Cony, o simplista
Carlos Heitor Cony é o maior intelectual brasileiro
da atualidade. Não me ocorre ninguém que possa
ser comparado a ele. Sua influência se estende por
todas as áreas. É um dos principais articulistas
políticos do país, sendo apreciado tanto por
seus velhos leitores de direita quanto pelos novos de esquerda.
Cony também ocupa uma posição de grande
prestígio num dos campos mais disputados das letras
nacionais: o das crônicas. Quanto à literatura,
tornou-se, nos últimos anos, um extraordinário
sucesso de público e de crítica. Consegue
emplacar inclusive aqueles livros que pareciam definitivamente
esquecidos e que foram exumados de seu passado. Nunca li
uma resenha negativa a seu respeito. Até entrou para
a Academia Brasileira de Letras. Uma verdadeira unanimidade.
Foi por isso que resolvi pegar no pé do Cony: porque
ele é o que temos de melhor. E, se ele representa
o que temos de melhor, nem ouso imaginar o que temos de
pior. Para ser mais exato, refiro-me a uma carta que Cony
mandou a Ariano Suassuna e que este último transcreveu
em sua coluna de jornal. Na carta, Cony elogiava um artigo
de Suassuna, que deblaterara contra o "Deus capitalista
do presidente Clinton, o Deus odiento e insensível
dos teólogos brancos, anglo-saxões e protestantes".
Depois de elogiar Suassuna, Cony recordava que mais de um
terço da população mundial vivia na
miséria absoluta, acordando sem saber o que iria
comer naquele dia. Temeroso de que tais palavras pudessem
soar como retórica rasteira, Cony também se
sentiu na obrigação de apresentar uma solução
pragmática para o problema: "Bastariam 10% da renda
líquida dos países desenvolvidos para diminuir
ou mesmo acabar com essa chaga social".
Não entendi direito como funcionaria o projeto.
Essa taxa de 10% (felizmente os odientos protestantes estão
acostumados ao dízimo) seria distribuída todos
os anos ou uma única vez? De que maneira seria arrecadada?
Através de impostos? Os desempregados suecos financiariam
os milionários bolivianos? Outra coisa: o Brasil
é pobre o bastante para receber parte dessa bolada
ou teríamos de entregar 10% do nosso dinheirinho
a um país ainda mais miserável, como Angola,
por exemplo? A propósito, o ex-presidente português
Mário Soares acaba de denunciar que a corrupção
rola solta no governo angolano. O que os países desenvolvidos
fariam se descobrissem que, em vez de aliviar a miséria,
os seus 10% estão sendo desviados por um bando de
ladrões? Deporiam esses governos? Com a força?
No mesmo dia em que a carta de Cony foi publicada, ele
escreveu outro artigo em que se definia um pessimista, pois
olhava em torno e não via saída para a miséria
de mais da metade (não era um terço?) da humanidade.
Pode parecer contraditório que, num lugar, ele aponte
uma saída e, logo abaixo, a negue. Mas não
tem nada de contraditório. São expressões
de um idêntico impulso simplificatório. É
um problema e tanto: os intelectuais brasileiros simplificam,
quando deveriam complicar. É complicando que os intelectuais
ajudam a criar resistências na sociedade contra outros
tipos de simplificação, como a demagogia política,
o fundamentalismo religioso, o racismo, a censura. Quando
não complica, um intelectual não serve para
nada.