumidamente heterossexual?"

"Não gosto desse tipo de comparações. Homens e mulheres são diferentes dentro e fora das quadras. Ponto final", diz Janeth Arcain, 31 anos, a tricampeã da liga americana e melhor jogadora do basquete brasileiro em atividade. As brasileiras do futebol terminaram a última Copa do Mundo em terceiro lugar e vão a Sydney sonhando em ganhar uma medalha. A atacante Sissi, que terminou a Copa como artilheira, foi eleita a segunda melhor jogadora do mundo. Mas de volta ao Brasil, continuou tendo de jogar futebol de salão para completar seu salário de 4.000 reais por mês. A maior dificuldade que enfrenta, no entanto, é a língua de serpente. "A primeira pergunta que me fazem é se tenho namorado. Para os jogadores essa é uma questão que aparece depois. Por quê?", pergunta ela. Sissi prefere ver futebol a assistir novela na televisão e corta o cabelo curtinho, como homem. "Sexualidade é coisa íntima sobre a qual não tenho de dar satisfação."

No Brasil, o futebol ainda é o reduto masculino por excelência. Isso não é machismo típico de brasileiro. Como regra geral, o esporte mais popular de um país é reserva de mercado dos homens. Nos Estados Unidos, o futebol feminino é uma febre nacional, mas o basquete das mulheres é uma diversão que encanta uma parcela muito pequena da população. Não por outra razão, o futebol feminino, embora já seja o esporte mais praticado pelas alunas dos colégios de classe média das grandes cidades, no Brasil ainda é curiosidade de minorias. Por outro lado, o basquete de mulheres já gerou atletas que se tornaram ídolos de alcance nacional.