Permuta-se ar
Empresas plantam árvores para compensar
poluição
Alexandre Mansur
A Central and Southwest Corporation, uma das principais
companhias de energia elétrica dos Estados Unidos,
está gastando 5 milhões de dólares
na recuperação da mata na Reserva da Serra
do Itaqui, em Guaraqueçaba, no litoral do Paraná.
Não se trata, ao contrário do que pode parecer,
de filantropia ou simples bom-mocismo ecológico.
O que a empresa americana pretende é usar o projeto
para compensar suas emissões poluidoras e não
ser obrigada a reduzir a carga de suas chaminés.
Ela não é a única a fazer isso. Até
o final do ano, as Nações Unidas (ONU) devem
regulamentar o controle internacional de emissão
de gás carbônico na atmosfera. Quando isso
ocorrer, cada árvore plantada será uma espécie
de produto no mercado mundial de ar puro. A exemplo do que
está fazendo a companhia energética americana
na Serra do Itaqui, outras empresas estão investindo
atualmente 500 milhões de dólares em projetos
de reflorestamento em todo o mundo.
A idéia de que é inevitável conter
as emissões de gás carbônico na atmosfera
tomou pé durante a conferência da ONU sobre
o meio ambiente em 1992, no Rio de Janeiro. Em dezembro
de 1997, durante um congresso em Kioto, no Japão,
os países desenvolvidos se comprometeram a cortar
5,2% de suas emissões até 2010. Para não
ter de diminuir o ritmo de sua produção industrial
ou investir em tecnologias limpas e muito caras ,
algumas empresas estão preferindo compensar o que
despejam na atmosfera (veja quadro abaixo) plantando
árvores em áreas desmatadas. Para contrabalançar
as emissões de uma usina termoelétrica, é
preciso plantar uma área equivalente ao Parque Nacional
de Itatiaia. A ONU deverá estabelecer em novembro
os critérios para transformar árvores plantadas
em créditos ambientais, que poderão até
ser negociados em bolsa. Enquanto as regras do jogo estão
sendo definidas, muitas companhias já estão
tratando de acumular créditos ambientais.
Há dois projetos no Brasil, além da Serra
do Itaqui. O mais ambicioso é o da Peugeot, que está
aplicando 12 milhões de dólares no plantio
de trinta espécies nativas, em 5.000
hectares no município de Juruena, em Mato Grosso.
A AES Barry Foundation, ligada à AES, empresa americana
de energia elétrica, está bancando 1 milhão
de dólares na fase inicial de um projeto de recuperação
no Parque Nacional do Araguaia, na Ilha do Bananal, em Tocantins.
Há 25 projetos semelhantes no mundo. "Essas empresas
estão apostando no futuro", diz o economista André
Guimarães, do Banco Mundial. "Mesmo que ainda não
ganhem créditos ambientais, já estão
faturando em marketing." A natureza agradece.