Em 1988, o papa João Paulo
II incluiu no roteiro de uma turnê pela América
do Sul uma visita à pequena cidade uruguaia de Melo,
perto da fronteira com o Brasil. Uma comoção,
insuflada pela modesta imprensa local, tomou conta do lugarejo:
20 000, ou 40 000, ou mesmo 60 000 brasileiros deveriam ir até
ali em caravana, para ver Sua Santidade e a quantidade
de sanduíches, refrigerantes e espetinhos de lingüiça
que tanta gente poderia consumir virou a grande miragem na vida
da paupérrima Melo. Centenas de moradores se endividaram
com vizinhos, fizeram empréstimos no banco ou até
venderam suas casas para financiar barracas, com a idéia
de faturar em um dia aquilo que nem em um ano inteiro seriam
capazes de ganhar. Em O Banheiro do Papa(El
Baño del Papa, Uruguai/Brasil/França, 2007),
desde sexta-feira em cartaz no país, um personagem fictício
vira o protagonista dessa história verdadeira: Beto (César
Troncoso), que, na companhia do vizinho e inseparável
amigo Valvulina (Mario Silva), sustenta a família contrabandeando
miudezas do Brasil para os mercadinhos de sua cidade. Todos
os dias, os dois rodam 60 quilômetros, de bicicleta, transportando
cargas e fugindo da fiscalização. É uma
vida dura, e a dupla, como toda Melo, se encanta com a chance
de riqueza súbita. Valvulina pensa em vender churrasquinhos;
Beto, um original, imagina que tanta comida há de seguir
seu caminho inevitável, e decide construir um banheiro
público em seu quintal um banheiro de verdade,
já que os peregrinos provavelmente não se entusiasmariam
com a instalação precária de que ele próprio,
a mulher e a filha dispõem.
Co-dirigido pelos
uruguaios Enrique Fernández e César Charlone,
este indicado ao Oscar pela fotografia de Cidade de Deus,
o filme que resulta desse entrecho é uma pequena jóia.
Não só pela história, que é um achado,
mas pela maneira como a desdobra: uma minuciosa crônica
de costumes em que tanto as notas dramáticas quanto as
humorísticas vão se acentuando até desaguar
na tragédia e daí de volta à comédia.
Para alguém que vive da mão para a boca, como
Beto, construir um banheiro é uma ambição
imensa. Acordos desagradáveis têm de ser feitos,
insatisfações domésticas têm de ser
enfrentadas e, numa seqüência de tensão prolongada,
um vaso sanitário tem de ser arrastado do Brasil para
o Uruguai. Nesse ponto, o espectador já sabe aquilo que
Beto ainda não adivinhou que o número de
brasileiros que acorreram a Melo foi uma fração
ridícula do que se esperava, e que, em vez de uma graça,
o que desabou sobre a cidade foi um raio. Suave e naturalista
na forma, sempre colado aos pequenos acontecimentos da rotina
de seus personagens, O Banheiro do Papa é entretanto
corrosivo no que tem a dizer.