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Edição 2052

19 de março de 2008
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Cinema
A QUIMERA URUGUAIA

No belo O Banheiro do Papa, contrabandistas
de fronteira sonham com a riqueza súbita


Isabela Boscov

Divulgação

Valvulina e Beto pedalam com seu contrabando: pequenas coisas para falar do universal


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Trailer do filme

Em 1988, o papa João Paulo II incluiu no roteiro de uma turnê pela América do Sul uma visita à pequena cidade uruguaia de Melo, perto da fronteira com o Brasil. Uma comoção, insuflada pela modesta imprensa local, tomou conta do lugarejo: 20 000, ou 40 000, ou mesmo 60 000 brasileiros deveriam ir até ali em caravana, para ver Sua Santidade – e a quantidade de sanduíches, refrigerantes e espetinhos de lingüiça que tanta gente poderia consumir virou a grande miragem na vida da paupérrima Melo. Centenas de moradores se endividaram com vizinhos, fizeram empréstimos no banco ou até venderam suas casas para financiar barracas, com a idéia de faturar em um dia aquilo que nem em um ano inteiro seriam capazes de ganhar. Em O Banheiro do Papa (El Baño del Papa, Uruguai/Brasil/França, 2007), desde sexta-feira em cartaz no país, um personagem fictício vira o protagonista dessa história verdadeira: Beto (César Troncoso), que, na companhia do vizinho e inseparável amigo Valvulina (Mario Silva), sustenta a família contrabandeando miudezas do Brasil para os mercadinhos de sua cidade. Todos os dias, os dois rodam 60 quilômetros, de bicicleta, transportando cargas e fugindo da fiscalização. É uma vida dura, e a dupla, como toda Melo, se encanta com a chance de riqueza súbita. Valvulina pensa em vender churrasquinhos; Beto, um original, imagina que tanta comida há de seguir seu caminho inevitável, e decide construir um banheiro público em seu quintal – um banheiro de verdade, já que os peregrinos provavelmente não se entusiasmariam com a instalação precária de que ele próprio, a mulher e a filha dispõem.

Co-dirigido pelos uruguaios Enrique Fernández e César Charlone, este indicado ao Oscar pela fotografia de Cidade de Deus, o filme que resulta desse entrecho é uma pequena jóia. Não só pela história, que é um achado, mas pela maneira como a desdobra: uma minuciosa crônica de costumes em que tanto as notas dramáticas quanto as humorísticas vão se acentuando até desaguar na tragédia – e daí de volta à comédia. Para alguém que vive da mão para a boca, como Beto, construir um banheiro é uma ambição imensa. Acordos desagradáveis têm de ser feitos, insatisfações domésticas têm de ser enfrentadas e, numa seqüência de tensão prolongada, um vaso sanitário tem de ser arrastado do Brasil para o Uruguai. Nesse ponto, o espectador já sabe aquilo que Beto ainda não adivinhou – que o número de brasileiros que acorreram a Melo foi uma fração ridícula do que se esperava, e que, em vez de uma graça, o que desabou sobre a cidade foi um raio. Suave e naturalista na forma, sempre colado aos pequenos acontecimentos da rotina de seus personagens, O Banheiro do Papa é entretanto corrosivo no que tem a dizer.



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