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Edição 2052

19 de março de 2008
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Ponto de vista: Lya Luft
Uma história de delicadeza

"Dirão que aprovo que uma adolescente engravide
e dê seu bebê. Não aprovo nem recomendo.
Recomendo que a gente abra os olhos e veja em
Juno a história de delicadezas que o filme também é"

Raramente comento livros e filmes: estou do outro lado do balcão. Mas leio e escuto da parte de profissionais ou amadores, que pensam saber de tudo, demasiadas bobagens sobre o assunto. Eu apenas dou a minha interpretação da humanidade expressa no filme Juno. Original, provocador, às vezes irritante. Não me interessa se é ou não um "grande filme". Por que só assistir aos chamados grandes filmes e só ler os ditos grandes livros?

Ilustração Atômica Studio


Para os moralistas, Juno é o elogio da irresponsabilidade: uma adolescente americana engravida quase por acaso, é apoiada pela família, mas resolve entregar o bebê a quem julga que serão bons pais. Para os convencionais, será improvável: uma quase-menina passa pela prova extrema da maternidade, dá a criança, e tudo termina com ela e o namorado cantando num jardim florido. Mas o filme, como a adolescente Juno, é singular. Todo o tempo a gente hesita entre botá-la de castigo e botá-la no colo. Solitária, caminha contra a corrente de seus colegas nos corredores da escola, expondo-se aos olhares críticos. Surpreende por ser muito mais informada do que o habitual em sua idade. Nada convencional, mas vivendo num lar afetuoso, transa sem proteção, engravida. Mesmo apoiada pela família, resolve tomar a si as decisões: vai fazer um aborto numa clínica. Protegendo-se da emoção, com a típica arrogância dos assustados, fala do bebê como "a coisa" que ela simplesmente vai expelir.

Mas a natureza inclui sentimentos além de hormônios, ou faz hormônios manipular sentimentos. Dando-se conta de que tem dentro de si uma pessoazinha, "com unhas", Juno desiste do aborto: vai dá-la ao que parece um casal ideal. Responsável, ela sabe que, com seu namorado de 16 anos, não tem condições de criar um filho e não quer passar esse encargo para a família. Com bravata típica, insiste em que tudo é apenas um processo fisiológico, mas encanta-se com a ecografia da criança, a madrasta a faz comer comida saudável e pede que não chegue "perto do microondas".

A certa altura, o casamento dos candidatos à adoção desmorona. Primeira reação nossa (minha): agora ela vai ficar com a criança, ou terá um caso com o futuro pai adotivo. Mas – um de seus encantos – o filme tem surpresas: observadora e determinada, vendo a candidata a mãe, já separada do marido, brincando amorosamente com uma criança, Juno decide entregar-lhe o bebê.

A princípio impliquei com a cena final: depois de tudo, violão e flores? Mas um autor de ficção escreve o que quiser. Uma adolescente nada fútil entrega seu bebê para adoção num gesto consciente, aprende a amar o pai dele, um meninão feioso que, segundo ela, é "o cara mais legal de todos". A vida segue: que seja boa. Dirão que aprovo que uma adolescente engravide e dê seu bebê. Não aprovo nem recomendo. Recomendo que a gente abra os olhos e veja em Juno a história de delicadezas que ele também é.

Lya Luft é escritora

 



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